Do Bairro da Jamaica a Paulo Freire, passando por José Afonso e Emmanuel Mounier

RTP
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José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – PT

Meus amigos, vejam bem isto! Há pouco mais de duas semanas, instalou-se uma polêmica em Portugal, provocada por acontecimentos ocorridos entre a polícia e moradores de um dos bairros mais degradados do país. Uma carga policial, filmada e partilhada nas redes sociais, lançou essa polêmica.

Trata-se do denominado Bairro da Jamaica, que fica no concelho do Seixal, a 20 Km do sul de Lisboa. É um conjunto de prédios num espaço de 5 hectares, cuja construção teve início nos anos 80 mas nunca foi concluída, porque o proprietário abandonou os terrenos, devido a problemas com a banca. Os prédios acabaram por ser ocupados, na década de 90, por famílias africanas imigrantes, sobretudo de origem angolana. Há dois anos, foi anunciado um acordo de colaboração entre várias instituições para o realojamento condigno até 2022 das cerca de 250 famílias do bairro, que apresenta baixas condições de segurança e de higiene. Além disso, as autoridades apontam tratar-se de um bairro com índices de criminalidade.

Os recentes acontecimentos entre moradores e polícias começaram depois de as autoridades terem sido chamadas para acudir a desacatos entre duas famílias. Não me pronuncio nem tomo partido sobre o que se passou em concreto; deixo isso nas mãos da Justiça. Uma certa esquerda portuguesa, de origem trotskista, critica a polícia, acusando-a de desproporção na sua atuação de defesa da integridade dos moradores e diz ter havido atitude de racismo; a extrema-direita, por seu lado, aproveitou a “boleia” para fazer propaganda à sua política para uma “nova ordem social”, contrária ao convívio das várias raças em sociedade. O caso ganhou tamanhas proporções que até portugueses residentes em Angola estão a ser ameaçados como represália. Por sua vez, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, prometeu visitar o bairro, mas não disse quando. Não sei se houve exagero ou não na descarga policial, mas, na minha opinião, houve exagero de linguagem por parte de todos os intervenientes políticos sobre o caso. Falou-se de mais e nada se fez.

Ao saber destes acontecimentos e das suas repercussões e ao constatar a falta de inteligência de todos políticos que se pronunciaram sobre o assunto, uma certa angústia apoderou-se de mim: estes sinais indicam-me a certeza que Portugal, a Europa e o mundo deixaram de ter homens e mulheres a sério, tanto à frente dos governos como nos movimentos cívicos e de alternância. Os que existem são tão poucos e estão em extinção. Por este caminho, vamos todos descer ao inferno: vamos perder as nossas democracias, os direitos sociais e cívicos, a paz e até a coragem para viver. O mundo está a ficar mesmo triste e vazio. Não tenho nenhuma bola de cristal, mas podeis ter a certeza de todas estas perdas. Estamos de luto!

Foto: Instituto Liberal

Ao ver este caso do bairro e do triste espetáculo da marionetas falantes, lembrei-me de Paulo Freire, com alguma ternura de saudade pelo velhinho, esse homem tão belo, portador do Homem Novo. Li-o tantas vezes na minha juventude e enalteço o seu método. Não me admiro, mas contesto e estou disponível a colaborar no sentido da indignação, a medida da nova política brasileira de excluir do ensino o pensamento deste grande pedagogo e humanista brasileiro. O homem que procurou e achou nos bairros do Recife os humanos que eram bichos. Recentemente, e ainda a propósito dos acontecimentos no Bairro da Jamaica, uma destacada e premiada figura da intelectualidade portuguesa, residente em Lisboa (a 20 Km do local), disse que desconhecia a existência do bairro. Este é um grande problema de muitos intelectuais: fecharem-se nos seus “nichos” e falta de coragem. São valentes a falar, mas nada fazem. São egoístas. Não estou apelar ao neorrealismo, mas ao conhecimento da realidade sociológica de um país tão pequeno como Portugal, com pouco mais de 11 milhões de habitantes.

Também me lembrei muito de uma grande senhora portuguesa, chamada Helena Cidade Moura, já falecida. Uma intelectual que, tal como Paulo Freire, descia aos bairros problemáticos das cidades. Lembrei-me, igualmente, de José Afonso (conhecido por Zeca Afonso, que faleceu com 57 anos de idade e faria em agosto 90 anos), o autor da canção “Grândola, Vila Morena”, que foi uma das senhas para a revolução do 25 de Abril de 1974. A Nara Leão fez uma versão desta canção, está gravada. Este poeta, cantor e compositor foi um resistente à ditadura, com canções de intervenção e participação em eventos contra o regime, mas não deve ser só conhecido por isso. É autor de muitas músicas que vão ao fundo da portugalidade e, além do mais, tem trabalhos muito sublimes. É um gênio. Em 2018, alguém estapafurdiamente propôs que os seus restos mortais fossem transladados para o Panteão Nacional, em Lisboa. Estapafurdiamente, porque não é esse o lugar que o Zeca queria estar, sempre recusou honras, glórias e poder. Era uma espécie de franciscano. Falo muitas vezes nele, não como veneração mas como um dos meus mestres de cidadania. Filho de um magistrado e de uma professora, era muito coerente, humilde, generoso e bondoso. Em Portugal e pela Europa fazem-se muitos tributos à sua vida e obra (também já ajudei a fazê-los), nomeadamente na data do seu aniversário (dia 23 deste mês) e nas comemorações dos aniversários da revolução. Uma das minhas frustrações é não ter visto ainda fazerem-lhe uma homenagem num dos bairros tidos como problemáticos ou um evento cultural que, não sendo de homenagem, fosse inspirado na linha da sua atuação de cidadão e artista. Era nos bairros e nas coletividades onde ele mais gostava de intervir, com gente pobre e humilde. Aliás, há uma canção sua intitulada “Menino do Bairro Negro”. Era a sua maneira de estar com o “outro”, que em literatura se chama alteridade. Ser homenageado pelas indústrias culturais ou por instituições de poder tem, quase sempre, algo de litúrgico, de comercial, de uma certa hipocrisia e aproveitamento, a bem dizer, de nenhuma utilidade. Sinceramente, não gosto de ver o Zeca como uma espécie de santo padroeiro de romaria.

Na minha qualidade de mentor e dinamizador de um movimento cultural “Tertúlias Itinerantes”, que já realizou iniciativas por diversas cidades do país, há dois anos e meio, principalmente a partir do anunciado realojamento faseado das famílias do Bairro da Jamaica, tinha idealizado organizar uma sessão cultural para pessoas desse bairro, por ideia e em colaboração com uma grande amiga minha residente no concelho do Seixal e muito dinâmica, a pensarmos na inclusão. Inspirados no conceito de Paulo Freire de que é possível integrar os cidadãos pela educação e pela cultura num processo que exige paciência e generosidade e inspirados também pela afirmação do dominicano brasileiro Frei Betto de que “não há nada mais fácil do que integrar pessoas supostamente difíceis, logo que haja vontade”, eu e a Angelina iríamos convidar um grande amigo meu, o Gonçalo, formado em Ciências Sociais, um homem muito inteligente, sensível e bondoso. Iríamos convidar também, para o efeito, associações, professores, jornalistas, intelectuais, artistas, autarcas e representantes de várias etnias e religiões, todos com um propósito: “não vimos aqui para ensinar nada, vimos apenas estar convosco”. Infelizmente, a minha amiga adoeceu e acabou por falecer; com a sua morte, morreu também o projeto. A missão seria difícil? Não! Seria sensível, mas não impossível.

Com isto, quero dizer-vos que, não renegando a necessidade dos partidos na vida dos países e das suas democracias, os cidadãos podem intervir à margem deles e do poder que os seus membros tanto anseiam para governar a vida. Nenhuma revolução se concretiza em pleno se não for pelo ensino e pela cultura. Querer tirar Paulo Freire das escolas brasileiras e dos manuais de sociologia na Europa e no mundo é querer criar muitos e muitos bairros da Jamaica…

A escola é o primeiro lugar dos compromissos de um indivíduo. Não devemos cair nas visões neutrais do ensino, numa escola indiferente ao mundo e ao individuo como ser único, numa visão apenas de produção. A escola não é neutra.

Li alguns detratores de Paulo Freire a evidenciarem Emmanuel Mounier como antídoto da sua concepção educativa. É errada essa ideia. É verdade que Mounier, pensador francês, que viveu entre 1905 e 1950, sempre defendeu uma escola laica, tanto a nível religioso como político, mas, tal como Paulo Freire, concebia que a neutralidade como doutrina impediria a escola de se tornar autônoma. Leia-se: “A prática da neutralidade acha-se numa série de becos sem saída: a escola que pretende ser neutra deixa o ensino difusamente impregnar-se de alguma doutrina elaborada segundo o espírito dominante”, Porque se assim fosse, segundo Mounier, “não daríamos à pessoa senão o sentido de uma liberdade vazia, preparada para a indiferença ou para o jogo, não para o compromisso responsável e para a fé viva, que são a própria respiração da pessoa”.

É precisamente devido a esta neutralidade, de falta de compromisso, que temos bairros como o da Jamaica e a tragédia de Brumadinho, que matou tantos pobres indefesos e se deu por ganância econômica. Se não educarmos as crianças para a responsabilidade ética, para o compromisso com a sociedade e com o Estado, continuaremos a ter seres desumanos a governar, por um lado, e “bichos” enterrados em favelas, por outro.

A escola brasileira não pode prescindir de Paulo Freire. O Brasil, como tantos países da América Latina, de África e de outras partes do mundo sofrem da síndrome dos efeitos da escravatura. A cultura da desigualdade é terrível…

Freire e Mounier dão-se lindamente e complementam-se. A escola comprometida é o primeiro passo para a defesa de uma filosofia da pessoa. Como se sabe, o personalismo, de Mounier, é uma doutrina que evidencia o primado da pessoa e a distinção entre pessoa e indivíduo – é assim que se distingue o personalismo do individualismo. Nesta linha de pensamento, a ideia democrática é sempre o resultado positivo não só dos atos eleitorais na esfera da política mas, muito além disso, da participação direta dos cidadãos, dos múltiplos contrastes de ideias e opiniões, dos gostos das pessoas e das suas crenças – quase sempre diferentes e até opostas entre si, mas fundamentais. E também das várias realidades sociais de um país como o Brasil.

Repito: não tenho nenhuma bola de cristal, mas podeis ter a certeza das perdas que vos falei. Estamos de luto! Não só pelas vítimas de Brumadinho.

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4 COMENTÁRIOS

  1. Parabens pelo lindo, verdadeiro e complexo artigo. Enfatizou bem a realidade do nosso mundo moderno qdo mencionaou que o mundo de hoje prescinde de homens e mulheres com inteligencia e capacidade….Falta qualidade no ser humano moderno. Lamento pelos problemas do povo amigo português. E Paulo Freire é essencial NAS ESCOLAS ou o aprendizado descerá a uma escala indecente.
    Um grande abraço da sua admiradora
    Mercedes

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