O fim triste da marioneta de papel

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Imagem: blogdomagno
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José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online.

Dir-me-ão, os caros leitores deste jornal, que não desarmo um milímetro sequer nas minhas palavras em relação à nova situação política do Brasil com a recente eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da República, cuja tomada de posse acontecerá no próximo dia 1.

Não se trata de birra ou de implicância partidária, mas de democrática atitude de alerta sobre as graves consequências que se avizinham com esta mudança histórica – a passagem para um governo que traz consigo uma caixa de injeções letais para a democracia no país, para os direitos cívicos e humanos, com grandes restrições à liberdade de opinião e manifestação, aos direitos socais e culturais.  Não tenho uma bola de cristal, mas antevejo dias e anos muito difíceis para o Brasil, de perseguições e violência, com risco acrescido para muitos brasileiros, até para o próprio Bolsonaro, que entretanto se terá apercebido que se meteu numa encrenca, com iminentes custos pessoais.

Na passada quinta-feira, dia 29 de novembro, a Folha de S. Paulo reproduziu uma das afirmações no Twitter, no dia anterior, de um dos filhos do novo presidente, preocupado com a vida do pai. O prestigiado jornal escreve em título “Carlos Bolsonaro diz que morte do pai interessa a pessoas que estão por perto”. O discurso direto de Carlos prossegue no miolo da notícia: “A morte de Jair Bolsonaro não interessa somente aos inimigos declarados, mas também aos que estão muito perto. Principalmente após de sua posse”. O filho de Jair continuou: “É fácil mapear uma pessoa transparente e voluntariosa.”

Como não tenho Twitter e não me ligo nem sequer pelas redes sociais com pessoas da estirpe de Bolsonaro nem com membros dos seus clãs, logo que li a notícia apressei-me a confirmar junto de amigos no Brasil sobre a veracidade da mesma (não obstante a minha confiança na irrepreensível honestidade do jornal em referência), não fosse a informação mais uma das “fake news” que ensombram as democracias no mundo. Foi-me dito que sim, que a notícia é verdadeira, que não foi desmentida –  portanto, o Carlos disse isso.

Sinceramente, não me é estranho o teor das palavras do filho do novo presidente. Foi isso que deixei no ar no final da minha crônica anterior neste jornal, quando referi a relação do capitão reformado Jair Bolsonaro com os generais do seu governo e até pedi aos leitores para que concluíssem a crônica. Era algo que eu queria dizer, mas deixei que alguém muito próximo de Jair viesse falar primeiro sobre o iminente risco para a vida do presidente recém-eleito, ameaçada pelos seus comparsas políticos.

As afirmações de Carlos não são um ato avulso. Trata-se de uma denúncia, um grito dentro da mesma cria de pássaros desconfiados uns dos outros. Carlos tem a consistente convicção de que o pai se meteu numa encrenca, numa aventura perigosa para si próprio, para toda a família e para o Brasil inteiro. Carlos diz que o progenitor é uma pessoa “voluntariosa”. Eu diria: um homem ingênuo, hilariante e muito preconceituoso. Não conheço a biografia do homem, mas pergunto: será que em criança não terá visto muitos filmes de guerra, em que só morrem os maus mas ninguém se salva, exceto o herói da “fita”, porque ninguém é bom neste mundo (no conceito de Jair)? Como despreza o conhecimento e a cultura e não consegue articular direito uma frase, terá lido um livro sequer na vida? A escolha da profissão para a vida militar não será um segmento dos filmes que terá visto na infância? Podemos imaginar o moleque dias e dias fechado no quarto sem qualquer raio solar a iluminar-lhe o cérebro, sem direito a pipocas e a Coca-Cola? O ódio, que ficou entranhado nesta marioneta de papel, não será uma compensação metabólica? Oh, que pálida e triste marioneta, eternamente inconsolável! Será que lhe falta – imagino eu – a sociabilidade da infância e a do crescimento? Será esse o motivo por que, ainda hoje – já com 63 anos de idade –, quando fala com alguém, aponta a metralhadora imaginária com as mãos e os dedos, numa mímica tão estapafúrdia quanto esquizofrênica? Uma metralhadora que “comprou” em criança, no tal quarto de solitárias fantasias sem pipocas nem Coca-Cola, e que, agora, quer materializar nas mãos do povo brasileiro para lucro das empresas fornecedoras e para perseguição da oposição, em nome da defesa da população? – era uma pergunta. Sem dinheiro, como conseguiu arrastar milhões e milhões de pessoas para o seu escrutínio? Claro que foram os poderes ocultos que patrocinaram tudo e, que serão, na prática, os donos do novo Brasil.

Não tenho dúvidas que a marioneta de papel está nas mãos de Donald Trump, para um novo desenho geoestratégico no mapa da América Latina; nas mãos das multinacionais de capital concentrado (contrárias ao capitalismo social); nas mãos da maioria das igrejas evangélicas pentecostais (com grande destaque para a de Edir Macedo, um autêntico império); e, entre outras figuras pouco recomendáveis, nas mãos  do grupo de generais e do almirante que farão parte do seu governo. Estes – frios, calculistas, sábios nos segredos de Estado – deixaram a marioneta pular, puseram-na à frente de tudo, elevaram-na ao estrelato do ridículo, com palavras de enorme desprezo pela democracia e pelos direitos humanos, com discursos de vingança. Agora, volto a perguntar: esses – as tais patentes militares de relevo – não irão querer que Jair coloque armas nas mãos de toda a gente e autorize militares e polícias a eliminar a violência com violência e o fogo com o fogo? Jair prometeu; os generais não irão exigir? Será que essa violência gratuita visará apenas os bandidos? Mesmo em relação aos bandidos, não haverá outros métodos de atuação? Ou será que, usando o pretexto da ordem, o objetivo do novo poder é silenciar apenas os adversários políticos, sindicalistas, religiosos sinceros, jornalistas, artistas e intelectuais?

Continuo a perguntar: a marioneta de papel  vai manter-se intacta ou começará a desfazer-se a partir da sua tomada de posse? Com o tempo, a marioneta conseguirá enfrentar a grande oposição às medidas que quer (lhe dizem para) aprovar? Com fiéis escudeiros como Alexandre Frota e Olavo Carvalho, será que até Sérgio Moro lhe salvará a pele? Jair terá muitas dificuldades e eu tenho muitas dúvidas na sua eficiência. Muitas! Prossigo as minhas interrogações: as tais patentes não exigirão dele mais e mais? Pobre, Jair, que nasceu para ser marioneta e não executivo? Que perfil tem para a vida pública? Que perfil tem para presidente ou para outra coisa protocolar qualquer? Os leitores conseguem ver, por exemplo, Jair encontrar-se com o Papa e, na hora dos cumprimentos,  apontar-lhe a metralhadora imaginária? Pobre Francisco, que morreria de enfarte!

Será que a marioneta de papel vai demorar muito a ter saudades do seu quarto de solitárias fantasias? Dos filmes que via horas e horas a fio, mesmo sem pipocas e Coca-Cola, e onde “comprara” a metralhadora imaginária? Mas, nessa altura, já não será tarde? Pode não ser em Juiz de Fora, em Minas Gerais; pode acontecer noutra cidade qualquer. Termino as minhas interrogação: que irão fazer à marioneta de papel? Não a poderão rasgar para sempre? E as tais patentes militares de relevo que dirão? Que o ato bárbaro foi cometido pela oposição? E, como certamente usarão esse pretexto, temo que se repita o golpe de 64 e um novo Ato Institucional n.º 5. No meu amado Brasil!

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