A dimensão simbólica do bolsonarismo

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Foto: dci
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Robert Bonifácio
Dr. Robert Bonifácio – Professor de ciência política na Universidade Federal de Goiás (UFG) e colaborador do site Na Pauta Online.
Esta coluna é publicada quinzenalmente.

A campanha eleitoral acabou, mas Bolsonaro e seus aliados mantiveram uma de suas táticas: a deslegitimação de esquerdistas e de petistas. De um modo geral, tudo o que é realizado por este grupo, na visão dos bolsonaristas, é maléfico: eles são corruptos, são maus gestores e atacam os bons costumes.

Trata-se de construir um enredo em que há, de um lado, os virtuosos, dotados da verdade (bolsonaristas) e, de outro lado, os vilões (esquerdistas e petistas). Essa tática mostrou-se exitosa na campanha. Para boa parte da população brasileira, percebe-se que essas palavras soavam como baixo calão. Os bolsonaristas souberam explorar isso, fomentando o ódio contra seus adversários e colocando-se como a única opção de fato diferente destes.

Se durante as eleições essa campanha difamatória contra o PT e a esquerda visava atrair votos, agora ela é um artifício para blindar a equipe do futuro governo de seus erros de coordenação, de suas declarações danosas e de um desempenho governamental pífio. Ou seja, é uma ação deliberada para tentar pautar as discussões públicas, tirando o foco da avaliação popular sobre as ações do governo e direcionando-o para um inimigo em comum, que sempre é potencialmente capaz de trazer o caos e que, por isso, deve ser eliminado.

Podemos esperar, portanto, a conformação de um cenário de maniqueísmo, de uma luta do bem contra o mal. Essa é a dimensão simbólica do bolsonarismo. A partir disso, o importante a se refletir é: até que momento isso funcionará? Penso que a resposta depende do quanto a situação social e econômica melhorará em curto espaço de tempo, como 6 meses após o início do próximo governo.

Caso a situação social e econômica melhore a passos largos, sendo as melhorias percebidas por boa parte da população, creio que a tática da deslegitimação da esquerda e do PT logrará êxito e perdurará por anos. Por outro lado, caso o país demore a evoluir no campo social e econômico, Bolsonaro não conseguirá ter como escudo perante a opinião pública o ataque discriminador aos esquerdistas e petistas. Os brasileiros começarão a colocar em xeque a sua capacidade e a de seus apoiadores de construírem um país melhor e verão esses ataques como engodo e algo desimportante. Clamarão por resultados e desejarão foco dos poderosos em resolver os problemas do país e não em atacar um grupo que está desalojado do poder há anos.

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