Transformando a diferença: o poder e a sensibilidade feminina

As mulheres ocupam 77 das 513 cadeiras disponíveis na Câmara dos Deputados / Foto: Zeca
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Cristina Lopes é fisioteraupeta, vereadora pelo segundo mandato e Presidente da Comissão Parlamentar da Pessoa com Deficiência da Câmara Municipal de Goiânia. (Foto: Fanpage Dra. Cristina)

A recente ruptura das barreiras que impediam a participação das mulheres na política, não foram suficientes para sanar a desigualdade de gênero na disputa e ocupação dos espaços de poder. O direito ao voto, a Lei Maria da Penha, a primeira mulher eleita, as cotas no campo da política, ou o reconhecimento do feminicídio, foram conquistas políticas fundamentais para todas nós, mas não significaram a solução de um problema histórico para todo o povo brasileiro: a representatividade.

A história da participação feminina na política institucional é algo muito recente. São apenas 91 anos desde que a primeira mulher foi eleita no Brasil, enquanto 140 anos representam toda a história de luta das mulheres pela efetiva participação nos espaços de decisão. A primeira prefeita brasileira foi eleita em 1928, o ano de 1934 viu a primeira deputada federal, enquanto o Senado só teria mulheres parlamentares em 1990. 

Para que o leitor tenha mais clareza sobre o que digo, dou exemplos deste fenômeno no período que compreende a pós-redemocratização: no Brasil, a primeira candidata à Presidência da República só apareceu em 1998 e a primeira Presidente eleita só apareceu em 2010. Se, no primeiro ano deste milênio, somamos 6.992 vereadoras e 318 prefeitas, nas últimas eleições municipais, em 2016, somamos 638 mulheres eleitas para o Executivo Municipal e 7.803 legisladoras municipais.

Antes que alguém conclua que o aumento das mulheres eleitas, no Brasil, tenha se consolidado enquanto conquista, eu asseguro: estamos longe de alcançar a paridade de gênero na política brasileira. Em 2019, somos o terceiro pior país no ranking de representatividade feminina, levando em consideração toda a América do Sul, além de estarmos 10 pontos abaixo da média internacional, segundo o Inter-Parliamentary Union.

Para agravar a situação, estamos à beira de um retrocesso que pretende nos distanciar, ainda mais, do direito de exercitar nossa cidadania. Neste momento, são dois os projetos que nos colocam diante de uma medonha viagem no tempo, que tem como objetivo nos devolver a uma época em que as políticas públicas de cotas, criadas para maior inclusão das mulheres na política, eram apenas uma ideia.

Deputada Renata Abreu (Podemos-SP)

O mais avançado destes projetos de Lei, foi proposto pela deputada Renata Abreu (Podemos-SP), que quer o fim das punições aos partidos caso o número mínimo de candidatas durante as eleições não seja alcançado. A medida já teve parecer favorável da deputada Bia Kicis (PSL-DF), cujo partido é investigado por 21 candidaturas femininas que não obtiveram votos, não arrecadaram dinheiro de campanha e tampouco o gastaram. Em suma, estas são as campanhas-laranja, que servem como ralo para o dinheiro público que alimenta a corrupção.

Deputado Federal José Nelto – PODEMOS (GO)

Outro projeto, em tramitação desde 2010, foi proposto pelo deputado federal José Nelto (Podemos-GO) e é complemento para o desmonte de políticas importantes, como a de estímulo à participação feminina na disputa política. A ideia do deputado é abaixar o piso mínimo de candidaturas femininas, de 30% para 10%, e criar o teto máximo, que ficaria em 50%.

Este cenário estarrecedor pode levar os mais desavisados a uma reflexão equivocada, que além de pôr em xeque a efetividade destas políticas, pretende afirmar que a falta de mulheres em lugares de decisão é, tão somente, culpa das próprias mulheres que não se esforçam em participar dessa construção. Veja bem, isto seria o mesmo que afirmar que o número inferior de mulheres no futebol profissional é problema das esportistas que não treinam ou não se esforçam para jogar profissionalmente.

Na verdade, a baixa participação das mulheres em lugares de destaque tem uma única raiz: o baixo incentivo por parte das instituições, o que diminui as oportunidades.

É fundamental entendermos que não somos diferentes, somos segmentos de uma mesma sociedade. Por isso mesmo, somos diferentes só no momento em que queremos igualdade. A democratização de qualquer sociedade passa diretamente pela representatividade de diversos recortes sociais, inclusive o das mulheres. 

Outro pilar deste problema é que os partidos não acreditam em campanhas femininas, por isso investem de forma maciça nos homens. Para vencermos este desafio, fundamental para o avanço civilizatório que nos levará a um novo mundo possível, é urgente um maior comprometimento dos partidos em permitir que candidaturas femininas disputem em pé de igualdade com os homens. Para isso, é necessária uma distribuição igualitária dos recursos financeiros e dos materiais de campanha. Portanto, quebrar a resistência dos partidos, é tarefa de toda sociedade.

…é urgente um maior comprometimento dos partidos em permitir que candidaturas femininas disputem em pé de igualdade com os homens.

Somente com efetiva participação das mulheres nos cargos de decisão, será possível estimular a presença de uma energia que transformará as diferenças com a participação feminina na política. As cotas, que considero uma discriminação que pretende acabar com a exclusão, portanto uma discriminação positiva, são apenas o pontapé inicial para mudarmos essa realidade.

É preciso ter comprometimento, por parte de homens e mulheres, para que essa realidade seja modificada para melhor. Isto é, sem a participação de toda sociedade, o sonho de um mundo mais igualitário e equilibrado, será apenas um sonho. Nós, não podemos nos dar a este luxo. É dever de nossas gerações deixar um mundo melhor, mais justo, para todas as pessoas.

Não tenho dúvidas: o único caminho para a construção de uma sociedade justa e igualitária, com respeito à diversidade, passa por uma representação diversificada nos espaços de poder.

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