Chegando ao Egito: A mulher e o patriarcado

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Nancy Ribeiro
Nancy Ribeiro é mestranda em Performances Culturais pela faculdade de Ciências Sociais da UFG, especialista em Historia da Arte, professora graduada em Dança pela UFG. Terapeuta vibracional em Reiki e Barra de Access, e colaboradora do site Na Pauta Online – GO. Há mais de 17 anos Nancy, ensina mulheres a se conectarem com seu poder feminino através da consciência corporal em aulas de Danças Árabes.

Meu amigo, nessa época, mantinha um estúdio de dança cerca de algumas quadras da sua casa, e, no inicio me dizia que até a vizinhança se acostumar, seria bom ir acompanhada até seu trabalho, ou qualquer estabelecimento que estivesse por perto. Depois de alguns dias, me arrisquei a andar por essa rua, depois pelo bairro, e outros lugares sem a presença dele, o que me rendeu alguns apuros, que contarei mais a frente, mas, também as mais importantes compreensões.

À medida que expandia minha liberdade pela rua, fui percebendo a energia de repressão que meu corpo absorvia. Eu estava sempre vestida com calças, blusas ou batas que cobriam meus ombros e meu quadril e carregava um véu extra. E ali, há 10.OOO KM de distância do Brasil estavam os olhares julgadores, o assédio motivado tanto pela objetificação da mulher quanto o causado pelo turismo comercial, e com isso o medo de pedir informação para qualquer homem, o de passar por alguns lugares, e até o de pegar táxi. Ou seja, fui entrando em contato com a vulnerabilidade, por não poder andar tão tranquilamente nos espaços públicos que, sem muitas máscaras, notei semelhanças com a minha cultura. No fundo, não era tão diferente assim. Eu me sentia usando uma lente de aumento.

Foram dessas percepções que me chegavam que meu olhar atentou-se para a necessidade de ressignificar atitudes femininas distorcidas nas sociedades, e principalmente, começando a partir da relação entre mãe e filha. No espaço seguro às mulheres, eu vi aquelas que chegavam com seus niqabs e rijabs para uma prática de dança, de meditação e, muito à vontade entre elas tive o prazer de ouvir suas histórias valiosíssimas, tanto de nativas quanto de imigrantes, que encontraram um meio de fugir das opressões do machismo, do patriarcado, dos valores extremistas religiosos, que foram capazes de me trazer uma compreensão das minhas raízes, da minha ancestralidade e principalmente da força feminina.

Em alguns momentos, percebia e sentia de alguma forma a atitude de repressão de outras mulheres em direção a mim por me verem caminhando em espaço público, vestida não tão coberta como elas, e foi possível compreender o que muitas das mulheres brasileiras ainda hoje também praticam. Estando diante destas atitudes reprimidas e, portanto reverberadas na crítica externa, é que apresentava diante de mim o tal jogo de manipulação do poder do machismo, que pode estar em menor ou maior grau em alguns lugares, porém, segue tecendo fios por muitos anos entrelaçando de tal maneira, que passamos a incorporar certas crenças e mais, repassá-las como hábito. Então, ter a consciência do quanto estamos nessa trama, colocando umas contra as outras, é reconhecer que essa é uma maneira bem medíocre de fragilizar a irmandade feminina.

Alí, naqueles encontros nas aulas de dança na escola do meu amigo, elas me diziam: “nossa religião não permite a mulher mostrar os cabelos e as formas do corpo na rua”, justificando o julgamento que faziam sobre as ocidentais ou sobre as mulheres “rebeldes” que arriscam sair sem cobrir os seus cabelos. Muitas mulheres egípcias são sim molestadas nos metrôs, nas praças, e outros lugares públicos, tendo suas partes do corpo tocadas sem a permissão de ninguém, e, ouvem absurdos de ambos os gêneros. E quando perguntava a respeito dessas atitudes o que achavam, comentavam que a maioria das mulheres e homens acreditam que mesmo sendo um péssimo comportamento, as vítimas são merecedoras de tal agressão, e que são elas que estão provocando essa atitude dos homens.

E nesse ambiente percebia como era fácil olhar para o outro e dizer, que aquilo estava errado. Como era fácil reconhecer no outro que os ensinamentos de um mestre espiritual, estão muito além do que os seres humanos deturparam, institucionalizando no decorrer da história seus ensinamentos em prol de benefícios próprios, ditando regras em nome de uma fé masculina.

Depois de alguns dias, eu me sentia quase que absorvida por aquelas crenças, me pegava observando e admirando as mulheres com as burcas mais longas, mais pretas e fechadas possível. Chegava a pensar que deveria ser até bom, se esconder desse mundo por alguns minutos. Observava o caminhar, se estavam de cabeça baixa, ficava imaginando se estavam fazendo caretas, chorando ou se estavam felizes com suas vidas.

E mais uma vez me propunha a refletir se já não tinha vivido isso antes, no meu próprio país, tão conhecido como liberado… E, quem é a mulher que nunca teve suas partes íntimas invadidas por estranhos nos transportes públicos? Que nunca teve medo de passar naquela esquina, que se privou de muitas coisas por ser mulher. Eu mesma já me cansei de passar por certos constrangimentos, por medos, por enfrentar assédio no ônibus, ter o corpo tocado na rua, de ter minha voz silenciada, meu trabalho marginalizado e de ser criticada e apontada por outras mulheres, até amigas e, demorou um tempo para entender que não se trata da mulher está coberta dos pés à cabeça, de se privar de estar no mundo, de ter uma postura enrijecida, e que sim, se trata de (re)educar os agressores, de mostrar que o corpo da mulher não está disponível, e que nós podemos e temos capacidades de sermos quem quisermos.

Curiosamente, eu via os homens manifestarem seus afetos publicamente, até cumprimentando com “selinhos”, mas, por outros homens, o que já não era permitido com as mulheres. E as percepções dessas realidades aparentemente tão contrastantes não pararam por ai. Seguem na próxima publicação, até lá!

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