“Grafitti Coração”

Katia Saules
Katia Saules  – Atriz, formada em Artes Cênicas, escritora, critica de artes e colaboradora do site Na Pauta Online – RJ,
Esta coluna vai ao ar todas as quartas-feiras.

Uma livre adaptação da obra de Willian Shakespeare, ‘Romeu e Julieta’, nos é apresentada de forma leve e descontraída, porém sem deixar de trazer a dor no tom certo.

Um enorme grupo de jovens atores dá vida às turmas de Romeu e de Julieta. Duas ‘gangues’ rivais se enfrentam a todo instante. Amizade, confrontos, romance, rivalidade, namoros e brigas são constantes e revelam o universo adolescente da classe média carioca dos anos 80.

De certo que a sociedade de hoje não é a mesma dos tempos em que a obra fora escrita, mas o que vale ali é discutir temas que infelizmente não foram resolvidos. Refletir questões atemporais, perceber que a violência e a ignorância ainda permeiam entre nós, são pontos importantes apresentados no espetáculo.

O amor é o protagonista, visto que é o mesmo sentimento ‘skakespeariano’ do século XVII, apenas mudando as condições de uma menina de 14 anos e um menino de 16, numa sociedade um tanto quanto dramática.

O grupo de atores é grande, mas a direção resolve muito bem as entradas e saídas, os tons dos personagens e os tempos de cena. Vale frisar as soluções cênicas encontradas pela diretora Verônica Reis, que são sensacionais. A atriz e diretora empresta todo seu talento e imprime sua marca, mesmo quando não está em cena. Tudo coopera, tudo flui com dinamismo e perfeição.

A adaptação livre de Bernardo Horta e Marcos Milone traz enorme identificação com os dias atuais e estabelecem uma série de analogias com a tragédia de Shakespeare. A briga das galeras simboliza bem a rivalidade entre as famílias de Romeu e Julieta. A festa dos Capuletto, por exemplo, ocorre na boate Help, o que caracteriza a contemporaneidade e fidelidade ao texto na montagem.

A luz de Beto Rodrigues e Verônica Reis é perfeita e faz toda a diferença no espetáculo. Os figurinos de Claudia Caliel dialogam muito bem e contribuem demais para a cronologia da história.

O cenário de Verônica é simples, talvez devido ao grande número de atores que transitam o tempo inteiro, porém bastante funcional e a trilha sonora de Beto Rodrigues se encaixa de forma deveras apropriada à proposta.

Num espetáculo repleto de simbologias, saudosismos e reflexões, a história de Verona é trazida à Copacabana e nos faz ver com outros olhos a tragédia do passado, mas que, com todo pesar, continua atual.

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