“As comadres”

Katia Saules
Katia Saules  – Atriz, formada em Artes Cênicas, escritora, critica de artes e colaboradora do site Na Pauta Online – RJ,
Esta coluna vai ao ar todas as quartas-feiras.

Algo extraordinário acontece. Uma peça engraçada com tristeza e melancolia. Gargalhadas e choros alternam-se como se fossem ensaiados. Emoção à flor da pele, tudo transborda, personagens com seus infinitos particulares tocam a plateia de forma grandiosa.

São 20 atrizes em cena, bonito de se ver só mulheres dividindo o palco para contarem uma ‘senhora história’, que parecia algo muito simples de início, mas que vai tomando corpo, forma e muito conteúdo. Elas são mães, tias, madrinhas, babás, vizinhas, mulheres… tantas e tão variadas mulheres que tem um encontro marcado, na cozinha de Germana, para juntas colarem os selos que a mesma ganhara em um concurso. A personagem que abre o espetáculo lindamente, cantando e já emocionando com tamanha beleza e força cênica é vivida pela atriz Janaína Azevedo.

A história basicamente é bem simples, amigas que se reúnem para a colação de selos, mas isso é somente o pano de fundo para o tanto de outras pequenas e importantes histórias que estão por vir. Tudo acontece quando muitas mulheres se juntam, fofocas, segredos, discussões descobertas, intrigas e até traições.

A excelente montagem é uma adaptação da peça de Michel Tremblay, um musical canadense que já rodou o mundo, e que as atrizes Fabiana de Mello e Souza, Juliana Carneiro da Cunha e Julia Carrera tiveram a feliz iniciativa de nos trazer, sendo agora supervisionada pela magnífica Ariane Mnouchkine (diretora do lendário Thèâtre Du Soleil).

Ariane é de uma sensibilidade que impressiona, um preciosismo bonito de se ver, com escolhas muito inteligentes para cenário e adequação cênica. Notoriamente envolvida em todo o processo, tive a honra de conversar um pouco com ela pós espetáculo e até mesmo tirar algumas dúvidas sobre a escolha de um final ‘real’, por exemplo.

Vi uma plateia linda, totalmente absorta e ávida de mais daquele sentimento ali apresentado. É de fato muito envolvente o trabalho de Ariane, junto do time de atrizes que são incríveis e se revezam nos papéis a cada noite de espetáculo.

Do dia que assisti destaco 4 atrizes: Anna Paula Secco, pela composição cuidadosa de sua Angelina Sauvé,uma senhorinha a frente do seu tempo, consciente de seus atos, porém insegura por conviver com senhoras tão fechadas para a vida; Janaína Azevedo, que vive Germana Lauzon e dá um verdadeiro show de talento, indo do drama a comédia com a mesma facilidade; Julia Marini que dá vida à Rosa Quimet, uma mulher forte e frágil ao mesmo tempo, dura, firme, porém infeliz, que diz sim ao marido quando na verdade queria ter dito não como um leão; e a engraçadíssima Sirléia Aleixo, que faz a Ivete Longpré, mulher correta, mãe, casada mas que vive uma vida mediana.

As atrizes estão perfeitas em seus papéis, dominam o palco e nossa atenção e ainda cantam, sob a batuta do excelente Wladimir Pinheiro, que assina a Direção Musical do espetáculo. Manter músicos em cena é também algo belíssimo, e vê-los ali, tocando, faz a emoção tornar-se ainda maior. Catherine Henriques no piano, Karina Neves na Percussão e Mracello Sader no Baixo.

Cenário belíssimo de Mina Quental, que nos ambienta e ao mesmo tempo nos deixa cientes de que tudo ali é pura encenação, isso é uma maravilha!

Figurinos muitíssimo adequados, que dialogam o tempo inteiro, de Tiago Ribeiro, iluminados por Hugo Mercier Bosseny e João Goia.

No ‘Programa’ da peça, Ariane nos indaga: ‘Como uma peça triste pode ser tão engraçada?’ e só ao sair do teatro pude ter a resposta, mas não a direi aqui. Que cada um obtenha a sua, já que é um processo muito individual e transformador que ali se vive. Então, digo: Só vá! Não pense em mais nada, apenas vá se surpreender com ‘AS COMADRES’.

Uma realização FMS Produções Artísticas, que chega pra balançar as estruturas e fazer o povo sair diferente de quando entrou no teatro. Essa é a real missão, e neste caso, muito bem cumprida.

2 COMENTÁRIOS

  1. Leio aqui uma crônica teatral incrível de um espetáculo incrível que tive a oportunidade de assistir.
    Realmente… É um misto de emoções gostoso de sentir.
    Excelente crítica. Parabéns!

  2. Fico orgulhoso e feliz dos seus palpites.
    Você está se superando a cada dia.
    Não faltou nada. Parabéns minha filha.
    Sou suspeito em falar. Sou seu fã. Beijo.

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