A ameaça croata, ou sobre como fabricar um monstro

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Foto: Jornal Grande Bahia
Jogadores da Croácia comemoram a vitória na cobrança de pênaltis contra a Rússia
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Roberta Maia Gresta
Robeta Maia Gresta – é eleitoralista, professora e autora do blog “a Fala”e colaboradora do site Na Pauta Online.

Na montanha russa (ups) da internet brasileira, a Croácia está indo de simpático time da toalha de piquenique a ameaçadora potência fascista. Por algum insondável motivo, tem gente resolvendo que a final da Copa tem que ser a luta do bem contra o mal.

Esclareça-se que o “bem” será representado pela França. A despeito do fascismo e da xenofobia lá crescentes. A despeito da discriminação dos migrantes africanos no país (muitos vindos de ex-colônias arrasadas pelo capitalismo europeu). A despeito das leis que proíbem às pessoas ostentarem seus símbolos religiosos em locais públicos. A despeito do hino que fala de seus batalhões marchando para triunfar sobre o inimigo…

Ah, que absurdos são esses!

Sabemos que não é correto rotular um povo inteiro por seu passado ou discriminá-lo por suas contradições políticas atuais. Sabemos que hinos sangrentos têm um contexto histórico e que é possível resinificá-los num, digamos, patriotismo pacífico. Sabemos que a Copa não existe pra resolver questões geopolíticas centenárias ou milenares e que o mais que ela ajuda é como símbolo de uma convivência harmônica possível.

Pelo visto, sabemos isso tudo se falamos da França. Para a Croácia, não se aplica.

Num súbito arroubo de interesse dos brasileiros pela situação dos Bálcãs, o povo croata se tornou vítima de um misto de ignorância, desinformação, e preconceito. Curiosamente, esses elementos são próprios da estratégia fascista de produção e desumanização do “inimigo”: incidentes aleatórios são associados a falhas morais insuperáveis de todo um povo, em uma narrativa parcial, seletiva e maniqueísta destinada a implantar medo e histeria.

Vejamos, então, porque os croatas estão sendo tratados como indignos de torcida e comparemos as acusações com a (pouca) informação disponível sobre os fatos:

Foto: Esporte Fera

1. O jogador Vida foi acusado de fazer uma saudação polêmica. A frase é “Glória à Ucrânia” e seria provocativa aos russos por questões independentistas. O atleta se desculpou, negando que tenha sido um ato político e situando a fala como homenagem aos companheiros do Dínamo de Kiev. Ainda assim, reconheceu na TV russa que cometeu um erro. https://www.google.com.br/amp/s/globoesporte.globo.com/google/amp/globoesporte.globo.com/futebol/selecoes/croacia/noticia/vida-se-desculpa-em-televisao-russa-apos-comentarios-politicos-envolvendo-a-ucrania.ghtml

Foto: Maringá Post

2. De provocação aos russos o ato de Vida passou a ser lido como saudação FASCISTA. O mais curioso disso é que o Dínamo de Kiev protagonizou uma das histórias de maior coragem na resistência simbólica ao nazismo durante a II Guerra. Num torneio arranjado pra consagrar a Alemanha, o pequeno time ucraniano disparou a vencer. Na final, os atletas do Dínamo se recusaram tanto a entregar o jogo quanto a fazer a saudação nazista. O que custou muito aos atletas. https://historiazine.com/o-dia-em-que-o-futebol-venceu-o-nazismo-6f7e49355622?gi=5f4b3952033a

3. Mais um salto e de saudação VERBAL FASCISTA passa-se a afirmar que jogadores croatas teriam feito a saudação GESTUAL NAZISTA em campo. Um vídeo, na verdade da Copa do Rei, mostra o jogador Modric andando no meio do campo, risonho e cansado, mandando um beijo para a torcida. A imagem foi congelada e invertida em um quadro no qual, depois de lançar o beijo, seu braço e mão estão alongados. Não deve durar meio segundo, a mão se fecha em um gesto de vibração… mas aí estaria a prova cabal de que ele fazia o Heil Hittler. Mesmo o vídeo foi posto em câmera lenta pra sustentar a afirmação.

4. Requentaram um episódio de 2015, quando surgiu uma suástica no gramado de estádio croata em jogo contra a Itália. Parece pouco importar que, na época, tenha havido inclusive pedido formal de desculpas da Federação croata, que repudiou o ato e o atribuiu a extremistas, além de prontamente tentar ajeitar a grama para fazer sumir o relevo durante a partida. http://globoesporte.globo.com/blogs/especial-blog/brasil-mundial-fc/post/suastica-marcacao-de-campo-gera-polemica-em-duelo-croacia-x-italia.html

Foto: Futebol Interior

5. Os atletas croatas foram acusados de entoarem uma canção “ultranacionalista que pregaria a morte dos sérvios”. Tradução autorizada não vimos, recebemos essa informação, e pronto. Será que a música diz algo como conclamar cidadãos a pegarem em armas para que o sangue impuro de traidores, escravos e reis conjurados irrigue o solo a ser arado… opa, se fizerem isso estarão plagiando A Marselhesa, que os franceses cantarão domingo a plenos pulmões.

Suponhamos que sim, que a música peça sangue sérvio. Então resgatemos – ou, aprendamos – noções mínimas sobre a Guerra dos Bálcãs, que terminou em 1994. A Sérvia de Slobodan Milosevich foi derrotada por uma aliança entre Croácia, Bósnia e OTAN (França, inclusa, portanto) e condenada por 90% dos crimes de guerra praticados no conflito, entre eles o genocídio do povo Bósnio.

No território croata, sérvios radicais queriam fundar uma nação étnica pura. Em 2015, decisão do Tribunal Penal Internacional absolveu Sérvia e Croácia de acusações recíprocas de genocídio. https://www.google.com.br/amp/s/amp.rfi.fr/br/europa/20150203-corte-internacional-absolve-servia-e-croacia-de-crime-de-genocidio

Não se trata, portanto, de dizer se uma canção croata “contra” os sérvios é certa ou errada, bonita ou feia. Trata-se apenas de compreender o porquê de ela eventualmente existir. E, também, de não rotular um povo de fascista a partir de uma interpretação literal – bem, de uma letra que nem sabemos ao certo o que diz – e superficial de uma música que remete às feridas deixadas na dilaceração da Iugoslávia.

Evidentemente cabe supor que existam neo-fascistas, racistas, radicais de todo tipo na Croácia, talvez mesmo entre os atletas da seleção. Mas o que me espanta é por que, da noite pro dia, seriam eles a generalizar a cara da Croácia?

Não é preconceito nosso sermos capazes de “situar” o neo-nazismo na Alemanha e a xenofobia na França (pra não falar do racismo genocida no Brasil), mas prontamente referendar a identificação ampla da Croácia como um país fascista?

Tentando entender essa súbita fúria anti-croata, topei com uma matéria da Lance sobre as eliminatórias da Copa de 2014, quando Sérvia e Croácia se enfrentaram. Li avidamente porque, notem, são vozes vindas de dentro da tensão, croatas e sérvios falando de guerra e futebol.
https://www.google.com.br/amp/s/www.terra.com.br/amp/esportes/futebol/croacia-e-servia-se-enfrentam-20-anos-depois-da-guerra,cf24e01a4fc8d310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html

Recomendo fortemente que leiam. O fechamento é uma lição necessária a esses 4 dias que antecedem a final: o técnico sérvio, que viveu a guerra, cobra de seus atletas aplaudir o hino da Croácia, como sinal de respeito.

Eu terminei convicta de que, no mínimo, temos que respeitar o esforço de reconstrução desses povos, ou de qualquer outro, e o direito dos croatas de celebrar a alegria de disputar a final da Copa.

Quem discordar, me diga aí se devemos, como honrosos brasileiros, abdicar do Tri conquistado para uma ditadura que fez da superioridade no futebol um de seus mais potentes símbolos de amor à pátria.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Excepcional seu texto, professora!
    O primeiro ponderado, lúcido e não sensacionalista que encontro sobre o assunto 🙂

  2. Essa do tal gesto do jogador de saudação a Hitler …é o fim da picada .Deus do Céu .!! Imagine só se o Cristo Redentor de braços abertos para o Rio de Janeiro, para o RIO DE JANEIRO, poderia para gente assim, estar dizendo ,sob uma ” ótica maluca” em que um picar de olhos já incriminou os jogadores croatas , como passou a circular na mídia ,contra a Seleção deles , perseguindo até gestos de limpar o rosto erguendo o braço . É realmente algo inacreditável e estarrecedor .E qual o nome ou diagnóstico para esse grau de assédio e perseguição oportunista a todo e qualquer custo a um país ?

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