O Sistema de Saúde e o Turismo Hospitalar

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Paula Tooths
Paula Tooths – Jornalista, produtora de TV e escritora, autora de quatro títulos publicados no Reino Unido e repórter do Na Pauta Online.

Um dos assuntos de maior polêmica hoje no Reino Unido é o NHS (National Health Service), equivalente ao SUS brasileiro. Por décadas, o sistema nacional de saúde foi motivo de orgulho para este país.

A falta de orçamento fez com que o sistema deteriorasse, mas este não foi o único motivo.

Médicos, enfermeiros e outros profissionais da área de saúde não têm ajuste salarial consideravel desde a última grande crise, em 2009. Muitos deles trabalham pelo Sistema com o ‘contrato zero’, que basicamente só será pago pelas horas trabalhadas sem nenhum benefício.

Turismo Médico

Os europeus sempre souberam do sistema gratuito que até um passado bem próximo, não só oferecia atendimento simples, mas exames complexos, tratamentos para câncer e até implantes mamários para pacientes que diziam estar deprimidas porque tinham bustos muito pequenos.

O sistema público de saúde ia muito além. Paciente com dores nas costas eram, e ainda, são o exemplo mais comum em processos de fraude. Para dores nas costas não há exame para provar que tal existe ou não, logo, o paciente ganhava um atestado de invalidez, um carro novo do governo, com seguro e o famoso crachá para poder estacionar em qualquer lugar, beneficio deficiência que pode ultrapassar R$ 500.00 por semana ou em muitos casos, a aposentadoria definitiva. Para casos assim, ainda há o tão sonhado cartão de isenção, que dá direito a medicamentos gratuitos.

Sabendo que o sistema pode ser facilmente manipulado não só em casos como o acima citado, mas em muitos outros, os europeus se animaram e para cá mudaram. Alguns declaram residência em alguma cidade britânica, mas não moram aqui. Outros viajam uma vez por mês, ou até por semana, para receber tratamento, como o de câncer, por exemplo, ou só para fazer exames, lembrando que hoje é possível encontrar tíquetes aéreos com preços econômicos entre os países da comunidade européia (a partir de R$50.00).

Há também o turismo do aborto. Na Inglaterra, Escócia e Pais de Gales, o aborto é permitido, sem maiores explicações, até a 24ª semana de gestação. A Irlanda do Norte é o único estado do Reino Unido que não permite o término da gravidez nem em casos de estupro ou riscos para a gestante.

Constantes Mudanças

Quando aqui cheguei, os residentes ilegais conseguiam atendimento gratuito, mas hoje é bem diferente. Para usar o sistema de saúde gratuitamente, um morador precisa visitar o GP, equivalente ao medico de família do posto de saúde, mais próximo de sua casa e se inscrever. Primeiro este passará por exames médicos de rotina e também devera apresentar documentos como identificação, comprovante de residência e no caso dos estrangeiros, um visto ou passaporte europeu.

Com o rápido crescimento populacional, aqui no centro de Londres, muitas clinicas já não aceitam novos pacientes, a não serem aquelas que atendem casos privados e vão cobrar imediatamente por uma consulta, que pode custar cerca de R$700.00.

Mesmo inscrito, muitas vezes para iniciar um processo de cirurgia ou parto, documentos serão requisitados para provar que o paciente é realmente aqui legalizado e não esteve fora do país por um período superior a 30 dias nos últimos 12 meses. Os hospitais vão atender sim, mesmo aqueles que não têm direito, mas cobrará na saída valores salgadíssimos.

Cada centro médico recebe a quantia aproximada de £15 (R$72.00) por ano do ministério da saúde por cada paciente inscrito, mais cada consulta, exame e procedimento. Cartas e atestados são cobrados um valor simbólico de £10.00 (R$48.00) mesmo de quem aqui vive legalmente e muitos dos médicos registrados não fornecem.

Todas estas clinicas são particulares, financiadas pela união. No intuito de aumentar os ganhos anuais, aceitaram mais inscrições do que poderiam administrar. É claro que má administração gera conseqüências.

Espera interminável

Hoje, para marcar uma consulta, a média de espera é de 8 semanas. Para marcar um exame simples, que possa ser feito no próprio centro de saúde, 4 semanas. Mas os exames só podem ser marcados após consulta, com o pedido de um médico.

Para visitar um especialista, há a necessidade de uma carta de referência do GP. Para um dermatologista por exemplo, a espera é de um ano. O famoso Papa-Nicolau só pode ser feito a cada 3 anos e a mamografia a cada 5 anos. Ambos feitos e avaliados por enfermeiras.

Os prontos socorros e centros de emergência têm uma marca estabelecida pelo governo de que pacientes deverão ser atendidos em 2 horas, com a marca máxima de 3; mas sabemos por empresas de estatística de que a verdade é bem diferente. O atendimento tem média nacional de 8 horas. A triagem é feita por uma enfermeira e a decisão também é do enfermeiro se o paciente veré um medico ou não.

Com exceção dos centros de cirurgia plástica e alguns novos empreendimentos estrangeiros, por regra geral, todos os hospitais são públicos. Existem planos de saúde como no Brasil, com pagamento cooperativo como acontece nos Estados Unidos, mas os médicos e hospitais serão os mesmos e o tempo de espera bem similar. A grosso modo, a diferença será de que em caso de cirurgia, um quarto privado (se disponível) será oferecido.

Voando na contra mão

Assim como muitos europeus vem para o Reino Unido para receber tratamento, vemos um movimento contrário dos britânicos. Quando precisam de especialistas, cirurgias plásticas ou tratamentos dentários já que a espera é sem fim, ou em alguns casos, impossível se o caso não for avaliado como urgente. O destino mais comum é a República Tcheca.

A economia é grande. Um implante mamário em Londres não custa menos do que R$50.000, já em Praga a mesma cirurgia em um bom hospital, custara cerca de R$12.000. Uma lipoescultura para uma área em Londres custa cerca de R$38.000. Em Praga, uma lipoescultura para três regiões custa pouco mais de R$4.000.Certamente há o custo adicional de passagens aéreas e hotel. Ainda assim, a conta será menor. Tíquetes para Praga (ida e volta) mais acomodação por 4 dias, que é o tempo solicitado pela junta medica após a saída do hospital, custará R$1.200,00. E bastante comum encontrar pessoas com aparelhos dentários que voam uma vez por mês para a manutenção porque a odontologia na Inglaterra tem valores bem amargos.

Medicina Tech

Com a deterioração do Sistema de saúde e o numero de pacientes que não diminui, empresários e médicos se uniram e investiram em um projeto inovador. Para um atendimento rápido e eficiente, o grupo criou um app que promete atendimento em até 10 minutos. A mensalidade custa R$97.00 e o uso e ilimitado.

O Sistema público prometeu o mesmo sistema, que sim, foi criado mas continua em testes por pelo menos 3 anos.

A saúde do Reino Unido tem muito a melhorar, mas pelo que assistimos diariamente, a tendência é de piora progressiva, pelo menos no Sistema público.

*Os valores em Reais acima apresentados, foram convertidos pelo valor comercial da Libra Esterlina em 11 de maio de 2018.