Hoje é dia de ter orgulho de quem somos!

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Fabricio Rosa
Fabrício Rosa é Pré-candidato ao Senado em Goiás pelo PSOL, Coordenador Estadual da Aliança Nacional LGBTI+, Membro da RENOSP – Rede Nacional de Operadores de Segurança Pública LGBTs Online.

Hoje é o dia internacional do orgulho em ser lésbica, gay, bissexual, transgênero, intersexual ou daqueles com sexualidade/identidade diferente do padrão heteronormativo. A data marca o aniversário de uma série de manifestações da comunidade LGBTI+ contra a invasão policial ao bar gay novaiorquino Stonewall, em 28 de junho de 1969. Para marcar a data quero falar um pouco sobre como é ser um homem gay, interiorano e policial. Vamos lá.

“Tira a mão da cintura, menino.”

Nasci em uma família pobre do interior de Goiás. Nela havia amor, mas também muita violência. As violações eram físicas – com direito a vergão, sangue e tudo – mas também simbólicas: “Para de brincar com as meninas”, “Não pode brincar de boneca”, “engrossa essa voz, rapaz”, “tira a mão da cintura”. Eu era muito próximo a um primo. Certa vez presenciei meu pai dizendo para minha mãe: “Não deixe o Fabrício andar com o Fulano, porque ele é muito afeminado”. Quando eu estava na pré-adolescência percebi que havia algo diferente em mim: eu sentia atração pelos meus colegas. Era uma atração velada, negada e dolorida. Era algo que, de modo algum, eu desejava. Assim, passei a frequentar ainda mais a igreja para fugir daquela abominável condição. Enquanto católico, me confessava semanalmente, rezava terços e mais terços, fui muito “igrejeiro”, catequista, coordenador de grupo de jovem. Virei evangélico com a vã crença de que seria “curado”. Fiz campanhas, jejuns e orações para que “aquilo” saísse de mim.

Vou te pegar lá fora, viadinho.”

São muitos os gays que crescem ouvindo essa frase. Poucos são aqueles cujas ameças não se concretizam em ações. Durante o ensino fundamental eu tinha muitos amigos, mas também alguns inimigos gratuitos. Rapazes que nunca tinham falado comigo, e que pareciam me odiar. Eu tinha cerca de 10 anos e um desses jovens mais velhos me colocou um apelido que eu não gostava: “minigay”. Eu sequer sabia o que era ser gay, mas já tinha certeza de que não era algo bom. Ele mesmo, um dia ao final da aula, quando esperávamos o ônibus, me deu uma surra, por motivos que eu ainda não compreendia. Cheguei em casa sujo e machucado. Essa não foi a única vez que apanhei por ser gay. Com 11 anos eu vendia picolé. Certa vez, tive o carrinho de picolés roubado. A violência não ficou apenas no furto, mas os xingamentos todos eram homofóbicos, com tonalidades que eu não conhecia muito bem.

Você escolhe: é gay ou é meu filho.”

Eu não saí sozinho do armário. Fui violentamente empurrado dele. Aos 18 anos, ainda meio em dúvida sobre minha sexualidade, contei para um tio que eu estava gostando de um rapaz. Esse tio contou para alguns familiares. Determinado dia cheguei em casa e vi meu pai chorando em um canto. Em outro dia vi acontecer de novo. Achei estranho, porque até então não o tinha visto chorar. Certa noite, ao chegar de uma lanchonete, encontrei minha mãe chorando no meu quarto – que eu dividia com meu irmão. Ela disse que queria conversar comigo: “Ouvi dizer que você é gay”. Era 1998. Meu mundo caiu! Mas eu não neguei. Em um súbito de lucidez e coragem eu disse: “Sim, sou gay e não escolhi ser”. Foi quando ouvi uma das frases que mudaria minha vida: “Pode pegar suas coisas e sair de casa.” Mudou minha vida não porque estremeceria a relação que tenho com minha mãe, que é fantástica. Ela é, sem nenhuma dúvida, minha melhor amiga. Mas transformou tudo porque me trouxe para Goiânia e para a polícia. Hoje compreendo que meus pais, amigos e familiares estão envolvidos por um injusto sistema patriarcal, que presume que todos são heterossexuais, e cria expectativas sobre corpos infantis, cobrando deles comportamentos padronizados dentro daquilo que se compreende por masculino ou feminino.

É esse sistema que expulsa adolescentes de casa, os exclui da relação com o sagrado, os violenta nas ruas, zomba de suas formas de ser. Para os LGBTs, as expressões desse sistema acabam por representar um pouco do que fomos levados a ser, mas, sobretudo, representam aquilo que fomos impedidos de ser. Daquilo que nos foi retirado. É um sistema que precisa mudar.

Polícia é para os fortes”

Estou na polícia há quase duas décadas. Já convivi com incontáveis atitudes preconceituosas e excludentes que, infelizmente, são naturalizadas por muitos: piadas, silenciamentos, tentativas de demonizar as relações afetivas de quem não é heterossexual, cerceamentos de oportunidades nas carreiras e nas promoções, não reconhecimento das identidades e do nome social, etc.

Hoje faço parte de uma associação de policiais LGBTs. Lutamos para que policiais LGBTI+ sejam tratados com dignidade e para que haja mais de nós nas polícias! É fundamental que as corporações tenham a cara da comunidade a ser policiada. Ora, se existem lésbicas, gays e travestis no mundo, por que eles não podem existir nas instituições de segurança pública? Vale lembrar que nos EUA, e em outros países, existem reservas de vagas para quem é quotidianamente impedido – oficial ou extraoficialmente, de ingressar nas polícias. Por que não fazer o mesmo por aqui?

Tenho muito orgulho de ser um policial gay e sei bem o significado da frase que ouvi no primeiro dia da minha carreira policial. Ser gay, mulher, deficiente, idoso, ou pertencer a qualquer grupo vulnerabilizado, e se manter forte, não é tarefa para qualquer um!

A força de uma corrente se mede pela força de seu elo mais fraco”

Hoje luto para fortalecer os elos mais fracos da corrente humana. Luto pela liberdade em suas múltiplas cores. Para que possamos ser o que quisermos, sem nos transformarmos em motivo de riso, escárnio, zombaria e exclusão.

Por atuar no enfrentamento à violência sexual e ao tráfico de pessoas, convivo de perto com os lugares que são reservados para os LGBTs, especialmente os mais pobres e as travestis: o lugar do tratamento desrespeitoso, do escárnio, da piadinha, da violência. O lugar da prostituição, muitas vezes pela carência de outras possibilidades.

Luto para que a dor das violências e das exclusões se transformem em resistência e compreensão do avançar civilizatório, pois a compreensão e o perdão também são apostas éticas na humanidade. Luto para que as pessoas compreendam que o orgulho LGBT nasce para contrapor um regime de violações e para que quem não é LGBT agradeça por não precisar de um “dia do orgulho hétero”, e, ao mesmo tempo, se una contra os preconceitos. Só assim, no futuro, todo dia será dia dos LGBTI+, dos héteros, e de toda a diversidade humana.

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