Golpe de 64: “Nunca esquecer, para nunca repetir”

Imagem A tortura e os mortos na ditadura militar (GGN)
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Em 2016, quando Bolsonaro votou pelo impeachment da Presidenta Dilma, ele fez isso homenageando Brilhante Ustra, o “mestre das torturas” na ditadura militar.
Nesse momento, uma multidão de verde e amarelo que acompanhava a votação na Avenida Paulista pulava e gritava que “quem não pula é petista”.

*Por Paula Bernardelli, Advogada eleitoralista, feminista, autora no blog “a Fala”.

E aí veio 2018 e a campanha para a Presidência.

Não quero falar de todas as linhas do discurso de campanha de Bolsonaro, mas existia no fundo de toda a euforia sobre o “mito” e suas anti-propostas, a ideia de que quem não apoia, inegavelmente, é petista, num discurso bastante delirante que tinha como regra envolver PT, comunismo e Venezuela em qualquer debate sobre projetos.

Ustra tinha um quê de delirante também (gente muito ruim precisa de uma dose forte de delírio pra conseguir seguir se percebendo bom).

Na comissão da verdade, quando era interrogado sobre as mortes e torturas que comandou, respondia que os assassinados e torturados “não eram anjinhos”, que eram terroristas que queriam implantar o comunismo no país. Porque, lógico, se não são anjinhos, merecem morrer.

Ustra, ainda, se recusou a fazer acareação (que é basicamente ter seu testemunho confrontado com outro) com uma testemunha das torturas por falar que não dialoga com terrorista.

Não é nada estranho que Bolsonaro o tenha como ídolo.

Veja que o golpe de 64 é de fato um evento para não ser esquecido, mais que isso, ainda há muita memória a ser resgatada para, depois disso, ser protegida e relembrada sempre e sempre.

Mas a necessidade de manutenção dessa memória está ligada à busca da verdade de um momento histórico e à necessidade de garantir que ele não se repita. “Nunca esquecer, para nunca repetir” é um mantra daqueles que viveram histórias de autoritarismo extremo.

Agora, quando um presidente democraticamente eleito incentiva uma real comemoração dessa história de autoritarismo estatal e crueldade, é porque claramente estamos muito perto da repetição desse cenário.

Se não na prática – até pela ausência de uma conformação institucional que dê conta disso – ao menos nas ideias, demonstrando que temos no poder pessoas com desapego democrático suficiente para isso.

Também não é nada inesperado que Bolsonaro mantenha na Presidência essa postura de celebração do que deve ser repudiado, de apoio à barbárie e de completo desrespeito aos direitos mais básicos de uma sociedade civilizada.

O que pra mim segue sendo estranho é que tanta gente pule.

Porque se quem não pula é petista, quem pula, meu amigo, te entregaria no DOI-CODI dizendo que você não é anjinho só por não pular.

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