Maria Gabriela Llansol – convite para um curso de silêncio

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José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

Acompanho desde a minha juventude quase toda a realidade cultural, política e social do Brasil. Mesmo assim, e a fim de melhor aprofundar o meu conhecimento, gostava de obter dos meus leitores e leitoras testemunhos sobre a realidade artístico-cultural do vosso país, principalmente no que diz respeito ao gosto pelos livros, o sentido ontológico que o público letrado emprega e qual o propósito dos escritores, poetas e jornalistas no que concerne à utilidade do texto literário como meio congregador e de transformação da sociedade. Um compromisso que não pode ser doutrinário ou partidário, mas fonte de opinião e de antítese em relação a tudo o que implica servidão humana.

Em Portugal, infelizmente, o mercado livreiro está a ser invadido pelo facilitismo, pelo estapafúrdio, pela ideologia dominante da anti-ideologia, pela Era do Vazio, que percorre e ameaça as democracias ocidentais – fomos avisados, há mais de trinta anos, por Gilles Lipovetsky; o fenômeno foi-se adensando e, hoje, aqui e ali e por toda a parte, o pensamento contemporâneo mais parece uma caverna de crânios vazios, cuja opacidade me leva a crer que o mundo vive em pré-holocausto. Sempre que o mundo se torna numa bola acrítica e mercantilista, onde todos concordam ou são obrigados a concordar em função do dinheiro e das condições sociológicas e até psicológicas que se foram enraizando, começa a perder-se a liberdade, a autonomia, a autoestima, a luz… Tudo o que seja pensamento e arte torna-se motivo de riso, e a realidade instituída provoca exclusão automática e muito ruído inútil. Até a simples atitude de se estar calado por vezes é motivo de exclusão. Porque quando o baile corre todos são obrigados a dançar pelo mesmo diapasão.

A atual situação do mundo, que se arvora de sociedade contemporânea, guarda consigo ainda atitudes alicerçadas nos poderes fundiários da Idade Média – da antiga condição de servos da gleba, cada um de nós passou a ser, em poucos séculos, uma ação na Bolsa de Valores, que sobe e desce conforme os caprichos defecantes. François Châtelet, filósofo, político, professor e historiador da Filosofia, demonstra-nos que, de fato, o que começa conserva, em parte, aquilo contra o qual começa e o que rompe integra elementos daquilo que se separou”.

Em Idades anteriores, a imposição de atitude acrítica do cidadão exercia-se pela ignorância e obscurantismo como realidades intrínsecas do poder político, social e cultural; hoje, tal exercício acontece mais pela via repressiva do que persuasiva, mas, vistas bem as coisas, não deixa de provocar a supressão automática da liberdade do indivíduo – vivemos em liberdade condicionada, imposta por uma brutal sociedade mercantilista, por poderes ocultos, que tudo compram e tudo vendem; tudo é ilusão e risível.

Esta risibilidade ladra e morde, cala e exclui. Não tem que ver, por exemplo, com o que estudei em Literatura relativamente à ironia e à parodização  do discurso solene como causa efeito de humor inteligente e crítico em relação aos obscurantismos instalados. Como refere Linda Hutcheon, “diz‑se que a ironia irrita, porque ela nega nossas certezas ao desmascarar o mundo como uma ambiguidade”.

Há pouco mais de uma semana, Sérgio Almeida, poeta, escritor e jornalista do Jornal de Notícias, escreveu duas páginas naquele que é o maior jornal diário de Portugal a dar-nos conta do êxito editorial de uma “vaga vernacular”. Tornou-se moda viral das editoras darem à estampa livros que chamem à atenção pelo calão usado nos títulos com o objetivo de vendas fulminantes. Além disso, também o conteúdo dos livros são o espelho do vazio profundo e lamacento em que vivemos. Não é a morte da literatura, porque não se trata propriamente de obras literárias, apesar de os leitores mais incautos verem naquilo ciência e arte, cultura e saber. Livros, como, por exemplo, A arte subtil de dizer que se f*da, Está tudo f*dido, Seja f*da e Des-f*da-se, citados pelo jornalista em referência.

E é neste ambiente de conturbada tristeza e solidão, que provocam a cegueira da humanidade, que exalto um silêncio de luz, a contrastar com o silêncio dos crânios vazios: Maria Gabriela Llansol (1931-2008), uma grande escritora portuguesa de ascendência espanhola, injustamente esquecida mas que que está condenada a figurar, mais tarde ou mais cedo, no lugar das estrelas da literatura. Enquanto isso não acontece, é, na verdade, uma injustiça brutal, a somar aos muitos atentados contra a vivacidade cultural de Portugal, que, a meu ver, ocorre não tanto por esquecimento, mas – mais grave ainda! – porque muitos responsáveis públicos desconhecem que esta “escritora estranhamente extraordinária” (assim designada) alguma vez existiu.

Formada em Direito e Ciências Pedagógicas e filha de um bibliófilo, Gabriela cedo se entregou à escrita, em 1957, como quem tinha de cumprir uma estoica missão na sua passagem pelo mundo. E quando assim é, morre-se feliz e… solitário, não obstante a solidão ser motivo de infortúnio e possuir a negra cor da morte.

Infelizmente, o reconhecimento público nas nossas sociedades não depende tanto do mérito, mas de nichos corporativos consolidados, donde pontificam todas as invejas e intrigas.

Gabriela, divulgada pelo escritor e ensaísta português Eduardo Prado Coelho (1944-2007), sempre procurou o silêncio, isolou-se na sua casa de Sintra (vila da área metropolitana de Lisboa) com o homem da sua vida, e fez disso o seu lugar do mundo. Precisamente, um dos seus livros intitula-se Curso de Silêncio (2004). O silêncio como filosofia de vida, ao encontro dos seus mitos (como, por exemplo, S. João da Cruz), mas também como couraça contra os invejosos que povoam o meio cultural. São poucos os que compreendem a sua obra e, num gesto que roça a ignobilidade e a estupidez, se riem do hermetismo da autora, tentando rotular a sua obra de esoterismo e de misticismo.

Gabriela, humilde como era, dizia que não fazia literatura, que vivia à margem desta; que apenas escrevia. Muito raramente dava entrevistas; jamais vestiu a capa das ideologias para ser grande. Em 1965, quando ainda decorria a ditadura portuguesa, acompanhou o seu marido no exílio. Morreu há 11 anos, com pouquíssimos amigos. Como todos os cidadãos que optam pela sua liberdade plena, tinha a sua irreverência própria, ao seu modo. O seu conceito de intervenção, aparentemente passiva, ter-se-á tornado mais útil do que muitos, os que têm a cidadania na barriga, ou seja, nos “banquetes cívicos e solidários”, sabe-se lá com quem e com que, e que ignoram a dificuldade enorme do cidadão comum para sobreviver.

O silêncio de Gabriela é uma luz solitária, chama que arde e revoluciona. Para lê-la, a escritora convida-nos a silenciar todos os meios de ruído inútil para ficarmos ligados a uma espécie de transe budista, propondo-nos horas vagas para a reflexão e para o autorreconhecimento. Só assim seremos gente, humanos de verdade.

Foi assim, com esta postura de silêncio, de autoisolamento, de laica clausura, que a escritora conseguiu vingar o seu gênio inovador na literatura, em que privilegia grandemente a prosa poética, da qual o romance passa a ser o que não era antes, imbuído numa fluidez e musicalidade que tornam o texto revolucionariamente diferente e pioneiro quanto à sua inevitável evolução. Uma estética diferente da de José Saramago, de António Lobo Antunes, de Agustina Bessa-Luís, mas ao mesmo nível destes patamares e, talvez, com um percurso mais dificultado em cada etapa, porque, não tendo dado a mínima confiança aos donos do reino, é, hoje, um nome desconhecido da esmagadora maioria dos seus compatriotas e de todos os falantes de língua portuguesa. Mas o mais importante ficou – a obra! Grandiosa! Ficaram 30 livros e mais de 75 cadernos.

Lá mais para diante – talvez, daqui a 10 ou 20 anos –, a escritora nascerá. Nascerá então efetivamente para este mundo. Será arrancada da sua voluntária e forçada clausura e voará para o céu das estrelas mais luminosas.

Recomendo aos meus amigos e amigas do Brasil que procurem saber ou aprofundem o seu conhecimento sobre esta grande escritora portuguesa e, se tiverem oportunidade, leiam as suas obras.

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Obrigada. Já tinha ouvido falar dela mas nunca li nada. Sua crônica é muito instigante e vou procurar um livro da autora.

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