Narcisismo e política brasileira atual

As máscaras do narcísico - PÚBLICO
Maristela Basso
Maristela Basso é Professora de Direito Internacional e Comparado da USP (Faculdade de Direito do Largo São Francisco), Sócia responsável pelo núcleo de Direito Internacional e de Arbitragem do Nelson Wilians & Advogados Associados e colaboradora do portal Na Pauta Online

Por que o homem-público atual, da sociedade do espetáculo, das “relações líquidas” (Z. Bauman) e da “beleza lisa” (B.Chul-Han) tem seu imaginário em pane.

A observação da vida pública atual revela que grande parte dos políticos são pessoas com incertezas sobre as fronteiras entre o ego e o objeto ou entre o ego e o ego ideal. São políticos que não conseguem esconder flutuações intensas no sentimento de autoestima, arrogância, empáfia, grande dependência dos outros ou impossibilidade de estabelecer relações significativas, especialmente com seus eleitores. Ademais de deixar transparecer inibições e alienação do pensamento, assim como predomínio de defesas primitivas, tais como a cisão, negação, idealização projetiva e agressão. Sintomas que revelam vazio psíquico, inexistência de vida interior e alto grau de fantasias.

Não é difícil concluir que no narcisismo de boa parte dos políticos brasileiros coexiste, como observa o psicanalista Luís Hornstein (“Narcisismo, Identidade, Alteridade”, 2009), “imagens grandiosas do ego com uma intensa necessidade de ser amado e admirado”. A vida dessas pessoas, com exceções, evidentemente, centra-se na busca de prazeres, que tragam gratificações narcísicas. Dito de outra forma, certos políticos têm dificuldade para reconhecer os desejos, as necessidades e os sentimentos das demais pessoas. Falam de seus próprios interesses com alcance e detalhes inadequados. Sem inibição, dizem o que pensam. Buscam não depender de ninguém e de nada.

Se tomarmos o Presidente J. Bolsonaro, como sujeito de observação aqui, veremos que revela dificuldades na regulação da autoestima, com crises de ideais e valores. Provavelmente, em sua vida privada, apresente alternâncias de ânimo, transtornos do sono e do apetite, oscilações entre apatia e euforia, agressividade e ternura.

Julia Kristeva, filósofa e psicanalista búlgaro-francesa, com muita propriedade, refere-se a esses sintomas como “enfermidades da alma” (“As Novas Doenças da Alma”, 2002). Razão pela qual, as falas robotizada, artificial e vazia levam os analistas a inventarem termos como: transtornos narcísicos, casos limites, etc.

Acessar a vida psíquica, na atualidade, nos oferece precioso material para que empreendamos um reajuste teórico capaz de proporcionar ao homem conforto, segurança e um alcance maior do entendimento de seus meandros sentimentais e afetos. Contudo, é preciso que o homem procure melhor se entender e posicionar perante si mesmo e aos demais.

Muitos dos políticos que integram o parlamento e o executivo brasileiro (foge deste ensaio aqueles que porventura possam estar no Poder Judiciário), em seus mandos e desmandos, falas e desmentidos, parecem não estarem dominados por uma consciência internalizada nem, muito menos, pela culpa.

O exercício da política, não apenas no Brasil como em tantos outros lugares, pode trazer enorme “prazer” para o ego, tanto no que diz respeito à singularidade de seus pontos de fixação, como também do material que encontra na realidade. Contudo, sabe-se que não há, pelo menos nos casos mais visíveis e observáveis de narcisismo do sujeito político, autonomia do ego com relação à sua história libidinal – nem mesmo com relação à sua realidade atual – dele e da sociedade onde atua como agente público.

Segundo S. Freud (1919), é sempre uma afronta para o narcisismo os limites da realidade e a renúncia às fantasias próprias. Traço constante dos narcisistas é a onipotência. Objetos fantasiados estão em confronto com os objetos reais.

É impossível afirmar quanto de realidade e de fantasia existe no aparelho psíquico de um político, assim como quais são os elementos que determinam as escolhas de objetos adequados. Por tratar-se de narcisistas, os objetos são idealizados ou “demasiadamente” idealizados. Muitas vezes ligados aos “desejos” e “fantasias”.

A experiência cotidiana parece demonstrar uma espetacular redução da vida interior, assim como altos índices de narcisismo do homem político atual. Revela também que ele atua, muitas vezes, de forma cruel e sem remorso.

Quem, hoje em dia, ainda tem uma alma?

Para J. Kristeva, “não se ignora a chantagem sentimental digna das novelas televisivas, mas isso mostra apenas o fracasso histérico da vida psíquica, bem conhecido pela insatisfação romântica e pelo vaudeville burguês”.

Então, o narcisismo poderia também ter raízes na pobreza psíquica?

A resposta parece ser positiva.

Estamos diante de narcisistas, falsas personalidades, estados-limites e de novos psicossomáticos. Problemas que se agravam, muitas vezes, diante da tela da televisão e com a ingestão de pílulas desnecessárias ou mal prescritas.

A inexistência ou redução da vida interior ou psíquica (a vida da alma) pode, sim, levar ao nascimento de uma “nova psique” – que a psicanálise se propõe a descobrir. O homem-publico atual, da sociedade do espetáculo, das “relações líquidas” (Z. Bauman) e da “beleza lisa” (B.Chul-Han) tem seu imaginário em pane.

A faculdade de conhecer, chamada por Freud de “pulsão do conhecimento”, e por ela e por meio dela, como sustentava R. Descartes, “de agir no mundo”, melhor define a própria existência humana. A vida interior nos transforma em coisa que pensa, que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que sente. A “res cogitans” assume o papel de lastro ou garantia de objetividade, que norteia e sustenta nossa vida interior, e relação com os demais.

Talvez falte a boa parte dos políticos brasileiros, e homens públicos atuais, “pulsão do conhecimento”, “res cogitans”, de tornar consciente o que está dentro de cada um, bem como do que nos cerca na vida em sociedade. E dai atuar em nome do bem público – que pode ser utilizado por todos os cidadãos de igual maneira, independente da sua raça, sexo, classe social, credo,  profissão, partido político e opções ideológicas.

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