O mito como resgaste da democracia

Natália Correia: O espírito indomável que marcou Portugal - Foto reprodução - Delas
José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

Lembro-me muito bem de terem perguntado a Natália Correia (escritora e poeta portuguesa nascida em 1923, no arquipélago dos Açores, e falecida em 1993) quais eram os seus ídolos.

A pergunta foi feita numa entrevista televisiva ao vivo, numa tarde de domingo, quase no final da vida desta figura marcante das Letras portuguesas. Quem ainda se lembra pode testemunhar a prontidão da resposta, dita com muito convicção, no tom prosódico peculiar de Natália: “Não tenho ídolos, tenho mitos”.

Não sei se os mitos mentem, tal como a inocência das idílicas auroras, não sei se iludem a nossa realidade ao darem-lhe o sabor da poesia; sei que nos tiram do fardo pesado das nossas vidas e nos levam a uma bela tranquilidade de espírito, a que podemos designar como o lugar da utopia.

É certo que os nossos mitos são apenas o que os nossos olhos veem e interpretam, são imagens magnânimas que nós desenhamos para o futuro, no ato do presente, com base no passado vivido, recolhe imagens remotas e projeta-as muito para além das nossas vidas, em busca do belo, da felicidade, num processo de catarse que não fere ninguém, não tiraniza. Trata-se, portanto, de um processo individual, mas também em comunhão, um propósito cultural onde aspiramos ao mais alto de nós mesmos e do próprio mundo ,com a legitimidade dos sonhos.

Com ou sem ilusão de ótica, eu preciso dos mitos, porque, indo eles muitas vezes a um passado remoto, ajudam-me a criar as minhas crenças e não as crenças dos outros, sem, contudo, querer excluir a partilha em comunidade, que é um gesto muito humanizador. Quanto aos ídolos, não! Tal como Natália e como Moisés, que libertou o povo da escravidão do Egito, rejeito os ídolos, porque os ídolos equiparam-se a  inglórias divindades, em tudo supostamente superiores aos humanos. Por isso, não sou muito adepto de pessoas elevadas ao topo dos estrelatos, sejam de que área forem: política, desporto, cultura, religião, etc. Há sempre o risco do endeusamento humano – bastante perigoso. Por exemplo, Frank Sinatra e Michael Jackson são dois ídolos brilhantes da música, muito celebrados mas que, afinal, vieram a revelar-se lobos nas suas condutas pessoais. Em Portugal, no tempo do Estado Novo, o ditador António Oliveira Salazar era tido como santo por parte dos seus simpatizantes e agentes do Estado. Antes dele, tivemos Sidónio Pais, tido como presidente-rei. Mais grave ainda, foi Hitler ter sido escolhido em eleições livres como o messias da Alemanha. Como dizia o meu bondoso amigo Manuel António Pina (poeta, escritor, jornalista e ensaísta), nascido em 1943 e falecido em 2012 e que venceu o Prêmio Camões de 2011, “do que estamos precisados não é de bons poetas, é de boas pessoas”. Traduzindo para outras áreas, estamos fartos de ídolos, precisamos é de boas pessoas, sem tirarmos, é óbvio, o mérito a quem o tem.

Os ideólogos de Jair Bolsonaro foram astutos quando o projetaram na cena eleitoral para a presidência do Brasil como o mito – assim ovacionado nas ruas por onde passa. Trata-se de um engodo cultural, porque nem Jair nem os seus apoiadores fazem parte da essência cultural do Brasil, um país tão múltiplo. Os mentores ideológicos criaram um ídolo, um faraó, que ostraciza as abundantes e tão diversas matizes socioculturais do país e o livre pensamento com que as nações livres do ocidente se desenvolveram e se tornaram adultas.

Sou um homem de mitos, porque busco o humanismo em todas as esquinas da vida. Amo-os e convivo com eles diariamente.

No dia em que escrevo esta crônica, comemora-se em Portugal o 45.º aniversário do 25 de Abril de 1974, marco histórico que desencadeou uma revolução que pôs fim a 48 anos de ditadura e concretizou alguns o principal mito da nossa civilização: a democracia, que trouxe a liberdade nas suas várias expressões, trouxe os direitos humanos e sociais, a cidadania e, entre outros, o Serviço Nacional de Saúde, obra assinalável do regime democrático português, que, apesar das suas naturais insuficiências, mete inveja às maiores potências econômicas do planeta. Em Portugal, qualquer cidadão acede a um hospital público, seja empresário, funcionário público ou sem-abrigo. Esta conquista social incomoda muita gente. Vejam, meus caros leitores brasileiros, por exemplo, a luta que tendes pela frente contra a reforma da Previdência, uma injustiça gritante que afetará milhões e milhões de pessoas. O ídolo Jair, que o povo brasileiro elegeu para o seu país, é tão-somente um homem, não se trata de um mito, que se diz messias da nação. O perigo dos ídolos é esse: vulcanizar as ideias e ideais numa só pessoa, num faraó para a escravização de todos e confundir as raízes culturais do país, apegando-se à cultura da violência e da repressão – o falacioso argumento da autoridade do Estado.

Os ídolos acabam por morrer, tornam-se frágeis face à resistência dos oprimidos, como no Egito dos faraós. Os mitos, não!  Acompanham o homem durante séculos e milênios, perpetuam-se, correm o mundo a partir de uma época e de um tempo longínquos. Foram a primeira resposta às inquietações do ser humano. Por isso, são um patrimônio comum na história da humanidade, são elementos importantes de cultura individual e coletiva; chegaram até à nossa contemporaneidade – agora, obviamente inseridos em contextos variáveis, porque nada é imutável.

O ideal democrático, lançado na Antiga Grécia, foi e é o paradigma maior para a concretização paulatina do mito (“o governo do povo”) durante milênios e, ainda hoje, em cada um dia das nossas vidas e das vidas dos nossos vindouros. Esta é a verdade, com a lucidez necessária de concebermos que o passado evocado constitui sempre “o presente que nunca foi”, segundo o romancista português Vergílio Ferreira (1916-1996), porque, de fato, sem memória não há princípio de esperança.

Os ídolos não têm memória nem futuro. E assim se enuncia a validade universal do mito, com o qual o homem tenta tocar o absoluto, sendo que o absoluto não significa totalidade imutável (ao invés do que pensam os ídolos), mas um complemento de conhecimentos entre o passado, o presente e o futuro. Infelizmente, os velhos e novos opressores não conseguem fazer distinção entre o absoluto e a totalidade.

Luís de Camões, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugênio de Andrade, Rilke e Lord Byron e muitos outros poetas e escritores recorreram à memória cultural dos mitos greco-latinos, não numa atitude passadista. O historiador português Fernando Catroga reconhece que isso se realiza como “uma operação de resgaste” – ou seja, para o futuro. É isso mesmo! Cidadãos brasileiros, portugueses e de todas as partes do mundo temos de ser persuasivos, e não impositivos, da ideia de que a democracia, enquanto ideal e concretização do mesmo, é o mito que nos alimenta, que nos liberta e humaniza, que se constrói diariamente – não há outra casa onde possamos viver felizes!

Arrefeci há dias, quando ouvi, na TV, alguém dizer que os fascismos que aí vêm pelo mundo vão serem diferentes, ainda piores dos que tivemos no século XX, porque o povo está a pedi-los. Este é um campo aberto onde morrerão temporariamente todos os nossos sonhos, restar-nos-á a frustração e a solidão durante muito tempo. Como é possível, meu Deus?

Porém, o mito é sempre a memória da infância. A infância de todos nós, a infância das nações e das civilizações. O ideal de democracia não morrerá, embora por vezes fique interrompido. Como refere um verso de Adélia Prado “o que a memória ama, fica eterno”. A descrença das pessoas na democracia em muitas partes do mundo, mesmo nos países considerados civilizados, é algo assustador, mas eu sou daqueles que ainda acreditam na dialética dos tempos. Não vamos cair no buraco negro da história.

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