TRISTE

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Foto: Veja
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Há dias, em direto, ao longo de umas boas duas ou três horas, assisti, confesso que muitas vezes incomodado, a um interrogatório que teve muito mais de “show” televisivo previamente estudado e roteirizado por ambas as partes que propriamente de uma diligência processual.

Por José Paulo Fernandes – Fafe: Jornalista e consultor estratégico e eleitoral

De um lado, uma juíza a dar os primeiros passos na condução do processo, sedenta de protagonismo, contaminada por aquela insana histeria justicialista que tomou conta da sociedade brasileira e “acolitada” por uns procuradores mais preocupados com a “plateia” do que propriamente com qualquer outra coisa; do outro lado, um homem, preso há 7 meses numa cela com 15 metros quadrados, que durante 8 anos presidiu os destinos do Brasil, porventura no melhor momento da sua história de 200 anos quando chegou a ser a 6ª economia do mundo – o mítico Lula, “anjo” para uns, “demônio” para outros tantos e que aproveitava o interrogatório como “palco” político.

Costumo dizer que nos oito anos dos governos Lula, nunca os ricos ganharam tanto dinheiro, nem os pobres viveram tão bem. Mas em abono da verdade, acrescento: nem nunca a corrupção, enraizada desde sempre na sociedade brasileira, atingiu os níveis alcançados no “consulado” petista, com a grande parte da essencial articulação política entre a base partidária de apoio a ser feita através de cargos e “propinas”, chegando a mesmo a atingir contornos “pornográficos”.

Sei, porque o conheço, porque de algum modo e por razões profissionais, movi-me em círculos que lhe eram muito, mas muito próximos, que Lula não é um “santo” – aliás ainda está para que apareça alguém que me prove por “a+b” que algum político brasileiro o seja… Mas sei também que o homem que deixou a presidência do Brasil com uma taxa de aprovação popular de quase 85 por cento(!) e que, oito anos mais tarde, mesmo preso, ombreava nas sondagens com o capitão Jair, está preso porque alguém, para “safar o couro”, veio jurar a pés-juntos que um já famoso apartamento “triplex” na praia do Guarujá (assim uma espécie de Caparica, não arrisco se para pior, se para melhor…) era sua propriedade, ainda que não exista uma única prova documental que o ateste de forma taxativa.

Como percebi que neste interrogatório, que Lula obviamente também aproveitou para em certos momentos transformar em “tribuna política”, a acusação quis à viva-força provar que o antigo presidente era dono de um “sítio” (quinta) no valor de um milhão de reais (200 mil euros, mais coisa, menos coisa) que foi comprado por um amigo de toda a vida.

Porquê? Abreviando e também satirizando um pouco, porque tinha lá um roupão, umas cuecas, dois ou três pares de peúgas e dois “pedalinhos” (gaivotas), cada uma com o nome dos seus netos para que ao fim-de-semana dessem umas voltas no lago – isto, claro, sem contar com a essencial e já trivial “delação premiada” de alguém que, sem apresentar qualquer contrato ou escritura, garante que o tal “sítio de Atibaia” era (ou é, no caso) pertença do antigo presidente.

Ver Lula, apesar do ar digno que sempre soube manter ao longo do interrogatório, sujeitar-se a responder a perguntas colocadas de forma acintosa sobre “pedalinhos”, cozinhas e roupões, não é propriamente um espetáculo bonito de se ver, chega a ser triste e até confrangedor. Estivesse Lula a ser acusado de ter em alguma conta uns quantos milhões de dólares, de ter recebido em mão subornos ou de, comprovadamente, ter “vendido” leis e decisões a troco de benesses pessoais, não teria qualquer dúvida em achar que o seu lugar era na cadeia – mas disso ninguém, até agora, conseguiu acusá-lo.

Agora ver o homem que presidiu a um Brasil que, repito, porventura viveu o melhor momento da sua história durante os seus governos, a ser notoriamente achincalhado a propósito de uma cozinha, de umas peúgas ou de um par de cuecas, dá bem a ideia do estado a que chegou o Brasil. Goste-se, ou não, de Lula…

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