O inoportuno

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Katia Saules
Katia Saules – Atriz, formada em Artes Cênicas, escritora, critica de artes e colaboradora do site Na Pauta Online.
Esta coluna vai ao ar todas as quartas-feiras.

Dirigir uma peça que traça um paralelo entre os anos 50 e a atualidade é algo que só o grande Ary Coslov poderia criar. Uma criação inteligente e muito oportuna, eu diria.

A peça do Dramaturgo Inglês Harold Pinter é de uma beleza inquieta, que nos tira do eixo. Uma peça que incomoda e faz pensar, é o que considero essencial na escolha de textos para montagens.

Na fase de turbulência pela qual atravessamos, um texto escrito há tantos anos, que pode ser considerado atual, até os dias de hoje é um verdadeiro presente para todos nós.

A peça é considerada uma das obras-primas de Pinter, nos conduz à uma casa bem bagunçada, onde dois irmãos transitam. O irmão mais velho leva para dentro de casa um suposto mendigo que ali se acomoda de forma deveras espaçosa. Conflitos são gerados com a inconveniência do novo ‘hóspede’ e situações um tanto quanto embaraçosas acontecem no pouco tempo que ali convivem.

Uma tragicomédia, que fala justamente da impossibilidade de comunicação direta, os ruídos, as interferências… tudo leva ao desgaste, muitas vezes desnecessário, mas que todos de alguma forma vivenciamos ao despender energia para pessoas desprovidas de noção.

Daniel Dantas vive o tal ‘sem noção’ em questão. Brilhante atuação com seu  ‘Davies’, que causa tanto incômodo com sua presença. André Junqueira compõe seu ‘Aston’ de forma bastante cuidadosa e mostra mais uma vez seu inegável talento, junto do atento Well Aguiar, que vive ‘Mick’ e nos deixa com vontade de ver mais a cada cena. Três indiscutíveis talentos, que são ainda mais beneficiados com a luz do incrível Paulo Cesar Medeiros, cenário estupendo de Marcos Flaksman, figurinos apropriados de Kika Lopes e uma produção extremamente comprometida de Adriana Gusmão juntos dos próprios atores, André e Well.

Poderia falar ainda mais sobre o enredo: Lamentando a situação do pobre homem, Aston o convida para ficar ali em seu abrigo, por alguns dias, até que consiga se recuperar fisicamente e se organize com seus documentos, o que na verdade é uma grande desculpa para o encostado do Davies ficar mais e mais dias… Isso gera uma intimidade inesperada e os conflitos surgem em proporções extremas. Ocorrem mudanças abruptas nos comportamentos dos personagens, e o tal homem inoportuno se vê em maus lençóis não sabendo administrar tal situação.

Muitos sentimentos em questão: solidão, pena, tristeza, solidariedade, repulsa, aversão, empatia, descaso. Tudo transita ali, naquele espaço.

Um espetáculo que vem nos tirar da ‘zona de conforto’ pré estabelecida, que vem questionar valores como confiança, cumplicidade, respeito, convivência …é sem dúvida nenhuma bastante oportuno nos dias atuais.

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