INCÊNDIO DO MUSEU NACIONAL DO RIO DE JANEIRO: O QUE A POLÍTICA TEM A VER COM ISSO?

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Foto: Folha Iconha
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Elizete Lanzoni Alves
Elizete Lanzoni Alves – Doutora em Direito, Pedagoga e Professora. Membro e Diretora Executiva da Academia Catarinense de Letras Jurídicas – ACALEJ. Membro do Instituto dos Advogados de Santa Catarina – IASC. Pesquisadora, palestrante e colaboradora do site Na Pauta Online.
Esta coluna é atualizada quinzenalmente.

Domingo, 02 de setembro do ano de 2018 o Brasil perde um de seus mais importantes acervos históricos. Perda irreparável porque ali, resguardado sob o manto de um pseudo cuidado governamental, estava parte da história do país.

A tragédia anunciada, pela falta de zelo por parte daqueles que estão obrigados a preservar o patrimônio histórico da nacionalidade brasileira, por força do compromisso dos cargos administrativos públicos que ocupam.

O Museu, criado por Dom João VI, no dia 6 de agosto de 1818, tinha como denominação original Museu Real passando a Museu Nacional a partir da proclamação da República (1889). Sua primeira localização foi no Campo de Sant’Anna, passando sua sede para o Paço de São Cristóvão (Quinta da Boa Vista)a partir de 1892. Tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, era (como é difícil referir-se a ele no passado…) o maior museu de Antropologia e História Natural da América Latina.

Chegou a ser ocupado como residência da família Imperial por cerca de 80 anos, sobreviveu à Velha República, ao Governo Vargas, às tristes ditaduras pelas quais atravessou o país, pelos períodos de redemocratização e perece, agora, em plena democracia.

Guardião de peças raríssimas, como esqueletos de dinossauros, múmias egípcias, livros, manuscritos, jornais, utensílios e vestimentas, relíquias, totalizando 20 milhões de itens, também, tinha um destacado aspecto científico como local de visitação, realização de cursos e pesquisas.

De acordo com a American Association of Museums, um museu, enquanto instituição sem fins lucrativos, tem caráter fundamentalmente educacional, artístico e cultural, e conta com profissionais qualificados para a manutenção de seu acervo e exposição ao público.

Infelizmente, o trágico episódio que transformou em cinzas o belíssimo e raro acervo, demonstra que o orçamento para a manutenção do museu nunca foi interpretado como um investimento cultural, mas, como um gasto governamental.

O Museu Nacional está sob responsabilidade administrativa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), instituição que exerce um importante papel como polo de pesquisa, ensino e inovação tecnológica. Uma das maiores e mais antigas universidades brasileiras e que a exemplo de tantas outras instituições de ensino superior, está mergulhada em uma crise financeira que compromete desde a qualidade de ensino até os programas e projetos de pesquisa, dentre os quais, os de cultura como é o caso do Museu Nacional, porque deixa de receber recursos financeiros por parte do governo, correndo o risco de ter pesquisas interrompidas, projetos encerrados e descontinuidade da manutenção de ações e atividades.

Mas, o que a política tem a ver com isso?

A Política Educacional, em todos os níveis, pertence ao campo de Políticas Públicas sociais de um país e o que acontece atualmente é que o cuidado com o que deveria ser ponto prioritário na agenda governamental – a educação – não é vista como um sistema composto por várias peças, como uma engrenagem, iniciando pela educação infantil, ensino fundamental e médio até o ensino superior.

A política está diretamente relacionada à tragédia do Museu Nacional do Rio de Janeiro, pela inoperância governamental no cuidado com a educação e a cultura que representam importantes pilares de uma nação.

Os discursos políticos abordam – de forma rasa – a educação formal (escolar) e esquecem que a Política Educacional é muito mais ampla.

Após algumas semanas o assunto “esfriou” na mídia, abafado pelo furor das eleições de 2018, mas, com certeza não faltarão discursos inflamados de promessas e investimentos financeiros e de pessoal, recuperação do acervo, recursos para a manutenção do museu, sobretudo, no atual momento político eleitoral.

Até agora a justificativa para a ausência de investimento na manutenção do Museu Nacional é a crise pela qual passa o Brasil e a falta de verba para “quase tudo”.

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Porém, não faltou verba para “investir” nos votos que impediram novo impeachment no país, nem para tentar fazer passar no Congresso Nacional uma reforma trabalhista e previdenciária sem maiores aprofundamentos de seus reflexos.

É de se esperar, ainda, pelo que se conhece do perfil dos políticos de carreira no Brasil, uma extensa fila de promessas, no entanto, a carência mais profunda está na consciência da relevância de que a política educacional e cultural é poderá preservar a história, por intermédio da literatura, obras artísticas, objetos, construções, fazendo a ponte entre o passado e as futuras gerações.

Após o incêndio do Museu Nacional gestores de museus, em todo o país, reforçam, perante o poder público, a importância da segurança para evitar outras catástrofes que registrem, novamente, o quanto os governos relegam a história e a identidade por falta de manutenção.

O incêndio do Museu Nacional não pode cair no esquecimento e o momento é, ainda, de tristeza profunda e luto!

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