Quem comemora ditaduras é capaz de matar a própria mãe

Vítimas da ditadura pedem ao STF que proíba comemoração do golpe de 64 - 27/03/2019 - Poder - Folha
José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

Salomão era o sábio mais consciente da humanidade. O mais lúcido de todos. Não sei se o mais justo, mas a verdade é que, por força das circunstâncias do seu tempo, se tornara no mais sensato de todos – o menos cruel no que respeita à justiça dos homens. Achou bem tomar a decisão mais lógica, a mais racional e, aparentemente, a mais difícil, não obstante tratar-se de questões maravilhosas do espírito.

Salomão, ah, Salomão!… Porém, temo-lo… Temo todos os veteranos da lei, porque, infelizmente, a lei tem estado abaixo dos mestres – todos os mestres superam as leis. O meu receio não tem que ver com a decisão do rei, juiz do seu povo, mas pelo desfasamento que a sentença produz nos quotidianos do mundo – porque mundo é mundo, cosmos é cosmos, e as coisas da alma e do espírito não são bem a mesma coisa.

Ai, os quotidianos do mundo e a opacidade dos dias em que decorre o julgamento!… Não acredito na história oficial. Nunca acreditei. Porque a história oficial nunca é a história verdadeira. Jamais o será.

Salomão, no solo da ganância dos seres, jamais percebera o animal intrínseco dos humanos: não são os ganhos; são perdas que fazem os governos… Afinal, Salomão é esperto, rei e governante; a sua condição de mestre resume-se a isso – eis a contradição.

Salomão terá sido um homem bom. Isso não o posso negar ou duvidar. Bom e justo. Mas donde vêm a bondade e a justiça?  Quem define os critérios? E por que uns são bons e outros são maus? E por que uns são justos e outros injustos? Terá sido um critério do pó da terra? Da natureza? Do cosmos? Entenda-se que, neste capítulo, estamos a falar de instinto: o instinto humano. Humano e animal. Se é que Salomão é justo e bom, é também mestre da lógica e da razão. Neste aspeto, o espírito e a alma – acredito nessas existências – estão ainda muito longe e podem nunca cá chegar. É que Salomão preocupou-se muito com o raio das mercadorias, da posse da terra, da família e do povo que o sustenta, preocupou-se muito e tão pouco com a justiça – eis, portanto, uma nova contradição!

Salomão corroborou do erro crasso do seu tempo. Não se preocupou com a origem de tudo… Os pré-socráticos, não obstante a sua escassez de conhecimentos, demonstraram uma excelente percepção do espírito e da alma, primeiros sinais de que, afinal, o impossível é realizável, sendo este o caminho indicado pelas estrelas. Daí a origem do fim do mundo, o princípio de todos os holocaustos, na esteira do pensamento (nunca assumido) de que todos somos homens e mulheres, mas alguns apenas bichos.

Salomão sucumbiu, levou com ele toda a humanidade, pois a criança acabou por morrer. Abandonada. A humana humanidade, que só cabe nos sonhos e que se realiza procurando inconformadamente o Infinito, desfaz-se em elogios e em proclamações. Afinal, as ditaduras não são assim tão más, porque são necessárias. As democracias, por muito bem intencionados que sejam os seus princípios e valores, são o prelúdio da libertinagem e da vulgarização da corrupção – não sou eu quem diz, são os incautos “saberes” da era tecnológica, que já enterraram o saber dos grandes humanistas e fazem içar a bandeira de todos os fascismos emparcelados nas siglas, nas cores, nos gestos e nas vozes. E se não dizem, insinuam; e se não insinuam, contagiam; e, contagiando, alastram o pólipo à escala planetária. Bolsonaro e os seus comparsas são demasiados coerentes. Demais! Proclamam bem alto, pensam, insinuam e contagiam… Assumida e assustadoramente! E não vale a pena dizermos que a sua popularidade baixou, porque eles estão lá!… Jair, que não demonstra apreço algum pela cultura e possui o que de bruto modo emerge do instinto animal, seguiu a premissa de Platão de que “a verdade está noutro lugar”. Ou seja, não obstante ter sido eleito em regime democrático, para ele, a verdade não é a democracia; a verdade está noutro “local”: na ditadura, na violação dos direitos humanos e na supressão de todos os direitos políticos, cívicos e constitucionais do povo brasileiro. Daí ter promovido, com grande cinismo, o elogio à ditadura militar, com homenagens e comemorações na passagem do 55.º aniversário do golpe de Estado de 64.

Na verdade, Salomão errou. Vestira a indumentária do juiz Sérgio Moro. Ao  contrário do Salomão da Bíblia, o Brasil matou a criança que tinha dentro de si, ao eleger um ditador, que – atenção! – não engana ninguém; contagiou milhões e milhões de brasileiros para umas das mais perigosas aventuras políticas da civilização ocidental. Até o presidente da República portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, abraçou o promissor ditador na tomada de posse. Foi o único chefe de Estado da Europa presente na cerimônia. Não lhe bastaram os cumprimentos formais; abraçou o Messias da extrema-direita brasileira com a mesma veemência que eu abraçaria Madre Teresa de Calcutá. E agora? O que nos diz Marcelo deste elogio, destas comemorações da ditadura militar? E do muito que está para vir? A nível de violação dos direitos humanos no Brasil, podem crer que a procissão ainda vai no adro.

Comemorar crimes é crime, porque é promovê-los. Maior crime se torna quando são as instituições a comemorar; torna-se pedagogia. A extrema-direita portuguesa tem sido punida por promover manifestações antirracistas, xenófobas e homofóbicas. A Alemanha vai mais longe: pune e até mete na cadeia quem nega o holocausto. Em maio do ano passado, uma idosa de 89 anos de idade, Ursula Haverbeck – mais conhecida por vovó nazista – foi condenada e presa, já reincidente, por negar o holocausto, ao afirmar que Auschwitz não era um centro de extermínio, mas apenas um campo de trabalho.

Salomão tem de voltar e substituir-se a si mesmo, substituir todos os “Sérgios Moros” da nação brasileira; tem de permitir a instituição da democracia como valor absoluto na comunidade dos humanos e ensinado aos cidadãos desde terna idade, a começar pelos primeiros anos de escola.

Quem comemora ditaduras é capaz de matar até a própria mãe, é dar início ao fim do mundo, é prometer o holocausto.

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