Brasil na encruzilhada entre a democracia e a ditadura

647
Imagem - Passa Palavra
- Anúncio -
Por José Carlos Pereira (Portugal)

No ano em que decorrem 50 anos após o Ato Institucional 5 (AI 5), que veio em continuidade do golpe militar de 1964, medida política com a qual o presidente Costa e Silva encerrou de vez todas as liberdades políticas e cívicas no país bem como todas as garantias constitucionais, o Brasil corre o risco de tornar aos tempos da ditadura e tornar-se no único país fascista do mundo e, quiçá, a única nação oficialmente neopentecostal.

São muitos os analistas que tentam explicar a origem do fenômeno contagiante de massas em torno de Jair Bolsonaro – tido por milhões de brasileiros como o salvador, o ser incorruptível, o honesto, o bom religioso, um responsável chefe de família e que vai fazer uma boa governação, nem que para isso tenha que mandar prender, torturar, matar ou fazer desparecer quem se lhe opuser. E o inexplicável é que há um ano, mesmo havendo já alguns indícios, ninguém no Brasil ou no mundo esperava que viesse a obter 46% dos votos no primeiro turno das eleições e com possibilidade de tornar a vencer no segundo.

Claro que as primeiras explicações encontramo-las no decréscimo da economia, no aumento do desemprego, na criminalidade e nas notícias sobre a corrupção. Não querendo ser parcial nesta minha análise, reconheço que houve erros à esquerda, principalmente a nível do PT. Porém, sendo um partido de origem marxista, não é marxista-leninista, pois nem Lula da Silva é Fidel Castro nem Fernando Haddad é Hugo Chávez ou Nicolás Maduro (a ideia de um Brasil a virar regime tipo Cuba ou Venezuela é uma invenção mirabolante dos manipuladores de consciências). Por outro lado, no que respeita ao xadrez político brasileiro, a direita também errou, porque não foi capaz de criar um amplo campo da chamada “direita democrática”, como existe em Portugal e noutros países de democracia ocidental. Teria sido muito benéfico uma confluência para o centro, evitar-se-ia tamanha polarização. No entanto, ressalve-se que, neste momento, é obrigatório votar em Fernando Haddad para salvar a democracia. Votar em Haddad é muito mais que votar no PT; é imperativo! A escolha de Manuela D’Ávila, do PCdoB, para sua vice faz todo o sentido, pois é um meio de congregar as mais diversas forças sociais e sindicais.

A participação da militante comunista na lista de Haddad é usada por muita gente como um falso argumento, principalmente por parte da IURD, de outras seitas evangélicas e até de padres católicos conservadores, que afirmam ver nisso uma ameaça de “ditadura do proletariado”. Tirem, por favor, o fantasma do comunismo no Brasil, que não existe! A este propósito, recordo que em 1986, em Portugal, Mário Soares, fundador do Partido Socialista, foi eleito na segunda volta das eleições com o apoio do PCP contra Freitas do Amaral, numa altura em que o muro de Berlim e a antiga União Soviética ainda existiam, e, depois, não veio nenhuma sociedade comunista. Em 1958, no tempo de Oliveira Salazar, em plena ditadura do Estado Novo, o general Humberto Delgado (de pensamento liberal) obteve o apoio do PCP contra o candidato do regime, Américo Tomás.

Os próprios órgãos do Estado ditatorial tentaram infiltrar-se no PCP para influenciarem o partido a concorrer sozinho, mas os comunistas mantiveram a sua coligação com o general. Humberto Delgado ganhou as eleições, por 75%, mas a ditadura retirou-lhe 50% dos votos; acabou por ser morto em Espanha pela polícia política portuguesa, a tenebrosa PIDE.

Não é de ânimo leve que digo que o Brasil corre o risco de ser o único país fascista do mundo e oficialmente neopentecostal. E vou explicar-vos o porquê de não haver no vosso contexto político um amplo espaço de “direita democrática”. Não tenho dúvidas nenhumas que se Jair Bolsonaro vencer as eleições irá progressivamente eliminar as liberdades políticas e cívicas dos cidadãos; estas serão as últimas eleições em, pelo menos, uma década – um novo AI 5 virá. Aliás, veja-se o recente decreto de Michel Temer, que, a propósito da luta contra o terrorismo, criou medidas restritas com o bode expiatório da segurança. Veja-se que a Globo e a Veja não noticiam o escândalo das falsas notícias anti-Haddad pelo Whatsapp (faço votos para que o TSE tenha a coragem suficiente para decidir com justiça e consciência).

Reitero que o Brasil se tornará no único país fascista do mundo e tornar-se-á referência para muitos movimentos fascistas do mundo. Jair Bolsonaro e o seu vice, general Mourão, configuram a figura sinistra e sanguinária de Alberto Fujimori, do Perú, que, como sabem, ganhou as eleições ao liberal e escritor Mário Vargas Llosa. E, por falar em liberalismo, lembro o que foi dito quando caiu o muro de Berlim, em 1989: com a morte do comunismo tal como o conhecemos, morreu também a social-democracia, infelizmente. O Brasil, ainda com raízes e vontades indômitas no esclavagismo por parte dos grandes proprietários e possuidores de grande capital, não deixaram um espaço concreto para a chamada “direita democrática” – para um desejável capitalismo social. Recorreram às satânicas seitas evangélicas dos EUA, que elegeram Donald Trump para a presidências dos EUA, e exportaram a ganância para o Brasil – um grande país, meu Deus, tão rico de potencialidades econômicas e recursos naturais! Foram estas seitas que lançaram Jair Bolsonaro, querem salários de miséria para os trabalhadores brasileiros, o fim de muitos direitos sociais (tanto de previdência como na saúde) e, entre outros horrores, contra os direitos das mulheres (porque, na sua ideia, foi a Eva que levou Adão ao pecado). São contra a Constituição de 1988, querem que a Bíblia seja a constituição do país, pintam a cruz suástica nas paredes e matam opositores.

No tempo da guerra fria, a CIA incentivou o aumento de fiéis das Testemunhas de Jeová na América Latina (porque esta religião postula pela neutralidade política), a fim de atenuar a adesão dos fiéis católicos à palavra dos padres progressistas. Agora, as seitas evangélicas dos EUA incentivam o Brasil e outros países a um modelo capitalista ultraliberal à mistura com o fascismo, arrastando multidões para o princípio eleitoral. Lembram-se do Chile de Augusto Pinochet? Pois, foi com esta macabra filosofia – a dos Chicago Boys – com que o ditador fez o “milagre econômico” no país, instalado a partir de um golpe de Estado.

Ainda a propósito da religião, declaro-me católico cristão, mas os católicos brasileiros (como, por exemplo, o padre Paulo Ricardo) não tenham ilusões! A Igreja Católica do Brasil, com um grande capital de sabedoria e experiência, será perseguida se Bolsonaro vencer as eleições, ele dará a preferência a pessoas e organizações que conseguir manipular na totalidade.

Apelo a todos os brasileiros e brasileiras que tenham a coragem de participar no ato eleitoral do próximo domingo e que escolham a democracia, para seu bem, dos seus filhos e netos!

- Anúncio -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here