O racismo das piadas racistas: falta desenhar ou aceitar que o mundo mudou?

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Roberta Maia Gresta
Robeta Maia Gresta – é eleitoralista, professora e autora do blog “a Fala”e colaboradora do site Na Pauta Online.

O próximo homem branco convicto de ser vitimizado pelo politicamente correto é o comediante “Jacaré Banguela”.

Assim como o youtuber de dias atrás, a decepção do moço é descobrir que não dá pra combinar mais “pele negra + estereótipo marginalizado/oprimido” pra fazer suas piadas.

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Hm, descobrir é modo de dizer. Descobriu nada. O problema lhe foi apresentado, mas ele indignado, sem entender porque não pode falar que o filho do Will Smith parece um flanelinha do Rio.

Palavras dele, depois de um negro, pai da paciência, explicar pra ele, como quem fala com uma criança de 5 anos, por que é que racismo não tem graça:

“Mas não posso nem fazer o comparativo? A piada foi só comparar um com o outro. “Olha como isso se parece com isso”.”

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“Concordo com tudo isso aí. Mas não posso nem fazer o comparativo? A piada foi só comparar um com o outro. “Olha como isso se parece com isso”.

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Mundo cruel. Ele não pode nem “fazer um comparativo” e dizer que um negro parece um flanelinha… Ah, sim: ele jura que a graça eram as roupas.

As roooooupas, gente, claro! Lembram que com Mbappe a graça era a velocidade?

Então.

Esses humoristas todos são formados na Escolinha do Privilégio do Homem Branco. Ela ignora que o mundo da comédia já aprendeu a levar a graça da piada, que está na denominada “quebra de expectativa”, para realizar críticas e provocar reflexões. A Escolinha só sabe jogar com a “confirmação da expectativa”, que é o reforço dos estereótipos negativos de pessoas que não ostentam seu privilégio. Negros, mulheres, gays, pessoas trans e outros grupos socialmente desprestigiados são oferecidos ao riso do homem branco cis hétero de elite, reduzidos ao mote “olha como essa pessoa é patética por não ser como eu”.

Pode chamar a atenção o fato de que nem todos os diplomados pela Escolinha são homens brancos cis hétero de elite. Mas isso é porque ela recebe de bom grado as pessoas que, pertencentes aos grupos ofendidos pela piada, estejam dispostos a reproduzir a cartilha. Desde que esses alunos aprendam que ofensa é “piada” e que discriminação é “humor”, é até um trunfo para a Escolinha poder exibir essas pessoas pro mundo: “viu o fulano, negro, fazendo piada sacaneando negro? Você que é um chato.”

Lá na Escolinha se aprende, entre outras coisas, que é super engraçado dizer que negros fazendo coisas parecem ladrão, flanelinha… macaco. Macaco? Sim, acredite se quiser: o Jacaré Banguela, na sua cruzada em nome do humor, diz que “negro tem que poder ser [chamado de] macaco”.

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É curioso observar que a justificativa dada para que se possa chamar pessoas negras de macaco é que se pode chamar pessoas gordas de baleia. Sendo o próprio Jacaré Banguela gordo, é como se dissesse: “se eu aguento, todos têm que aguentar”.

Equívocos vários.

O primeiro deles, e mais brutal, é que não é possível comparar racismo com a discriminação a pessoas gordas. O racismo engendra uma estrutura de exclusão quase invencível. No Brasil, pessoas negras ainda são as maiores vítimas da violência policial, a maioria da população carcerária, a maioria entre os mais pobres, os que têm mais dificuldade de acesso a educação formal e à cultura “validada” pelos eruditos (preponderantemente brancos, é evidente), a minoria em quaisquer núcleos de poder institucionalizado. Ao lado do gênero, a cor da pele é o principal motivo pelo qual pessoas nascem expostas a uma vulnerabilidade social absolutamente injustificável, capaz de transformar uma população numericamente significativa em “minoria”. Não por acaso, mulheres negras são as maiores vítimas fatais de abortos, frente a uma sociedade hipocritamente indiferente a esse drama.

O segundo equívoco é que não, não se pode chamar pessoas gordas de baleia. É ofensivo, cruel, causa sofrimento. Se seu humor depende de humilhar alguém explorando um estereótipo negativo, você apenas tem um repertório ruim. Melhore. E aproveite para levar para a análise porque essa humilhação é pra você motivo de gozo.

O terceiro equívoco é a falácia de pretender retirar da sua decisão individual (consciente ou não) de tolerar ofensas uma regra geral, segundo a qual existe um dever universal de suportar que a discriminação seja um pano de fundo para o humor. É essa falácia que aparece toda vez que alguém retruca “ah mas eu tenho um(a) amigo(a) negro/gay/trans/com deficiência/pobre que não viu problema na piada”. Ninguém disse que a opressão não encontra eco entre os oprimidos, não é mesmo? Se estamos questionando, é pra que deixe de encontrar. E certamente é o medo desse plano dar certo que incomoda tanto quem não quer abrir mão do privilégio.

Seja como for, é certo que podemos aguardar o manifesto dos indignados defensores dessa enviesada “liberdade de expressão” reclamarem que: 1) estão censurando o rapaz; 2) hoje em dia tudo é racismo; 3) pegaram prints antigos e começaram um linchamento virtual; 4) o mundo está ficando sem graça demais. Afinal, mais monótono que as piadas racistas, só o choro rô de quem não se conforma com um mundo onde elas não têm lugar.

 

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