Mulher e futebol, combinam sim!

Professora e advogada Edith Giolo

O futebol foi trazido ao Brasil pelo inglês Charles Miller, em 1894. Nessa época, o esporte era proibido aos negros, mesmo aqueles libertos em 1888, sendo aceitos depois de 1988, após autorização da federação brasileira.

*Por Edith Costa Machado Giolo

Para as mulheres, a proibição existia pela cultura da sociedade da época, pois mulheres “de família” não jogavam futebol. O Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, artigo 54, explicitava que “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”[1]. A permissão só veio em 1979, por meio da deliberação nº 10 do Conselho Nacional de Desportos.

A falsa moralidade e o machismo fizeram com que as mulheres, por quase 40 anos não pudessem jogar futebol e, hoje, temos os reflexos da conduta repressora que era imposta às mulheres da época.

Recentemente, em um local público, aguardando a final do Mundial de Clubes, entre Liverpool e Flamengo, todas as mulheres que estavam presentes foram desrespeitadas por um sujeito que disse: “Mulher e futebol não combinam. Calem a boca mulherada!” O jogo não havia começado, todos estávamos ali para assistir, mas a nossa presença, conversando e querendo participar daquele momento que ele achava masculino, o incomodou. Na hora pedi respeito.

Se nos fosse pedido silêncio com educação e respeito, teríamos o maior prazer em nos calar, sentar-nos e assistirmos ao jogo, torcermos pelo Flamengo, pelo Brasil. Porém, se todos os homens também o fizessem.

Mulheres podem se inserir no contexto do futebol? Podem comentar, julgar, assistir, entender e torcer? Sinto dizer que recentemente escutei que não. E podem sim!! E o fazem com maestria!! Embora ainda seja uma inserção ínfima como árbitras e comentaristas!! Essa realidade precisa mudar!!

Árbitra brasileira Fernanda Colombo – Fonte: Esporte – iG

A seleção feminina de futebol é motivo de orgulho para todo o Brasil, tem brilhado e encantado o mundo com suas brilhantes jogadoras. A jogadora Marta, por exemplo, foi escolhida como melhor futebolista do mundo por seis vezes”[2], tem o maior número de gols em Copas do Mundo. No entanto, ganha menos de 1% do salário de Neymar. Absurda realidade!! Isso precisa mudar!! Esse pensamento machista não tem mais espaço! O direito das pessoas tem que ser respeitado, independente de gênero, apenas pelo fato de existirem.

Seleção feminina de futebol – foto AFP

Eu combino com futebol, gosto bastante, assisto aos jogos, tenho o hábito de ir ao campo, acompanho as tratativas de contratos e especulações, faço parte da Justiça Desportiva como auditora. Fico muito chateada quando meu time perde e brinco com os amigos torcedores de times rivais quando o meu ganha. Tudo com muito respeito e amizade.

Não busco a superioridade feminina, muito pelo contrário, busco a igualdade entre os gêneros, pois uma sociedade harmônica deve ser baseada no respeito e amor; sem preconceito, submissões ou desigualdade. A própria lei busca a igualdade, mesmo ao desigualar os desiguais. Equidade é justamente dar possibilidades para que todos fiquem no mesmo patamar de igualdade.

A sociedade precisa mudar, homens e mulheres machistas precisam refletir e mudar a conduta e o pensamento. O mundo não precisa de pensamentos tão retrógrados que coloquem pessoas em situação de desconforto perante o seu grupo, seus amigos e a si mesmo. Pensem bem antes de expressarem uma opinião que possa fazer mal à vocês e a todos que estão ao seu redor. No final das contas todos perdemos.

*Edith Costa Machado Giolo – é Advogada, professora universitária, Auditora do TJD da Federação Goiana de Futebol, Diretora jurídica da ONG Ladies do Bem, Mestra em Direito, Relações Internacionais e Desenvolvimento pela PUC Goiás e Doutoranda em Direito pela Universidad Nacional de Mar Del Plata – Argentina.

[1] Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Decreto-Lei/1937-1946/Del3199.htm. Acesso em 27/12/2019.

[2] Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Marta_(futebolista). Acesso em 27/12/2019.

 

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