O proselitismo religioso como suporte ideológico

Campanha do MPF contra o proselitismo religioso nas campanhas eleitorais (Imagem: Pinterest)
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Hoje abordo uma das muitas problemáticas que se levantam com a eleição de Jair Bolsonaro e de toda a sua nomenclatura partidária, onde pontificam pessoas de falso conhecimento, sem cultura alguma e de grande revanchismo político.

Trata-se do proselitismo religioso das seitas evangélicas que elegeram o novo poder e o integram e que, muito estranhamente, tem a admiração e o aplauso de padres católicos, como, por exemplo, o sacerdote Paulo Ricardo, da Canção Nova, que até aprova a total liberalização do uso de armas pela população brasileira. Trata-se de um proselitismo religioso como suporte ideológico, o que significa um retrocesso cultural e civilizacional, como tantas vezes aconteceu na História da Humanidade.

O proselitismo define-se pela ação de tentar converter alguém de qualquer maneira e de forma persistente a uma religião, a uma ideologia, a uma filosofia ou a uma causa, muitas vezes com técnicas de persuasão sem ética alguma.

Sou católico cristão praticante. Nunca tive a intenção de “angariar” alguém para a “minha” religião. É verdade que cada crente está incumbido do seu papel de evangelizador, mas concebo que a verdadeira evangelização não visa um “grupo religioso”, não é propriamente o que dizemos ser, mas o que fazemos, principalmente pelos mais frágeis da sociedade – os que muitas vezes esperam por nós e por vezes nós não estamos lá. Todo o cristão ou não-cristão tem de ser autocrítico das suas próprias falhas, não se pode glorificar de uma verdade religiosa, que só existe na diversidade dos muitos pensamentos sobre Deus, pois nenhum deles é verdadeiro se não aceitarmos a diversidade e o respeito pelas “fronteiras” de cada um.

Recentemente, Jair Bolnosaro prometeu implantar no país um “Brasil de verdade”. Referia-se aos indígenas, à tentativa que o governo vai fazer de os adaptar à cultura dominante. Com esta determinação, o presidente do Brasil está a ignorar toda a história dos povos indígenas, a sua relação com a Mãe-Natureza, a sua milenar sabedoria e o seu propósito: o indígena prefere morrer do que se tornar escravo de alguém – subtrair-lhe a cultura é matar-lhe o seu DNA. Assim fez quando os portugueses chegaram ao Brasil: recusou ser escravo.

Depois das afirmações de Jair, a sinistra ministra Damares Alves veio reforçar o propósito: que o indígena tem que ser integrado na religião de Jesus, que ela diz ter  visto em cima de pé de goiaba.

Este fenômeno de não respeito pela diversidade cultural não é exclusivo do Palácio do Planalto. Tomou forma e expandiu-se no Brasil devido à alteração política entretanto ocorrida. O descontentamento de muitos cidadãos em relação às várias fragilidades das democracias ocidentais provocou e provoca um sentimento de anti-intelectualismo, de populismo, colocou e coloca em dúvida a seriedade de figuras que antes eram tidas como exemplares e impolutas – daí a decepção, que leva ao não respeito pela diversidade. De certa maneira, estamos a viver um Maio de 68 ao contrário. Há meio século pedia-se um mundo novo; hoje pede-se um mundo velho, que coloca em dúvida até os avanços da Ciência. Quem pensa é ridicularizado e quem é bom é ingênuo. Há dias, alguém dizia que os escritores, hoje, só escrevem para os colegas. E, de facto, isso já começa a ser verdade.

O Brasil, de mil maravilhas e de muitos contrastes sociais e geográficos, com as fragilidades próprias de uma democracia com apenas três décadas, caiu nas garras de pessoas da pior espécie: as seitas dominam psicologicamente as massas, incutem  o medo sobre a “ira divina”, tornaram-se empresas comerciais, estipularam o dízimo obrigatório como condição para a obtenção dos milagres. Num país onde a medicina não atende toda a gente, nada mais eficaz do que a chantagem psicológica sobre os mais frágeis socialmente. E, para sustentáculo de toda esta rede de empresários da Fé, nada melhor do que ter alguém no poder – apoiá-lo em campanha eleitoral e fazer parte desse governo, ter automóveis e palácios de luxo, aviões, estações de TV e todo o paraíso na Terra.

E aqui está busílis da questão! Antes do Natal, uma leitora assídua das minhas crônicas confessava-me, em mensagem privada, que faz parte de uma igreja evangélica, não das que elegeram Bolsonaro, e que não gosta que eu fale em “seitas”. Respondi que quando falo de igrejas falo de igrejas, quando falo de seitas falo de seitas. Claro que há muitas igrejas evangélicas com propósitos e práticas honestas, mas as que habitualmente me refiro são entidades comerciais muito agressivas e manipuladores. São seitas, mesmo!

E como se define uma igreja honesta e uma igreja duvidosa? Começa no sentido da sua teologia. Pelo que conheço, as grandes correntes religiosas (Cristianismo, Budismo, Judaísmo, Islamismo, Hinduísmo, etc.) baseiam-se, umas mais do que outras, na teologia do estoicismo, isto é, do sacrifício do fiel por si e pelos outros, do sofrimento, do esforço no seu quotidiano. No caso do Cristianismo, Jesus é o paradigma desse sofrimento por toda a humanidade. O dinheiro, a violência e até o poder são contrários à felicidade conquistada pela ascese. No caso, das seitas evangélicas, convencionalmente enquadradas nos protestantes neopentecostais e que elegeram Bolsonaro, sinceramente, para mim, não são igrejas, não são religiões. São mesmo seitas! Baseiam-se na teologia da prosperidade. Prosperidade não para os pobres fiéis, mas para os pastores. Enquanto que nas outras correntes cristãs (católicos, metodistas, luteranos, calvinistas , etc.) exige-se aos pastores formação e até estudos acadêmicos, nas seitas em referência qualquer um pode ser pastor. Basta que use do seu poder financeiro ou de grupo de pressão. Uma das regras da teologia da prosperidade consiste no seguinte: quanto maior for o montante do dízimo do fiel, maior será o milagre que vai obter. E assim se criam impérios financeiros à margem da ética e da lei. Para esse objetivo, estas seitas incutem a ignorância e o medo nos seus seguidores; quem os contrariar está endemoniado. Era assim que a Igreja Católica procedia no tempo da Inquisição. Felizmente, séculos que já lá vão!

No entanto, é triste haver ainda resquícios da Igreja Católica antiga a manifestarem-se como se estivéssemos na Idade Média. Falo dos padres da Canção Nova e de outras correntes ultraconservadoras, que se aliam aos objetivos das seitas evangélicas na atitude proselitista como suporte ideológico a Bolsonaro e às suas tropelias. Associam-se a Damares Alves, que impõe que “azul é para o menino” e “cor de rosa é para e menina”, associam-se a quem diz que a Terra é plana e não gira em torno do Sol; associam-se a pessoas da pior espécie. Esses padres, que dizem que devia ser obrigatório o uso diário da batina pelos sacerdotes, por tanto que querem ser, estão a distanciar-se do papa Francisco. Na minha opinião, são ainda mais fundamentalistas do que os do movimento tradicionalista de Dom Marcel Lefebvre. Têm uma porta aberta… Edir Macedo espero-os.

Crentes ou não-crentes, católicos, muçulmanos, budistas, testemunhas de Jeová, metodistas, batistas, adventistas, luteranos, calvinistas ou seguidores de outras religiões ou filosofias, somos todos filhos do mesmo Deus. Ninguém deve impor a sua crença a ninguém, a não ser pelo seu testemunho de amor ao próximo. Só assim somos convincentes na Fé em Deus e no ser humano como potencial praticante do bem.

José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

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1 COMENTÁRIO

  1. Brasília, 21-1-2019 – Mesmo que a gente não concorde inteiramente com o poeta e jornalista José Carlos Pereira, é preciso ler – e estudar – com amplo conhecimento do Brasil e sua realidade política.

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