Entre as cinzas do nazismo que pairam no ar…

Foto reprodução - portal de noticias
- Anúncio -
José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

Os dias decorrem cansados entre múltiplas tarefas, cansaço físico, muitos sonhos e projetos, muitas vidas numa só vida, retrato da minha permanente (aliás, genética) inquietação – o eterno desassossego.

Todos os dias, em cada aurora, nasce um mundo novo, mas o mundo continua velho. Confesso, por vezes o desânimo bate-me à porta e pergunto a mim mesmo se valerá a pena ter em mim todos os sonhos do mundo, citando Fernando Pessoa. Mas, depois, falando comigo mesmo, reflito e reajo: todos nós (humanidade), mais tarde ou mais cedo, havemos de soltar a poesia e colocá-la nos lábios das crianças, cientes que elas serão os donos de um reino com mais paz e fraternidade.

“Queremos o mundo e queremos-lo já!” – gritavam os jovens idealistas do Maio de 68, hoje já velhos e caquéticos, muitos deles viciados no gozo de competências políticas e econômicas que, há 50 anos, combatiam nas ruas e, com isso, não dando o devido testemunho da pureza democrática, inconscientemente abriram as portas aos movimentos neofascistas. Os resultados das últimas eleições para o Parlamento Europeu, a 26 de maio, ditaram uma subida estrondosa dos partidos nacionalistas, de extrema-direita, entre os quais o de Marie Le Pen, que venceu o plebiscito, em França.

De fato, os dias decorrem assim; as cinzas do passado nazi erguem-se no ar e intoxicam milhões e milhões de pessoas de todos os continentes, inebriados na ilusão de um falso messias. Não temo por mim, mas receio que estamos indo para o holocausto.

Entretanto, naquela noite eleitoral, muito aborrecido com os resultados,  ligo o computador e ouço uma, duas e mais vozes – uma doce melodia que, instantaneamente, me retirou daquele momento de solidão em relação a um mundo coletivamente triste: um poema/canção, que eu já conhecia, “Samba da Utopia”, de Jonathan Silva. Começa assim: “Se o mundo ficar pesado / Eu vou pedir emprestado / A palavra Poesia”. Mais adiante, no meio de outros versos, o poema refere: “Se acontecer afinal / De entrar em nosso quintal / A palavra tirania / Pegue o tambor e o ganzá / Vamos pra rua gritar / A palavra utopia”.

Há dias assim, para tudo, uns bons outros sombrios. A luta contra o desânimo é uma vigília, uma procissão de anjos que desce até nós e que nos traz uma mensagem: nunca estamos errados quando lutamos pelos nossos sonhos de forma genuína.

Passados alguns dias, é tornada pública a carta do papa Francisco a Lula da Silva em resposta à missiva do ex-presidente do Brasil em 29 de março.

Francisco, um Anjo da Paz, corpo celeste de poesia e humanidade, porém, infelizmente, não seguido por muitos membros do clero no que se refere às suas posições tão carinhosas quanto corajosas e até de rutura, na sua missiva a Lula, mostrou-se solidário com o ex-presidente brasileiro; lamenta a morte de seus familiares próximos e apela para que continue a ter fé. Fé em Deus e fé no humanismo com o qual todos os cidadãos devem agir para a construção de um mundo melhor. O teor da carta de Francisco não pode ser mais explícito: “A verdade vencerá a mentira e a Salvação vencerá a condenação”.

Desta posição do papa Francisco retiro duas ilações clarividentes.

Primeiro: a Igreja Católica quando quer ser profética, é mesmo profética. Tenho dito isso imensas vezes e continuarei afirmar. A Igreja Católica na América Latina, muito mais do que noutras partes do mundo, tem sido o refúgio de muitos mártires e injustiçados. E os gestos de solidariedade têm surgido na altura certa. Lembro-me, por exemplo, do papa Paulo VI, que, no final dos anos 60, transferiu para Roma o responsável máximo da Arquidiocese de S. Paulo, o cardeal Dom Agnelo Rossi, substituindo-o por Dom Paulo Evaristo Arns, defensor da democracia e dos direitos humanos. É que Paulo VI ficou muito desagradado com a conivência de Dom Agnelo com a ditadura militar. Um grupo de frades dominicanos, contrários ao regime, tinha sido preso. Frei Tito, Frei Beto e, entre outros, Frei Fernando tinham sido barbaramente torturados. Dom Agnelo Rossi foi visitá-los no DOPS, viu os frades com as marcas das torturas e mostrou-se totalmente indiferente perante as queixas dos presos. O delegado da cadeia disse ao cardeal que eles tinham caído na escada. À saída do DOPS, o cardeal disse à imprensa que não havia tortura sobre os presos. A sorte dos dominicanos foi a de que a respectiva congregação dependia diretamente do Vaticano e não do Cardinalato; se não, os frades teriam sido expulsos do seu estatuto de padres, o vexame público seria enorme. Mesmo presos, não perderam o estatuto. Os frades cumpriram anos dolorosos de prisão. Todos sabemos do drama de Frei Tito Alencar Lima, natural de Fortaleza, um jovem muito culto e inteligente. Tendo sofrido todos os tipos de tortura, ficou muito traumatizado psiquicamente. Veio a suicidar-se, com 29 anos de idade, em 1974, em França, no exílio. A solidariedade e a grandeza de alma do papa Paulo VI foram de tal modo que o pontífice tinha feito chegar às mãos dos dominicanos presos um terço feito com caroços de azeitona, lembrando assim o momento de grande solidão e angústia de Jesus Cristo no Monte das Oliveiras, antevendo a sua crucificação.

A segunda ilação da carta de Francisco a Lula é a seguinte: com o Concílio Vaticano II, iniciado pelo papa João XXIII e concluído por Paulo VI, floresceram movimentos progressistas dentro da Igreja. Tantas vezes foram ostracizados, evitados, ignorados na instituição religiosa. Noutras vezes partidos houve que, a certa altura, se aproveitaram dos chamados católicos progressistas e, mais tarde, também os ignoraram e ostracizaram. Ambos os lados perderam muito, porque a desejada renovação de mentalidades e de estruturas estagnaram durante décadas e às vezes avançou para desvios que se podiam evitar.

Respeito muito a laicidade e estou na linha da frente nesse propósito, da não mistura do fenômeno religioso com o político, mas aceito que se ouçam as vozes autorizadas de humanismo, tal como a de Francisco e a de Luther King ou de um Gandhi, não pela mera teoria dos seus pensamentos, mas pelos testemunhos práticos: são aquilo que dizem. Nesta utopia tão linda, tão bela, tão poética e genuína, cabemos todos nós, pessoas de boa vontade crentes ou não-crentes. A tolerância é fundamental. Não confundo laicidade com laicismo fundamentalista, ao contrário de uma dirigente do Bloco de Esquerda (BE), em Portugal, uma das irmãs Mortágua, que chegou a dizer que quando se atravessa a ponte 25 de Abril (que liga a cidade de Almada à de Lisboa) em dias de nevoeiro a paisagem fica mais bonita, porque não se vê o monumento do Cristo-Rei.

O papa Francisco não se envolve na luta política interna do Brasil nem nos processos judiciais no país, mas, como conhecedor profundo das ditaduras que marcam e ameaçam regressar à América Latina, sabe muito bem – sente – que não há pureza alguma numa figura que é juiz e ministro ao mesmo tempo; que esse conflito de interesses no desempenho de funções não é possível numa democracia. Francisco sabe que o Brasil se encontra em pré-ditadura.

Os dias decorrem assim… Como havemos de dissipar as cinzas do nazismo, que andam no ar e intoxicam milhões? Milhões inebriados em busca de um messias, em busca do holocausto.

Amigos, cá vou andando, no meu monte das oliveiras, cansado de incorporar tantas vidas numa só vida, porque eu sofro todas as feridas do mundo – quem não as sente não é filho de boa gente. O cristianismo que me foi transmitido pelos meus pais não permite outra atitude. Entretanto, para meu consolo, chega-me do Brasil uma bela prenda: um livro da minha querida amiga-irmã teóloga Maria Cecília Domezi. Está a encher-me a alma e a resgatar-me do pecado da preguiça. “Mulheres que tocam o coração de Deus” é o título da obra. São mais de meia centena as mulheres descritas, desde os tempos mais antigos até ao de hoje. Um livro tão belo, cujas personagens (não ficcionáveis) são mulheres tão simples e de grande heroísmo. Falarei deste livro na minha próxima crônica.

 

- Anúncio -

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here