#CIBERFEMINISMO#: AS MULHERES EM REDE NA DEFESA DE SEUS DIREITOS

Foto reprodução: TS FEED - ITS Rio
Elizete Lanzoni Alves
Elizete Lanzoni Alves – Doutora em Direito, Pedagoga e Professora. Membro e Diretora Executiva da Academia Catarinense de Letras Jurídicas – ACALEJ. Membro do Instituto dos Advogados de Santa Catarina – IASC. Pesquisadora, palestrante e colaboradora do site Na Pauta Online – SC.
Esta coluna é atualizada quinzenalmente.

A comunicação, a partir da utilização de novas tecnologias e mídias digitais, passou por significativas transformações nos últimos anos. Além de aprimorar a divulgação de informações, notícias e acontecimentos, passou a desempenhar importante papel na organização e reorganização de grupos e movimentos sociais facilitando o acesso às ideias e visualização de materiais e conteúdo. 

A internet como espaço de ativismo feminino online, deixa de ser um ambiente, prioritariamente, de veiculação de informações para se tornar um local estratégico de organização para a defesa dos direitos das mulheres.

Como prática social, política, filosófica e artística, o ciberfeminismo utiliza as tecnologias de comunicação para mobilizar as pessoas na defesa de causas que orientam a igualdade de gênero, as lutas femininas ou qualquer outra causa expressão ou pensamento que necessitem de fortalecimento e visibilidade pelas mídias digitais, embora pareça ser um movimento recente,

diferente do que alguns podem imaginar é um movimento heterogêneo e não tão recente assim, pois, há notícias de que o termo ciberfeminismo foi utilizado pela primeira vez em 1991 na Áustria, por grupos de ativistas femininas que defendiam ideais voltados aos direitos humanos.

No Brasil o grupo Think Olga, criado em 2013, para “empoderar mulheres por meio da informação” (https://thinkolga.com/) e para isso disponibiliza conteúdos, oferece espaço de fala e desenvolve projetos nesse sentido.

Várias campanhas foram desenvolvidas e o uso de hastags (#) passaram a identificar os movimentos femininos em rede, dentre eles alguns bem conhecidos como o # PrimeiroAssedio e #ChegadeFiuFiu.

Em 2015, foi a vez das campanhas contra assédios e atos de machismos que ocuparam as mídias e as redes sociais. Foi um ano emblemático e ficou conhecido como Primavera Feminista em razão da mobilização das mulheres contra o Projeto de Lei n. 5069/2013, que restringia o direito ao aborto previsto em lei, que ocorreu no mês de outubro daquele ano.

No mesmo ano foi divulgado o “Mapa da Violência”, mostrando números assustadores sobre homicídios contra as mulheres e mais uma vez as redes sociais ganharam destaque na veiculação de importantes informações que auxiliaram na divulgação de dados e conteúdo de conhecimento como também serviram de palco para inúmeras manifestações femininas abordando temas voltados aos direitos da mulher.

De lá para cá, há um acompanhamento mais próximo das informações que tratam da violência contra a mulher, que embora seja fenômeno muito antigo, tem em sua versão mais recente um ingrediente primordial para a sua redução que é a preocupação traduzida pelas mobilizações individuais, coletivas e institucionais, inclusive com a sua criminalização a partir da Lei n. 13.104/20105 que alterou o Código Penal para fazer incidir  feminicídio como uma modalidade de homicídio qualificado, fazendo parte no rol dos crimes hediondos.

Diante do cenário de necessidade de informar, repercutir e oportunizar espaço para os mais diversos tipos de manifestações, as mulheres se organizam em rede, para ampliar o alcance de mensagens, conteúdos e informações.

A rede, nesse contexto, entendida como um conjunto de pessoas que se interconectam em um ambiente digital (ou não) promovendo a interação e a participação que estimulam o contato e a comunicação em torno de “objetivos comuns e demandas coletivas” (MARQUES, Márcia. Cultura da Informação e da Comunicação para a democracia em rede. Observatório da Democracia. Acesso em : https://www.observatoriodademocracia.org.br/2019/02/15/cultura-da-informacao-e-da-comunicacao-para-a-democracia-em-rede/).

É uma dinâmica que está em harmonia com o que a mulher faz cotidianamente e intuitivamente que é trabalhar em rede, em conexão com outras mulheres e com o mundo.

Aliás, a mulher é um ser em plena e constante conexão. A partir da ideia da ligação umbilical entre mãe e filho, passando pelos laços familiares, afetivos e de identidade, chegando na sororidade, que une as mulheres em torno de mecanismos de proteção das mais diversas ordens a começar pela questão das violências.

O ciberfeminismo reforça essa vocação que integra a natureza feminina de organização em rede e possibilita a renovação e a transformação das causas feministas, do pluralismo discursivo, da ampliação de espaços de ação e de visibilidade.

Importante esclarecer e alertar que a mobilização online une pessoas em torno de uma causa e estimula a participação dos cidadãos, tendo um significado de inclusão como exercício democrático.

As pessoas que aderem a uma causa de maneira virtual estão conectadas pela vontade de mudar, transformar, melhorar a sociedade e, embora a distância física entre as pessoas muitas vezes seja enorme, as redes sociais têm a capacidade de reduzir distâncias, abrir canais de comunicação, validar ações e dar voz e vez.

Assim, o ativismo feminino online, ganha um novo contexto de organização social e no âmbito das manifestações em favor dos direitos das mulheres. Proporciona o fortalecimento, reduz fronteiras e auxilia na convergência das lutas femininas contra as violências, o machismo e a exclusão social.

Por tudo isso e muito mais é que o #ciberfeminismo é um exercício poderoso de cidadania!