Sobre o vazio da docência em tempos obscuros (e sobre a coragem para vencê-lo)

Foto reprodução - theplace
Roberta Maia Gresta
Roberta Maia Gresta – é Doutora em Direito, eleitoralista, professora e autora do blog “a Fala”e colaboradora do site Na Pauta Online – MG

Esse ano, tive um dia dos professores particularmente introspectivo.

Ando muito perplexa com muita coisa, a anti-intelectualidade não deixa de me impressionar. O saber perde valor a cada dia, diante de um culto à estupidez encerrado no eixo ignorância/violência.

Poderia aqui falar de muita coisa nessa linha. Escolho dois fatos, apenas simbolicamente relacionados.

Primeiro, a deprimente notícia de que a Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou seu “Escola Sem Partido”, esse eufemismo pra perseguição fóbica ao pensamento crítico. Na minha querida cidade, uma lei agora turbina os delírios paranoicos de um reacionarismo medievalesco.

Segundo, a melancólica constatação de que Heley Batista, a.k.a. a-professora-que-morreu (Janaúba, 2017), aparece na minha timeline como principal figura lembrada nesse dia 15/10/2019. Para a maioria de seus fãs, Heley encontra valor em seu ato de morte. Pouco importa o que fazia antes, como vivia, qual sua posição política, como gostaria de ver sua profissão tratada.

E por que conecto simbolicamente esses dois fatos?

É que ambos sinalizam o vazio da docência como estratégia anti-intelectual.

O “Escola Sem Partido” é a não-escola. Indica o lugar do medo, da vulnerabilidade e da consequente defensividade daquele que é posto num papel fictício de professor. Esse não-sujeito importa como alvo de vigilância, objeto de controle. Não se quer eliminá-lo, porque sua presença no ambiente importa para ostentar o êxito da subjugação do intelectual.

A-professora-que-morreu é a não-professora. Heley, catapultada de anônima a ícone, nada importa como a educadora que foi enquanto viva. Tanto que à sua tragédia não se seguiu nenhum especial interesse da opinião pública sobre a luta cotidiana de tantas outras, iguais a ela. Vivas, seguem invisíveis. Morta, a professora não fala, não reivindica salário, não representa risco algum de acender uma faísca pensante nas crianças de que cuidava, e assim se imortaliza. Morrer, e em sacrifício por alunos, deu à imagem de Heley os atributos permanentes da candura e do altruísmo. Com eles se preenche a balela de que docência é “sacerdócio”, eliminando qualquer contradição decorrente do fato de que professores precisam viver de seus salários, têm ambições pessoais, exasperam-se pela falta de condições adequadas de trabalho.

A não-escola e a não-professora são dois elementos da martirização dos professores. Seu cérebro, ferramenta de trabalho, inspira ódio; mas sua carne, queimando, comove. É esse o papel paradoxal que a sociedade relega a mulheres e homens aos quais felicita no dia do professor. Quando se desejam mais Heleys e menos Paulos Freires por aí, talvez o próximo passo seja constatar que, nesse vazio da docência, “professor bom é professor morto”.

Esse texto, porém, não é de desesperança. Faremos nossa redenção, e não será pela fogueira. Sabemos que há boas razões para que o obscurantismo se ocupe tanto da tarefa de tentar demolir a docência: o que está em jogo é a pasteurização das mentes para aceitação dócil da dominação. Mas sabemos também que aquilo que chamam “vocação” é uma escolha pessoal do professor pelo exercício diário do pensar e pela atitude de despertar no outro essa mesma vontade.

O que o culto à ignorância subdimensiona é a coragem que se aprende a partir dessa escolha. Como a flor que rompe o asfalto, o pensamento crítico seguirá trincando o terreno da bruta estupidez.

Desejo a todas as professoras e a todos os professores que preencham de coragem seu espaço de docência. Eles, os anti-intelectuais, talvez sejam muitos, mas não sabem voar.

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