Damares viu Jesus e Chico Buarque viu o Papa

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José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online.

Durante a semana que passou, logo que me debrucei no íntimo da minha reflexão para a escrita desta crônica, deparei-me, inevitavelmente, com duas efemérides importantes da história do Brasil: os dias 13 e 14 de dezembro. E, com alma de compromisso e utopia, liguei a bela canção de Geraldo Vandré “Pra não dizer que não falei das flores”, que até a cantarolei, cá entre os meus botões, imbuindo-me no poema e melodia: “Caminhando e cantando / E seguindo a canção /…”

Porém, fui interrompido de imediato com fatos da atualidade, que me obrigaram a desviar a centralidade temática da crônica para dois outros acontecimentos, que, no fundo, se ligam. “Isto anda tudo ligado” – como diz o cantor português Sérgio Godinho. Mesmo assim, começo este texto fazendo referência às duas mencionadas efemérides.

No passado dia 13, completaram-se 50 anos após a promulgação do Ato Institucional n.º 5 – no ano de 68, um golpe dentro do golpe de 64, nunca é demais lembrá-lo! –, decreto no qual o presidente Artur da Costa e Silva fez do Brasil uma sucursal do Inferno, pondo fim a todas as liberdades políticas e cívicas bem como todas as garantias constitucionais. Foi, de facto, uma descida aos infernos. Depois disso, como três décadas de democracia não foram suficientes para extinguir o príncipe das trevas, este, agora, continua à espreita e aguarda milhões e milhões de brasileiros para o seu reino, que de divino não tem nada.

A segunda efeméride tem que ver com o segundo aniversário da subida de Dom Paulo Evaristo Arns para os braços do Criador. Nesse dia, o franciscano catarinense, cardeal e arcebispo emérito de São Paulo, recebia a consolação divina por uma vida tão cheia – 94 anos – ao lado dos mais pobres e perseguidos. É um dos símbolos maiores da democracia no Brasil, um gigante dos direitos humanos.

De fato, depois da minha reflexão orante sobre estas duas efemérides, sou interrompido por duas notícias – uma feliz, a outra estapafúrdica. A primeira informa-nos do encontro do cantor Chico Buarque com o papa Francisco, na residência de Santa Marta, no Vaticano, juntamente com a advogada Carol Proner, o advogado argentino Roberto Carlés e a ativista e escritora italiana Grazi Tuzi. Segundo a mídia, entregaram ao santo padre um relatório de mil páginas com denúncias de processos que consideram de “judicialização seletiva da política” no Brasil, na Argentina e no Equador –  isto é, o uso da lei na luta política (lawfare), que é um dos maiores perigos em democracia. Este encontro com o papa Francisco deixou-me deveras feliz e esperançoso.

Mas, de repente, a minha felicidade é manchada: surge-me uma barata tonta no ar, a fazer muito ruído, com múltiplas vozes numa só voz. Quem é e quem não é? Andei à procura e encontrei: Damares Alves, pastora evangélica e futura ministra do governo de Jair Bolsonaro. As TV’s e vídeos nas redes sociais mostram a mulher aos pulos e aos berros, num culto religioso, a dizer que viu Jesus Cristo em cima de um pé de goiaba, aos 10 anos, quando pensou em se matar. O assunto deu para muita gente se rir, para muita chacota. A princípio pensei que era um mero caso de psiquiatria, mas não é… O caso é ainda mais grave.

O espetáculo de Damares Alves surge num momento de grandes suspeições criminais sobre abundância de dinheiros em contas bancárias, que envolvem os nomes de um dos filhos de Bolsonaro, da futura primeira-dama, de um assessor, de um motorista e de outros bolsonaristas. Por ouro lado, a Folha de S. Paulo informa-nos que a ONG Atini, fundada por Damares Alves, está a ser investigada, dizendo que “indigenistas  e o Ministério Público falam em tráfico e sequestro de crianças e incitação ao ódio contra indígenas”.

É óbvio que todas estas suspeitam mancham as vestes luxuosas para a tomada de posse do presidente recém-eleito. E, neste caso, como em muitos lados do mundo fora, os poderes ocultos e tenebrosos recomendam que se armem circos em praça pública, como na Roma antiga, para distração do povo, desviando as atenções para o ridículo e infantilização das populações. E a mídia é o sinal mirabolante dessa comunicação. Lembram-se do caso Monica Lewinsky, nos anos 90? A mulher que se terá envolvido num escândalo sexual com o presidente norte-americano Bill Cliton. Enquanto a comissão de inquérito fazia os seus trabalhos para apuramento dos fatos, Bill Cliton, volta e meia, mandava despejar uns tantos mísseis em regiões do mundo árabe, para desviar as atenções dos norte-americanos sobre o propalado escândalo sexual.

Damares, ao dizer que viu Jesus Cristo em cima de um pé de goiaba, quis criar um caso mediático – e criou! – para desviar as atenções não só em relação às suspeitas que recaem sobre si e sobre a família Bolsonaro, mas também  em relação à posição da Igreja Católica quanto a uma intenção totalitária do novo presidente. Para já, usaram a pregação do circo evangélico, de alienação mental das populações, mas não tenho dúvidas que quando o novo poder estiver consolidado as formas de espetáculo serão bem piores.  Lembram-se da guerra das Malvinas? Foi uma tentativa desesperada pela então ditadura militar da Argentina para desviar as atenções dos argentinos sobre os sinais de declínio que já apresentava. Portanto, não estranharei o dia em que o Bolsonaro se se envolver numa invasão militar da Venezuela, tanto para gáudio dos que o apoiaram para a sua eleição, como para agradar aos desígnios da administração de Donald Trump.

O encontro dos dois Chicos, em Roma, criou muita azia nos estômagos do novo poder de Brasília, que está disposto a reforçar a popularidade das seitas evangélicas para diminuírem o poder de influência da Igreja Católica brasileira. Esta, não obstante por vezes infestada por movimentos internos muito conservadores, opacos, sisudos, de mentalidade medieval (como, por exemplo, os padres da  Canção Nova), é, no contexto sociológico de toda a América Latina, uma voz profética muito poderosa ao lado dos mais pobres e perseguidos. Gostava eu que a Igreja Católica em Portugal tivesse esse desempenho, mas não tem, infelizmente.

Bolsonaro teme Francisco, bispo de Roma. O lobo teme o cordeio, porque o mundo se constrói com poesia e bondade, não com armas e arrogância. Francisco sabe muito bem o que é uma ditadura militar. Viveu-a, na Argentina; é, por nascimento e condição, vizinho do Brasil. O franciscano conheceu e é contemporâneo de muitos mártires daquela região do mundo, tal como Dom Óscar Romero. Francisco não dará ouvidos às correntes internas ultraconservadoras da Igreja, os obtusos passadistas da Idade Média, que durante a campanha eleitoral até se aliaram às seitas evangélicas a favor de Jair. É imperioso que o papa Francisco visite o Brasil nos próximos tempos, para devolver a esperança e a coragem a esse país de mil cores, e que proceda à beatificação e canonização (já pedidas) de Dom Helder Câmara – outro gigante na defesa da democracia, dos pobres e dos direitos humanos, que acreditava que a teologia é um meio da salvação da alma, mas também do corpo. Porque: “Caminhando e cantando / E seguindo a canção / Somos todos iguais / Braços dados ou não / Nas escolas, nas ruas / Campos, construções / Caminhando e cantando / E seguindo a canção. // Vem, vamos embora / Que esperar não é saber / Quem sabe faz a hora / Não espera acontecer.

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