Fazendo as malas

Foto reprodução - Miguel Serrão
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Nancy Ribeiro
Nancy Ribeiro é mestranda em Performances Culturais pela faculdade de Ciências Sociais da UFG, especialista em Historia da Arte, professora graduada em Dança pela UFG. Terapeuta vibracional em Reiki e Barra de Access, e colaboradora do site Na Pauta Online – GO. Há mais de 17 anos Nancy, ensina mulheres a se conectarem com seu poder feminino através da consciência corporal em aulas de Danças Árabes.

O quanto é importante nós nos encorajarmos a realizar nossos sonhos. Esse relato não se trata de fazer você ir ou não para o Egito. Trata-se também, de você mulher, alimentar-se com bons pensamentos sobre si, com boas amizades que possam valorizá-la e apoiá-la, e saber voltar para casa. Para a casa interior, acolhendo todas as experiências que a vida real proporciona com gratidão.

Digo isso porque muitas de nós crescem sendo podadas, minha mãe mesmo costuma dizer isso, fala de quem sente e sabe do quanto temos e podemos crescer, voar e recebemos ao invés de estímulos, cortes que nos fazem acreditar que somos pequenas, frágeis ou tudo aquilo que vomitam e impregnam em nossa mente.

Os meninos crescem ouvindo e sendo estimulados a serem corajosos, a serem aventureiros, livres, a serem do mundo. Sabem quantas vezes eu ouvi negativamente quanto à minha atitude de viajante, ou da minha liberdade de escolha? Até mesmo porque na cultura machista, a mulher que se permite romper com essas estruturas e também ser aventureira, recebe outra conotação, não é mesmo?

Com uma mudança de atitude interna passei a não me afetar com isso e comecei  a motivar a quem me criticava, porque essa liberdade de ir e vir, sem sermos julgadas e com segurança, todas nós mulheres podemos e merecemos. Independente se é na nossa casa, ou na comunidade, na cidade, no país ou por outras culturas.

Pois bem, nordeste da África, verão de 2010. Sob a temperatura de 46 graus Celsius eis que chegava sozinha, com a cara e com a coragem num país praticamente muçulmano, com cores, cheiros, temperos, ritmos e culturas aparentemente com grandes diferenças dos costumes que desde então havia me deparado. Uau! E era tudo isso mesmo que me motivava!

Desde criança, os hieróglifos, as pirâmides, a mitologia e história do Egito Antigo me instigam a curiosidade. Com o passar do tempo, com os estudos na espiritualidade, comecei a ter nos desdobramentos, insights de vidas passadas naquele lugar e, além de ter uma proximidade com o tema devido às práticas e o ensino das danças orientais árabes, tudo isso era uma propulsão que me direcionava a ir até lá.

Em pleno retorno de saturno, atravessando a crise dos 30, eu assinava o divórcio com o primeiro marido e, com o livro Mulheres que correm com os lobos da Clarissa Pinkola Estés à tira colo, sentia uma intensa vontade de sair pelo mundo, uivando atrás da minha matilha. Já era acostumada a viajar sozinha, porém não tão longe e por culturas tão diferentes, o que foi preciso planejar mais o mochilão. Claro que com o apoio da família, dos amigos e com as alunas na torcida foi uma deliciosa aventura de se preparar!

Eu queria conhecer histórias reais, vivenciar e conhecer de perto o cotidiano das mulheres, desvendar mistérios da minha experiência espiritual com aquela terra, e claro, aprofundar meus estudos artísticos. Por isso, meus planos eram: nada de ficar em hotéis que me distanciariam da vida das pessoas comuns, nada de circular pela cidade seguindo pacote turístico. Eu buscava o contato direto com as pessoas locais e desejava com isso uma viagem singular.

Conversei com outras pessoas que já tinham ido, li muito sobre experiências nos sites de mochileiros e anotei tudo que diziam de relevante, incluindo vacinas, cuidados com a ingestão da água e com a mudança de clima. Todos que já tinham visitado me diziam veemente para tomar muita precaução no caso de ir sozinha, claro que vieram aquelas pessoas que me disseram “estava na rua e algumas mulheres me beliscaram no bumbum por estar de calça jeans”, ou “a amiga da minha prima foi trocada por camelos e nunca mais voltou”. Em contra partida eu olhava os relatos de grupos de excursão e me soavam tão rasos, eu queria ter a viagem a nível canal de história e tudo aquilo me fazia analisar os prós e os contras e, foi quando tive uma dica que foi muito importante e faço isso até hoje.

Numa conversa amigável com uma mulher experiente em planejamentos compartilhei minhas questões e aquele emaranhado de sentimentos, assim ela me sugeriu fazer uma lista com todos meus medos e, ao invés de ficar na angústia e na pré ocupação gerando grande ansiedade, desânimo e mais ainda, criando uma realidade que eu não queria vivenciar, eu iria perceber quais medos eram fantasiosos ou reais e quais atitudes eu poderia ter para enfrentá-los com inteligência, sabedoria e criando planos B,C e D.

Nancy Ribeiro – Foto reprodução:Miguel Serrão

Foi então que entrei em contato com o artista e professor de dança, na qual, havíamos nos encontrado no festival de dança em Goiânia, cerca de um ano e meio antes. Na ocasião, ele era um dos convidados especiais do evento, que por sinal eu havia organizado e, devido à sua bagagem profissional, por ser filho de libaneses com muitos anos vivendo nos países árabes e, na época precisamente morando no Cairo, senti segurança em procurá-lo.

Relatei por email minha intenção em passar um tempo na cidade e, que desejava saber algumas dicas como, por exemplo, os costumes que deveria me preparar em relação a uso das roupas, qual a melhor época para visitar, e assim coletar o maior conteúdo de informações que pudessem me trazer segurança para o então destino. E foi assim que tudo fluiu! Por minha surpresa, Shiba fez questão de me receber em sua casa, o que me fez sentir muito bem acolhida e, que fez toda a diferença na minha experiência.

Preparei-me para chegar à ocasião que poderia trazer maior conhecimento da minha área, mesmo enfrentando o calor severo de junho, e incluir algumas programações de um dos maiores festivais de dança do Egito. Apesar de o país ser em grande parte muçulmano e a dança ser proibida em alguns espaços, as manifestações e produções culturais são fontes movedoras da sua economia desde tempos passados. Então em dois momentos no ano, esses festivais são realizados de maneira que incentivam a economia local, contribuem para a manutenção dos artistas e geram trocas e intercâmbios com outras culturas.

Minha ideia era conhecer o festival, participar de alguma aula, mas, foi ainda mais interessante, pois o Shiba, um dos integrantes renomados do evento me fez o convite para dançarmos na noite de gala do festival Nile Group um dueto de uma dança popular chamada Moashahat e, tive ainda a possibilidade de apresentar um solo a minha escolha. Podem imaginar quanta alegria havia em meu coração? A viagem já estava saindo melhor que meus planos! É claro que eu aceitei e, assim me preparei para aquela grande oportunidade!

Dentre as dicas que recebi, eu deveria levar em minha mala, roupas que evitariam qualquer constrangimento, e caso alguém viesse me perguntar, não seria adequado eu dizer que estava sozinha e que era brasileira! Uau! Mais um contato com o preconceito. Pois bem, não teria necessidade de me vestir como as muçulmanas, pois, essa não é minha religião, mas, em alguns lugares públicos eu deveria considerar usar um véu se precisasse.

O visto de entrada no país é concedido após o desembarque no Cairo, então o que precisei fazer foi cuidar anteriormente dos meus documentos pessoais, passaporte e os cuidados das vacinas. Intensifiquei as aulas de inglês, focando as possíveis situações que passaria, principalmente em se tratando de negociações, o que é bem característico dos egípcios! Acrescentei um livro básico, que já tinha de ensino do árabe, passagens nas mãos e Yalla!

Continua na próxima publicação!

 

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