“O HETERO”

O HETERO_(Foto:Beatriz Brandão)
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Katia Saules
Katia Saules  – Atriz, formada em Artes Cênicas, escritora, critica de artes e colaboradora do site Na Pauta Online – RJ, Esta coluna vai ao ar todas as quartas-feiras.

Um belíssimo monólogo que sai do lugar comum, que narra sem ser exatamente narrado, que rima sem rimar a todo instante, que fala de dor mas não faz doer, que é de um alguém tão especial, mas que se intitula ‘Fulano de Tal’.

Zé Wendell escreveu e atua nesta maravilha, que arranca e ao mesmo tempo faz prender nossa respiração, como num voo noturno, como num salto que parece não ter fim. Ele nos trás uma história aparentemente simples e até comum, mas que com a sua riqueza de detalhes, faz ser algo extraordinário.

Um jovem nordestino que quer ser artista, sai de sua terra natal em busca de um sonho e em sua trajetória nos mostra os dissabores de cada escolha.

Todos os conflitos são abordados, desde o profissionalismo, a parte emocional em relação a carreira, as novidades numa cidade nova, dificuldades financeiras e a sexualidade posta à prova, que inclusive faz referência ao título da peça, mas que não é o foco principal embora nos induza a isso.

Tudo vai tomando um rumo, uma nova forma, e acaba valendo mais o trajeto que o destino final. “Fulano de Tal” embarca numa jornada de autoconhecimento e autoaceitação, sem saber…e nos conduz junto, fazendo cada momento ser vivido, ou até mesmo revivido por muitos, já que fala da busca do ator, que talvez seja seu público alvo. A identificação é imediata, e as dores ali trazidas, quando tão bem interpretadas, retornam como boas e necessárias lembranças deste percalço.

Um espetáculo emocionante, que carrega em si tantas memórias, ainda trás questionamentos, observações que carecem ser feitas ao logo da vida, e de nossas escolhas. Zé tem em suas mãos um texto altamente atemporal, preciso, forte e único!

Em alguns momentos, o texto alude à literatura de cordel e, paralelamente, se vale da linguagem pop e de uma pequena dose de existencialismo filosófico. A peça não é apenas para entreter… Suas inquietações são exatas, suas dores são as nossas, assuntos atuais e dignos de um debate que são falados com muita propriedade em cena. Um ator sensacional, que fala o que sente, que pulsa e faz com que a plateia pulse junto.

É notório como cada palavra, cada respiração sabe a razão de ser, tudo ali está em comunhão, tudo dialoga, tudo interage, tudo faz sentido. Li numa entrevista do ator e autor deste espetáculo e me tocou um trecho em que ele diz: “A necessidade de sobrevivência me levou a escrever este texto para resistir ao mal e existir como artista” … Zé consegue com seu monólogo botar para fora seus medos, curar seus traumas, sanar suas dúvidas, consegue acima de tudo se encontrar e se reconhecer. Ajudando não só a ele, mas a todos que já passaram ou estão entrando neste caminho… É um exorcismo, um ‘dedo na ferida’, uma necessidade de expurgar que tem todo meu respeito. Quase uma sessão de terapia!

A peça conta com uma luz que desenha cada caminho desse percurso, assinada por Ana Luzia De Simoni e um figurino simples e funcional de Ticiana Passos.

Com direção da atenta Alice Steinbruck, que conduz com brilhantismo, acerta em cada tom, dá o devido valor a cada frase e amarra todo texto com esplendorosa atuação de Zé Wendell, que é focado, firme, corajoso, performático, talentoso e MARAVILHOSO!

‘O HÉTERO’ deve ser aplaudido até que as nossas mãos se cansem.

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