Nós sempre teremos Passárgada

Foto reprodução (poesia.net 255)
Maristela Basso
Maristela Basso é Professora de Direito Internacional e Comparado da USP (Faculdade de Direito do Largo São Francisco), Sócia responsável pelo núcleo de Direito Internacional e de Arbitragem do Nelson Wilians & Advogados Associados e colaboradora do portal Na Pauta Online

Você só queria o fim da servidão, da miséria, da desfaçatez e dos saques à “res publica”, e acreditou que tudo isso viria no tempo e lugar certos, sem que o país fosse projetado no precipício imoral da vulgaridade e da insensatez.

E agora Brasil?!
A virtude silenciou.
O respeito desapareceu.
A elegância se foi.
Você quer ir para casa.
A casa não há mais.
A porta não abre, a chave sumiu.
Você, brasileiro, quer gritar, mas ninguém te escuta.
E agora Brasil?
Você está no escuro, sem ideais, sem sonhos, sem emprego, sem líder e a nocaute.
Você, que nada tinha a ver com a devastação moral instaurada no país, agora está diante de um governo que acredita que a terra é plana, que se estivéssemos na monarquia o bom mesmo seria trabalhar no estábulo com éguas sarnentas e desdentadas. Sem falar que o rock leva ao aborto e ao satanismo, que não houve escravidão no Brasil, que índio não gosta de trabalhar e que o ator Leonardo di Caprio é um desavisado que investe sua fortuna em incendiários de florestas. E, se não bastasse, que o presidente da França poderia ter escolhido uma mulher menos feia para casar.
Você acha pouco Brasil?
O AI5 pode voltar.
E agora Brasil?
Você vai fazer de conta que não escutou? Que nada aconteceu? Que não viu que foi usado, traído e tornou-se refém de um jogo político cujas regras você desconhece?
Pense Brasil!
Você só queria o PT fora.
Você só queria que os corruptos fossem presos.
Você só queria respeito às instituições e ao povo.
Você só queria o fim da servidão, da miséria, da desfaçatez e dos saques à “res publica”, e acreditou que tudo isso viria no tempo e lugar certos, sem que o país fosse projetado no precipício imoral da vulgaridade e da insensatez.
Você só queria que o descrédito que assola o país desse lugar a honradez e à fundação de uma nova República.
Você só queria o fim da violência, da tirania, da opressão, da censura, do patrulhamento moral, intelectual e ideológico no país.
Você só clamava pelo fim do cinismo político instaurado no Congresso Nacional. Você só queria seu Parlamento de volta. E um governo moral.
Você só queria que a educação das maneiras, do espírito, da linguagem e do coração reinasse no país a partir do exemplo do Presidente da República e de seus assessores diretos.
Mas você foi traído Brasil!
Tudo não passou de uma grande tratantada, um engodo e um acerto de contas político.
E agora Brasil?
Você já não consegue mais dormir.
Sua mulher se foi.
Seu cavalo te abandonou.
Seus versos migraram.
Amigos não há, trabalho tampouco.
Você já não protesta mais.
A festa acabou.
O povo sumiu.
E agora?
Agora, quando estivermos muito tristes, mas tristes de não ter jeito, podemos abrir a porta, montar num cavalo preto e fugir a galope para Passárgada, para uma “Nova Passárgada”, onde, para ser feliz, não precisaremos ser amigos do Rei.
(Paródia em homenagem a Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Michael Curtiz – diretor de Casablanca)

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