As vozes de gênero na literatura e o próximo Índex brasileiro

Imagem reprodução - Stoodi - Literatura
José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

Uma parte do debate que hoje trago à minha crônica, sobre as vozes de gênero na literatura, há quem a considere extemporânea e ultrapassada por conclusões de reconhecidos acadêmicos. Porém, insisto que o tema merece atenção. Pode não parecer, mas, numa altura em que se sucedem práticas de crescente anti-intelectualismo no mundo, como o que ocorre no Brasil, mercê da ascensão de novas realidades políticas, a literatura não deixará de sofrer as consequências dos retrocessos da liberdade de espírito e de ação. A mera condição criativa, como, por exemplo, as vozes polifónicas no conto e no romance modernos, passa a ser menosprezada, para não dizer castigada, logo de antemão. Em ambientes políticos de modos autoritários, com propósitos definidos de crescente totalitarismo, o saber é visto pelo poder como algo imutável, a subjetividade e a imaginação são tomadas como imagens alegóricas de críticas aos governantes, que, na maioria dos casos, são uns tristes ignorantes. Amedrontam-se com a imaginação dos artistas, invejam-nos. Invejam-lhes o saber e a sua maneira livre de estarem no mundo. E perseguem-nos por isso, de uma forma ou de outra. Em ditadura e, até mesmo, em democracia.

O ditador português António de Oliveira Salazar (1889-1970), presidente do Conselho de Ministros, antigo professor catedrático da Universidade de Coimbra, formado na área da Economia e Finanças com 20 valores, despediu das funções de leitorado em Londres o escritor Ruben A. (1920-1975), primo da conhecidíssima poeta Sophia de Mello Breyner Andresen. Criticou ferozmente o estilo literário do autor, dizendo que ele não sabia escrever.

Acabo de ler na Folha de S. Paulo que Bolsonaro anunciou que, no próximo ano, os manuais escolares serão obrigatoriamente elaborados segundo as diretrizes do governo, fazendo já antever o rol de asneiras que aí vem e as substanciais restrições à diversidade dos saberes, ao pensamento democrático, à preservação e recriação dos costumes, enaltecendo, em vez disso, uma postura autoritária do Estado como sabedor de tudo, de bacoco nacionalismo e de estapafúrdias crenças neo pentecostais, que têm como voz oficial Damares Alves, a sábia ministra que nega a teoria heliocêntrica, diz que a Terra é plana, critica a teoria da evolução das camadas e das espécies (já estou a ver, em 2021, será retirada dos manuais escolares) e diz que “menino veste azul, menina veste rosa”. Pois é!… Se o catedrático António de Oliveira Salazar se mostrou ignorante face ao estilo literário inovador de Ruben A., que comportamentos tomarão os tristes ignorantes do Palácio do Planalto perante a mutabilidade de estilos de forma e conteúdo dos artistas brasileiros?

Por falar que “menino veste azul, menina veste rosa”, na minha opinião, ao contrário do que se chegou a acreditar, poder-se-á dizer que não há literatura catalogada como feminina, porque, como diz a escritora portuguesa Teolinda Gersão, “os escritores escrevem para homens e mulheres, são lidos por ambos os sexos…”. Há, isso sim, literatura que, em determinados contextos históricos, teve de abordar a condição feminina face às arbitrariedades institucionais, que mantinham a mulher num papel secundário, de subalternização em relação ao homem, como ocorria no tempo da ditadura portuguesa, com as suas crueldades e controlo dos cidadãos. A realidade portuguesa de hoje é muito diferente. O processo dialético de emancipação levou a uma mudança radical: o papel da mulher na família e na sociedade alterou-se em função da liberdade conquistada. Esta preocupação não era exclusiva das mulheres. Artistas do sexo masculino e do sexo feminino  escreverem ao longo dos anos denunciando as situações de injustiça. Foram muitos os escritores neorrealistas (tais como Alves Redol, Fernando Namora e Manuel da Fonseca) que tiveram essa preocupação.

O sexo do autor de uma obra não define que haja um gênero de literatura, porque a criação artística tem que ver exclusivamente com a liberdade de expressão e de comunicação. É natural que experiências peculiares do escritor o influenciem por vezes para temáticas e gêneros das personagens das obras, mas isso não condiciona a liberdade do criador literário, porque o valor de um autor está na sua capacidade de criar, de ficcionar. No meu humilde parecer, a boa literatura, melhor dizendo, a séria, não aceita catalogações de gênero.

Portanto, continuo a afirmar que o sexo do autor não é uma condicionante ou limitação; há uma total liberdade onde as vivências de quem produz podem lá estar presentes, mas não as vão distinguir a ponto de um autor desconhecido poder ser identificado como homem ou mulher. Podemos, é certo, encontrar na relação entre linguagem e sujeito fatores diferenciadores, como, a título de exemplo, a cultura, a formação, a língua e a etnia.  Mesmo assim, reconheço  que poderá haver traços de caráter feminino e masculino, mas, quanto a gêneros de literatura, a diferenciação de masculino  e feminino não existe. Existe, nisso acredito eu, um mundo interior, introspetivo, a evocação da memória, onde as personagens são criadas, sem essa relação de homem ou mulher escritor.

Lídia Jorge – António Lobo Antunes – Instituto Camões

Quem conhece a biografia da escritora portuguesa Lídia Jorge, autora de “A Costa dos Murmúrios” (romance que se desenvolve na antiga colônia portuguesa de Moçambique, nos anos 60, durante a guerra colonial pela independência), sabe que foi casada com um oficial paraquedista e que ambos se encontravam na Beira quando se deu a Revolução do 25 de Abril, na metrópole. A escritora poderá ter vivido alguns dos cenários abordados no romance. As personagens Evita e Helena de Troia, criadas por Lídia Jorge, poderiam ter-se “cruzado” com a romancista. Com efeito, é natural que encontremos no livro traços de caráter feminino, mas não se pode afirmar que tal ocorre em função do sexo da autora. O romance “A Costa dos Murmúrios” poderia ter sido escrito por um homem que tivesse passado por África no tempo da guerra colonial e que tivesse tido contato com a realidade, depois ficcionada. Um missionário, um jornalista, um militar…

O mesmo se pode dizer em relação ao escritor António Lobo Antunes, também português, autor de “Os Cus de Judas”, romance que se desenvolve em Angola, também no tempo da guerra colonial pela independência. Da biografia de Lobo Antunes, sabemos que o escritor foi mobilizado para Angola em serviço militar obrigatório e que, tal como o narrador-personagem, esteve destacado como médico no palco de guerra. “Os Cus de Judas” poderia ter sido escrito por uma mulher enfermeira,  um elemento do Movimento Nacional Feminino, a esposa de um militar…

Portanto os dados biográficos não são indicadores do sexo dos autores destes dois romances. Porém, admito que possa haver algo de biográfico, nomeadamente em “Os Cus de Judas”, porque Lobo Antunes costuma dizer que a guerra lhe estragou a vida para sempre.

Em “A Costa dos Murmúrios”  e em “Os Cus de Judas” deparamo-nos com estratégias metaficcionais de enquadramento espacial e histórico da guerra colonial em Moçambique e Angola, respetivamente.  Estão evidenciados nos dois livros a crueldade da guerra, as condições de vida dos povos que lutavam pela sua emancipação política e até cultural,  a morte, os massacres dos negros pelas tropas portuguesas, a transformação dos intervenientes no conflito como seres desumanos e, entre outros aspectos, os fracassos amorosos em consequência dos ambientes de guerra.

Em “A Costa dos Murmúrios”, Lídia faz, com duas narrativas diferentes, a referida evocação da memória, indo ao encontro de Moçambique dos anos 60. Surge-nos Evita, a personagem feminina que vê chegar os navios das tropas portuguesas à antiga colônia portuguesa e, a partir daí, nada ficará como antes. Vinte anos após os acontecimentos na guerra (que, apesar dos ferimentos e mortes em combate direto, ficará marcada também pelas atrocidades, torturas e assassínios em massa da população negra civil), a mesma surge-nos como Eva Lopo, mas já como narradora. Eva Lopo apresenta a sua versão de “os Gafanhotos”, relê-o, fruto de várias correspondências descritivas. Diz, em muitas passagens do romance: “Evita era eu”. Evita e Eva Lopo são, de facto, a mesma pessoa, com vinte anos de diferença, mas a primeira mantém-se como personagem enquanto a segunda apenas como narradora, porque esta terá de manter a sua “imparcialidade” na história, para descortinar e revelar a verdade dos factos sobre os massacre ocorridos, tanto mais sendo formada em História. Evita é testemunha das fotos mostradas por Helena de Troia, onde se veem negros torturados até à morte; Eva, sendo narradora, tem em Evita apenas a sua testemunha sobre o que se passara. Mas isso não basta para poder revelar a verdade dos factos.  Evita, rebelde e inconformada com a estrutura familiar, com a situação vivida, acaba por aceitar os ditames da realidade. Evita desejou a libertação, mas não foi capaz, mesmo não tendo aceitado ficar isolada em casa durante a ausência do marido, o alferes Luís Alex, que se instalara no teatro das operações de guerra. A sua relação com Álvaro Sabino, o jornalista (cujas crônicas semanais apenas relatam os mortos na guerra sem que fossem à profundidade das causas e à constatação do regime de Lisboa), se, por um lado, colocou em causa a relação matrimonial com o marido e a sua subalternização como mulher, nada adiantou para a sua emancipação. Mesmo com Helena de Troia, casada com o capitão Forza Leal (que tinha “despachado” o despachante devido à relação amorosa com a mulher), Evita colocou em causa os costumes num regime de inspiração católica. Helena de Troia, dotada de extrema beleza, e que aceitou a imposição do marido de ficar “internada” em casa durante a sua ausência, também ele na guerra, sentiu atração homossexual por Evita. Despiu-se de forma solenemente erótica e convida a amiga: “Tranca a porta!”. Evita recusa o convite, mas compreende Helena, ao ponto de a incentivar na satisfação dos seus desejos. Porém, se há nisso uma espécie de subversão dos valores culturais e institucionais, o certo é que acaba por aceitar a realidade. A alusão, “- Vamos vingar-nos deles?” mostra o ódio que Evita e Helena de Troia sentem pelos maridos, que são imagens institucionais da ditadura portuguesa. Apesar da traição conjugal, tal desejo de libertação não passava apenas de um desejo, que não revelavam.

Quanto ao papel da mulher na sociedade e na História, a passagem que mais me fez refletir e que confirma o que acabo de dizer, é a seguinte:

–  “Sabe o que significa o seu nome?”

– “Não, não sei.”

– “Nunca lhe disseram Haec Helena?”

– “Não, nunca.”

“- Dizer Haec Helena é o mesmo que dizer eis a causa do conflito – gosta?”

Na minha interpretação, Evita vê Helena de Troia como a esposa subordinada ao marido, objeto de satisfação sexual, mas também, e numa alusão tradicional religiosa, medieval, de que o corpo feminino é o culpado pelos males do mundo – referência à Eva da Bíblia, da qual nasceu o pecado. Eva Lopo, refere-se a Evita assim: “Evita aliviava quanto a árvore da sabedoria era do demônio, e a erva da inocência pertencia a Deus…”.

António Lobo Antunes – Instituto Camões

Em “Os Cus de Judas”, António Lobo Antunes utiliza procedimentos de estilo literário renovadores, onde o narrador se evidencia com estratégias de ficção diferenciadas. Prevalece a ambiguidade entre a ficção e a história, a subjetividade, com múltiplas imagens às vezes instantâneas, fragmentos da sua vida (desde a infância mal resolvida ao regresso da guerra, que, recorde-se, o marcou para sempre). Há nisto um estilo singular. Estrutura e desestrutura a narrativa, ora próximo, ora distante dos acontecimentos.

Neste romance, onde o autor critica duramente a guerra e os senhores de Lisboa (governo) que a mantinham, o narrador-personagem teve várias mulheres, que as amou com intensidade, de ódio e raiva contra a guerra, e em que o prazer carnal, a ternura de algumas mulheres são o seu “porto de abrigo” – quase um refúgio maternal. Diz: “- Desculpe, a pergunta é tola, todas as mulheres são capazes de amar e as que o não são amam-se a si próprias através dos outros, o que na prática, e pelo menos nos primeiros meses, é quase indistinguível do afeto genuíno”.

Portanto, meus caros leitores e leitoras, a ministra Damares Alves tem matéria abundante para propor a Jair Bolsonaro a criação de um longo Índex no Brasil. Resistam!

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