Desbalburdiação das Universidades Federais: a nova desculpa para asfixiar a autonomia acadêmica

- Anúncio -
Roberta Maia Gresta
Roberta Maia Gresta – é Doutora em Direito, eleitoralista, professora e autora do blog “a Fala”e colaboradora do site Na Pauta Online – MG

O contingenciamento de 5,8 bilhões de Reais que o governo federal impôs ao orçamento da Educação parece ter sido recebido – quem diria – como notícia alvissareira pelo Ministro encarregado da pasta. Ter que efetuar cortes em repasses foi a desculpa para Abraham Weintraub colocar em ação um mal disfarçado (e ilegal) plano de asfixia a Universidades Federais: “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas”, disse o Ministro ao Estadão no último dia 30.

Corte de verba da Universidade por “balbúrdia” em campus já é de estarrecer, pelo arbítrio e pela ausência de correlação entre o fato e a “punição”.

Mas piora.

O Ministro da Educação não tem critério algum além de seu capricho e sede de controle ideológico pra definir “balbúrdia”. Seu sonho abilolado é não haver no campus de “gente do MST” a “gente pelada”; de eventos “ridículos” a alunos que se machuquem; de manifestações políticas a festas “inadequadas”

Piora, ainda.

Como desculpa, ele fala em “mal desempenho em rankings”, sem dizer quais e muito menos como o corte de verbas ajudará a melhorar tais rankings. Só que, em rankings reais (não colhidos do imaginário do Ministro) as Universidades atingidas são destaque acadêmico positivo.

Não se enganem: nada há de inocente ou secundário nos delírios coletivos da moral reacionária, propagados com muito barulho. Eles são parte muito relevante do anti-intelectualismo que, disfarçado de defesa de valores tradicionais, quer eliminar o pensamento plural e o raciocínio crítico que estão na base da contestação do arbítrio e do domínio ideológico. Verbalizados, concretizam-se em justificativas patéticas e simplórias, mas eficientes para respaldar medidas antidemocráticas, porque têm encontrado cada vez mais adesão do senso comum.

É assim mesmo, com justificativas patéticas e simplórias aplaudidas por tolos, que está instalada uma patrulha voltada para a coerção ideológica de gestores acadêmicos. É real: UNB, UFBA e UFF já sofreram cortes de 30% das chamadas “verbas discricionárias”.

Não há como deixar de observar que se trata de três instituições que foram levadas a ocupar os noticiários recentes em função de investidas arbitrárias contra a liberdade de expressão em suas instalações – o que fez vir a público a resistência de seus gestores, de seus professores e de seus alunos na defesa do espaço acadêmico democrático.

Faz sentido. Na horrenda expressão do Ministro da Educação, atuar com autonomia universitária é querer “cantar de galo”. Mais horripilante ainda é o critério que ele estabeleceu para uma Universidade ter tal “privilégio”: ser “perfeita”. Perfeita, claro, de acordo com sua visão de mundo monolítica.

- Anúncio -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here