8 de março entre afagos, estupros e feminicídios: a Síndrome da Costela de Adão

Imagem retirada da internet
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Roberta Maia Gresta
Robeta Maia Gresta – é Doutora em Direito, eleitoralista, professora e autora do blog “a Fala”e colaboradora do site Na Pauta Online.

8 de março de 2019, como tantos outros dias, amanhece em luto por mais um feminicídio.

Uma mulher foi queimada viva por seu namorado, após ser espancada, ainda desacordada. A ira do companheiro, cretinamente justificada por uma emissora evangélica por ela ter sido “flagrada na cama” com outro, foi desencadeada diante de uma cena de estupro. Sim, a mulher, estuprada dentro de casa, enquanto inconsciente, foi espancada e queimada.
No meio das mensagens fofas de “feliz dia das mulheres”, chama a atenção uma que agradece a elas por tornarem as “nossas vidas” – nossas, dos homens – mais “leves e encantadoras”. Sim, é dia das mulheres, mas, quem diria, o significado está em cumprirmos bem nossa missão sagrada de agradar os homens.

O 8 de março nos faz ver que a sociedade machista sofre da Síndrome da Costela de Adão. É uma sociedade que crê que a mulher deve sua existência ao homem e por isso deve se mostrar grata, disponível, dócil. Boas meninas ganham biscoito. Meninas más devem ser punidas. A medida da punição, claro, dada pelo homem, que é também quem define o que é ser uma menina má.

No limite da misoginia, homens se acham no direito de reivindicar de volta sua imaginária costela, ao redor da qual se forma o corpo feminino, que por isso lhes pertence. Desde o jornalista que não consegue entender como se distribui camisinha no carnaval ao mesmo tempo em que se adverte que assédio é crime até o brutamontes a invadir a cabine de um banheiro feminino para estuprar uma mulher, a premissa compartilhada é a da objetificação das mulheres, corpos vagantes disponíveis ao entretenimento e alívio sexual dos generosos doadores de costela.

Junto com a costela recebemos um código de comportamento, que, segundo prometido, nos colocaria a salvo da violência. “Basta” se dar ao respeito. O problema é que esse “se dar ao respeito”, além de significar a renúncia a liberdades de que os homens podem gozar impunemente – como andar pelas ruas, sair só, paquerar, beber, vestir-se como quiser, levar a vida sexual que bem entender, trabalhar com o que quiser, definir se e quando quer formar família – , pode ser alargado para incluir qualquer coisa que assegure, ao final, a possibilidade de culpar a mulher pela violência sofrida. Afinal, é a nós que cabe, desde meninas, saber que os doadores de costela rondam, ávidos.

Somos sempre as transgressoras, cujo comportamento está sujeito a escrutínio mordaz. Por que saiu? Queria o quê no tinder? Bebendo desse jeito assumiu o risco. Ir ao banheiro sozinha? Essas depravadas no carnaval, quase sem roupa, não são ingênuas. Todo mundo sabe que ela gosta de provocar (Hum, ainda quando “ela” é uma menina de 11 anos estuprada pelos tios… afinal, por que não contou antes? E cadê a mãe que não fez nada?)
A Síndrome da Costela de Adão é implacável. Provocamos por existir. Transgredimos por querer existir livremente. Rompemos a ordem estabelecida quando decidimos contestar esse mito estúpido e dizer que a costela e o corpo são nossos, apenas nossos, e que sobre eles seremos nós – cada uma – a estabelecer as regras.

Dentre essas regras, a mais premente é a do direito a definir se queremos que nossos corpos passem por uma gestação. Cegos pela Síndrome da Costela de Adão, conservadores, religiosos ou não, colocam a gravidez no pacote da objetificação do corpo da mulher. Desculpem todos que se intitulam defensores da “vida”: isso é só um eufemismo pra você dizer que acha sua particular crença sobre como as coisas devem ser mais importante que a liberdade e a autodeterminação de uma mulher que por seus próprios motivos – lidem com isso: quaisquer motivos – quer por fim a uma gravidez.
A questão em torno dos direitos reprodutivos é simples demais se a mulher for vista como sujeito, dona da costela e do corpo. A perplexidade de quem for ante a decisão de uma mulher por abortar seria, apenas, aquilo que adultos têm que encarar todos os dias: o mundo não é uma extensão do seu ego. Mas, ao contrário, enquanto prevalece o discurso objetificante, a negativa do direito ao aborto é a sociedade patriarcal gritando que os corpos femininos devem ser vistos como aquela extensão, dependente e servil, dos doadores de costela. Então, abaixo à hipocrisia dos “pró vida”: o problema de vocês é considerar a mulher que faz sexo uma transgressora e por isso querem que a gravidez, longe do início de uma vida que a sociedade prometeria proteger e cuidar, paire como sanção por um uso “irresponsável” do corpo pela mulher – apenas ela – que não “se deu ao respeito”.

É 8 de março de 2019 e “feminista” segue sendo um rótulo manejado com desdém e reprovação pelos acometidos pela Síndrome da Costela de Adão. Pintadas como loucas, histéricas, raivosas, mal amadas, irrazoáveis, as feministas são como tal nomeadas para deslegitimar o que quer que digam ou façam. Aos olhos de quem anda bem no compasso da opressão de gênero (homens e também mulheres), toda denúncia é precipitada; toda exigência por igualdade esconde a real incompetência das próprias mulheres em conquistar um lugar ao sol; toda temida “pauta feminista” é um aceno à depravação moral e à desestruturação social.

Algumas mulheres crédulas no código de “se dar ao respeito” engrossam o coro. Exaltadas pelos homens como exemplo de “viu, respeitamos mulheres que se dão ao respeito”, mal percebem que já entregaram a costela na bandeja. Enlevadas por “serem ouvidas”, não percebem que, como nas mensagens fofas de “feliz dia das mulheres”, só o são porque sua voz é eco inofensivo da ordem estabelecida.

Há as que estejam tão embevecidas consigo mesmas que acreditam que tomar chá com misóginos e reforçar estereótipos contra as “feministas raivosas” é algo muito significativo pro mundo. Falar da sua importância “de dentro” pode ser perdoado como um momentâneo devaneio narcisista, mas não diminuir a pauta e a luta de guerreiras que retiram vítimas de violência de dentro das casas, asseguram a condenação de agressores, dão a cara pra se assumirem lésbicas, confrontam cada proposta abjeta de retrocesso legal de direitos trazidas por esse governo e pelos parlamentares que o apoiam. Enquanto se beberica o chá, mulheres negras e pobres morrem em abortos clandestinos, vítimas de estupro e feminicídios se acumulam, e outras tantas seguem aprisionadas numa vida de servidão permanente que garanta a disponibilidade de “secretárias do lar” necessárias pras carreiras de mulheres brancas de classe média decolarem. Mal dá pra crer que alguém encha a boca pra festejar que o “seu feminismo” não incomoda machistas, sem perceber que esse “seu feminismo” é apenas ela se dando bem no mundo machista. Mas sim, há quem o faça.

Do lado de cá, que é certamente “de fora”, porque antagônico à Síndrome da Costela de Adão, o dia 8 de março é dia de confrontarmos cada velada contribuição que legitima a continuidade da perversidade descomunal com que a sociedade trata as mulheres. Só há um ponto de partida possível para a mudança: aceitar a premissa, radicalíssima, de que mulheres são sujeitos, não objetos, donas de seus corpos e seres humanos livres. Não há poréns. É urgente que nos deixem em paz para sermos o que e como quisermos, para andar por onde bem entendermos, para usar nossos corpos como quisermos, pra termos nossas vidas conforme decidamos.

Aos incapazes de aderir a essa premissa, nos poupem de mensagens pasteurizadas exaltando um ideal feminino construído à base de muita, muita violência. Preferimos ser donas das nossas costelas do que receber flores.

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