“Irmãozinho querido”

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Katia Saules
Katia Saules – Atriz, formada em Artes Cênicas, escritora, critica de artes e colaboradora do site Na Pauta Online.
Esta coluna vai ao ar todas as quartas-feiras.

Um espetáculo classificado como comédia, mas que emociona muito mais do que faz rir. Flávio Marinho marca definitivamente seu nome no cenário teatral com esta belíssima montagem, assinando não só o texto, mas também a primorosa direção.

Com uma tríade de arrancar o fôlego, a história parece já conhecida, por se tratar de uma rivalidade entre irmãos, mas Flavio dá um toque especial e a torna única. Dentro da metalinguagem escolhida, ele acerta em cada palavra, emociona em cada cena… Um mérito de quem sabe o que está fazendo, sabe a razão, sabe onde e como quer tocar… e toca.

A proposta de usar o palco nu, mostrando ao público seus bastidores, faz com que entremos ainda mais na história, que justamente se passa num paco de teatro. Ali, todo embate acontece. O uso acertado de refletores, que nos indica o quanto cada irmão gostaria de estar ‘na luz’, de ser o foco, o centro das atenções… é literal e maravilhoso. A proposta cênica de Flávio ao causar o efeito de ‘rebobinar’ em cada momento para que imaginemos o que teria ocorrido se algo diferente fosse feito ou dito é de arrepiar. Inteligente, ousado, sagaz, Flávio ganhou meu coração em ‘IRMÃOZINHO QUERIDO’, principalmente quando vou à uma montagem que não dialoga com meu universo. Filhos únicos também irão se emocionar, posso garantir.

Uma rivalidade entre irmãos, com acusações mútuas, fala-se em perdas, fracasso, família sob os diferentes pontos de vista de cada um, mas que de certa forma convergem para um mesmo fim. Um embate fraterno acontece bem diante de nossos olhos e não torcemos por ninguém, apenas testemunhamos as ideias de cada um, e suas razões para tamanha insatisfação. Com diálogos ágeis, falas inteligentes que trazem reflexão e tocam a alma.

Atuação visceral de Marcos Breda, que defende seu ‘Raul’, o irmão que se tornou dono de uma cadeia de lojas de eletrodomésticos, um homem bom, que formou família, mas sofre com algumas questões e lembranças, que justamente indaga na peça.

Leonardo Franco, talvez em sua melhor fase, compõe lindamente seu ‘Léo’, o outro irmão, ator, bem sucedido, que se encontrou nos palcos e ali fez sua tribo. No instante em que decide montar um espetáculo com o pretexto de homenagear seu irmãozinho, gera todo embate que presenciamos.

Como mediadora Alice Borges encarna sua ‘Muniz’, uma sensata e inteligente diretora, que mesmo sendo amiga de Léo, defende também alguns pontos de vista de Raul, nos fazendo refletir sobre as dores de cada um. Ela tenta apaziguar, mas entende ser necessário aquele acerto de contas.

A preparação vocal de Ângela de Castro auxilia muito a alternância de tom principalmente dos dois irmãos, em cada cena. A trilha escolhida pelo próprio Flávio Marinho é perfeita assim como o visagismo de Beto Carramanhos.

Os figurinos de Ney Madeira não vestem apenas os corpos dos atores e seus personagens, vestem suas características, o que nos faz identificar quem é quem.

Paulo Cesar Medeiros é brilhante na iluminação, que neste espetáculo, diz muito e contribui significativamente.

“Irmãozinho querido” é sem dúvida alguma, uma das melhores montagens que já tive o prazer de apreciar.

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