Na morte de Nara Leão – A Musa da Bossa Nova

imagem reprodução - MPB ESPECIAL_NARA LEÃO -28 de maio de 1973 - FOTO ARMARNDO BORGES
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José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

Este é apenas um apontamento, não uma crônica habitual. É uma nota breve, mas emocionada, na passagem de uma efeméride, que não posso deixar passar em claro.

Parece que foi ontem, mas foi já há 30 anos. A vida é um sopro. Neste corre-corre, mal nos apercebemos de que tudo é efémero.

Em 1989, neste dia e mês, falecia uma das minhas referências cívicas e culturais, que marcou a minha juventude: Nara Leão, com apenas 47 anos de idade.

Lembro-me muito bem desse dia. Não obstante a notícia ser já esperada, a morte da Musa da Bossa Nova entristeceu muitas das pessoas que faziam parte do meu círculo de amizades culturais, em Portugal e no Brasil. Por crueldade do destino, o desfecho da sua doença fatal (um tumor cerebral) ocorre precisamente no ano em que o Brasil reabre os olhos para a democracia; em novembro viria a realizar-se as primeiras eleições diretas para a presidência do Brasil após o período de transição da ditadura militar (1964-1985) para o regime democrático.

Nunca é demais recordar, principalmente às jovens gerações, que a tímida Nara, da qual dizem que inicialmente até tinha medo dos palcos, ousou desafiar, com a sua voz e com o seu violão, os algozes que faziam do Brasil uma “sucursal do Inferno” (a expressão era do torturador Sérgio Fleury e dos seus comparsas no DOPS).

Felizmente, Nara Leão não chegou a ser torturada nem presa, mas a detenção esteve para a acontecer. Depois do golpe de Estado de 1964, manifesta-se contra a ditadura, dizendo que o Exército não valia nada e apelou para que os militares entregassem o poder aos civis. A Musa da Bossa Nova, antes da entrevista, tinha publicado o tema “Opinião”, que começa assim: “Podem me prender, podem me bater /Podem até deixar-me sem comer /Que eu não mudo de opinião”. Ameaçada de prisão, coube a um dos gigantes da literatura brasileira, o poeta Carlos Drummond de Andrade, defender a cantora com um soberbo poema endereçado ao então presidente do Brasil, o marechal Artur da Costa e Silva, e publicado na imprensa. O poema tem início assim: “Meu honrado marechal /Dirigente da nação, /Venho fazer-lhe um apelo: /Não prenda Nara Leão…”. Porém, com a implantação no país do Ato Institucional n.º 5 (AI), em 1968, que podemos classificar como um golpe dentro do golpe (de 1964), a Musa da Bossa Nova preferiu o exílio durante algum tempo, principalmente em França.

Nara Leão teve contatos culturais com Portugal. Gravou dois temas de José Afonso (1929-1987, também conhecido por Zeca Afonso, do qual era amiga): “Maio, Maduro Maio” e “Grândola, Vila Morena” (a 2.ª e a mais emblemática senha do 25 de Abril de 1974, golpe de Estado e revolução que devolveram a liberdade e a democracia a Portugal). Pouco tempo depois da morte de José Afonso, Nara, na altura já afetada pela doença, perguntou no decorrer de um concerto, bastante emocionada: “Onde está o Zeca?”. A sala do concerto quase desabou com tantas palmas de quem assistia ao espetáculo.

Admiro esta cantora pelos mais diversos aspetos da sua personalidade cívica e de estética cultural, entre os quais realço a sua atitude de sempre ter recusado banalizar o seu estilo musical em função de interesses comerciais. Chegou a dizer: “Recuso-me a americanizar a Bossa Nova”.

No dia da morte da cantora, escrevi e dediquei-lhe um poema, que, na altura, publiquei em jornais e, em 1992, no meu livro de poesia “Vertentes da Mesma Luz”. Ei-lo, com toda a minha humildade e amor pelas personagens do mundo que trazem até nós a cultura e humanismo:

Finda a tempestade,

O Sol nascerá

Nara Leão – interpretando O Sol nascerá

Abram todas as celas!

Libertem as entranhas

da maior ambição:

Apaguem as estrelas

do eterno pensamento;

Desabem as montanhas

da amarga escuridão;

Evaporem os rios

aos céus do sofrimento;

Afundem os navios

da nossa imensidão;

Já não façam acenos

ao deus do coração;

Não lavrem os terrenos

rurais duma Canção

com os dedos da terra

em punhados de pão,

que a Musa já enterra

a lei dos coronéis

com o seu violão

na lenda dos vergéis,

para a qual não há guerra,

para a qual não há leis…

contra Nara Leão!

 

Acenderam-se as luzes

na Cidade de Nara:

Cantaram rosas e urzes

num jardim que renova

a morte necessária.

 

–  Não choremos, cantora,

Musa da Bossa Nova:

Aos olhos dos chacais,

no altar dos tribunais,

a morte é para todos.

Com ela, somos todos

sempre todos iguais!

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