Dialética da Cidade Utópica

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José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

Dois trágicos acontecimentos ocorridos na semana que passou, provocados por mente humana, deixaram-me muito triste e bastante inquieto sobre o sentido e a razão da existência humana.

O massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, no município de Suzano, no estado de S. Paulo, e nas mesquitas em Christchurch, na Nova Zelândia, são daqueles acontecimentos que vêm colocar em causa muitos dos nossos sonhos e sentido de missão. Isto desanima, de fato. Até dá vontade de rasgar os livros que acumulamos ao longo de décadas, partirmos os discos, queimarmos o que escrevemos, insultarmos os humanistas e pegarmos em armas, fazendo o jogo dos donos da selva.

Falamos e escrevemos para quem? Só para nós mesmos. Não conseguimos chegar aos ouvidos deles, porque eles são bichos-robots? Terão culpa? Mas quem fala de culpa? No que falhamos, meu Deus? Eles são os excluídos de uma sociedade que, a nós, nos conforma? Serei eu egoísta e desumano, ao ponto de contribuir para que existam egoístas e assassinos? Senhor, se culpado sou, diz-me como fazer! Imploro-Vos! Quem é quem nesta tremenda engrenagem da sociedade das nações?

Esfriado este meu grito, marcado pelo assombro das notícias que me chegam pela rádio depois de uma noite bem dormida, procuro no baú dos meus papéis um poema antigo da minha juventude, da minha autoria, “Dialética da Cidade Utópica”, que se reporta a um das minhas desilusões políticas (não partidárias) que tive em novo, ao constatar de que não há sociedades ideais. Mas, entre a desilusão de não haver sociedades ideais e o pesadelo de haver quem mate por razões de ordem sociológica (Suzano) ou ideológicas (Nova Zelândia), prefiro o primeiro desgosto, que é de veludo em relação à espécie de holocausto que, com o tempo, se agiganta e ameaça o mundo.

PS – As notícias dos trágicos acontecimentos ocorridos na semana que passou não devem desviar as nossas atenções sobre outra notícia: um policial reformado, de seu  nome Ronnie Lessa, que é um dos dois suspeitos presos de terem assassinado Marielle Franco, há um ano, residia no condomínio onde morava o presidente Bolsonaro, na Barra da Tijuca, com fabulosos sinais exteriores de riqueza, num nível de vida muito acima para um policial reformado.

 

E assim me despeço com o poema tirado do baú :

Eliete, tua filha, sonhara ser princesa,

e o mar, de si, desesperou na onda neblina de outono,

do qual as flores iam a enterrar.

À conquista, tomamos de assalto a fronteira,

vassalada por Eliete, ora rainha, ora escrava do duque,

que, noite após noite, embebedava-se de ciúmes –

dessa crueldade do Homem,

acorrentado às raízes

sem margem.

Sem destino,

o castelo caía derrubado:

não havia ninguém espreitando na torre de menagem;

as almas invocavam o silêncio,

e os cavalos, ferozes, galopavam

na imensa quietude das estátuas,

em pleno inverno.

Gritei bem alto, desesperado,

naquela túnica podre e suja.

E, sem manchas brancas, endoidecia

de espada na mão empunhando

Vitória!!!…

 Não era um sonho, não.

Não me lembro de tão grande pesadelo:

aquela noite, para mim, sem rosto…

Comigo morava apenas o mapa do burgo:

os artesãos enalteciam as pedras antigas;

faziam ruas e calçadas

e lâminas para desfazer a barba;

os ferroviários exigiam cartazes

e colavam-nos nas paredes da cidade mineira.

Depois, ouviram-se tiros e gritos de mulheres

e cachopos chorando o pão, que não comiam.

As sirenes tocavam em emergência contínua

contra os estaleiros paralisados.

O cronista, exausto, inebriava-se com o esplendor da revolução –

e não foi bem assim que aconteceu,

da noite para o dia.

E, tu, meu bom amigo, lá vieste!

Aguardava esta visita, é verdade.

Mas tens que compreender:

não poderei hospedar-te tanto tempo em minha casa.

De facto, foste tu quem me acordou,

mergulhado na superfície côncava deste meu pesadelo.

Obrigado!

Devo agradecer-te. Sim, é verdade. Mas mais nada!

E não venhas lá com essas conversas!…

Não posso, nem deveria ter assumido o compromisso,

quando já nem sequer consegues convencer os teus próprios filhos.

Portanto, para quê tanta aventura,

numa noite progenitora d’ inverno?

Obrigado, meu amigo, mas para quê pensar?

Quero lá saber o que se passa!

Porque nada do que vi se torna verdadeiro.

Deixa-me viver, irmão! O mundo,  para mim,

foi construído apenas pelo suor

(e isso eu sei-o bem, mas, também,

não me ficam remorsos de tal)

Preocupa-me somente o futuro de Eliete,

a filha mais velha da casa,

que diz não sermos pai e filha,

outrossim marginal de uma cidade sem rio –

facto de somenos importância,

mas que, na verdade, a tornaria mais viúva

ou, fatalmente, meretriz de idealismos,

na idade da puberdade

e dos encantos íntimos.

Olha como a palma da tua mão tem uma planta fina,

agora, neste calor ofegante!

Bebe, porém, companheiro!

Bebamos ao fim dos dias da nossa vida!

Criemos mas é os nossos filhos, se os tivermos!

Alimentemo-nos das nossas mulheres,

que serão só nossas!?…

Quanto ao resto, menino, deixa estar!

Ficará para outra vez,

para um outro dia qualquer

esta minha ilusão de ver as coisas.

Por mim, contra todos, e através do mundo,

eu sei bem como hei de procurar as melhores flores do jardim –

e sei muito bem cuidar delas, ouviste?

Não te preocupes! Sei que há sementes que não germinam,

mas os nossos filhos hão de ter os seus próprios filhos,

que, de certo, virão a ser nossos netos.

Estes, certamente, hão de alongar-se na conversa,

e nada,  poeta, ficará por fazer –  é uma questão de tempo.

Sem isso, claro, não conseguiríamos sobreviver às intempéries do norte.

É tudo uma questão de marés.

Deixa lá os barcos, já te disse,

Porque isto não é bem o Atlântico!

Porém, os panos nas jangadas rumarão à mesma,

e o Sol arranjará uma forma de sermos,

mais ou menos, um planeta brilhante e com ar azul.

Nada fica agora interrompido, percebes?

As nevadas virão e cortarão, é certo,

um pouco a pele das nossas mãos,

mas o lume, na chumaceira das cinzas,

acenderá outra fogueira. E assim, sucessivamente…

Não te desgostes, rapazinho, com a minha incoerência.

pedirei por ti na hora do testamento.

Irei então buscar rosas bravas,

e os cravos ficarão escondidos no quintal

do vizinho mais próximo.

Assim, não haverá discursos

nem pragas

ou insectos afetados pelo vírus HIV.

Também, se for o caso, não mo digas a ninguém que o sabes.

Tudo isso é normal e enquadra-se na lógica das coisas óbvias.

 

Vá, vá, agora, vai! Procura um emprego

e trabalha! Trabalha muito, ouviste?

Se não, quando os donos da quinta regressarem a casa

nada encontrarão tudo lá dentro,

e, toma cuidado,

chamar-nos-ão então bandidos e ladrões!

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