“Eu sempre soube”

Katia Saules
Katia Saules  – Atriz, formada em Artes Cênicas, escritora, critica de artes e colaboradora do site Na Pauta Online – RJ,
Esta coluna vai ao ar todas as quartas-feiras.

Uma missão disfarçada de espetáculo, que vem para investigar nossos corações. Uma palestra, um tom de documentário. Nota-se que tudo fora preparado para que pudéssemos enfim ouvir a história de Majô Gonçalo, sensivelmente interpretada pela estupenda atriz Rosane Gofman. Que brilho no olhar, que atuação, que sensatez!

Rosane é generosa! O elogio parece inapropriado já que se trata de um monólogo, mas a atriz escolheu dividir com a plateia uma história e um tema que é tão necessário nos dias atuais. Uma escolha assertiva e generosa.

Rosane embarcou com alma na história de Majô e nos presenteia com momentos de emoção que transcendem explicações. Uma peça pra sentir… Sentir o quão ínfimos somos, sentir como somos preconceituosos embora todos acreditemos que não, sentir que ainda há muito a ser discutido, sentir que pra aceitar e entender as dores e delícias de sermos quem somos, é só preciso SENTIR.

Uma direção forte e sensível, com um texto incrível, que fala de um tema que sugere certo ‘embaraço’, mas que se desenrola e flui lindamente. Marcio Azevedo que escreveu e dirigiu o espetáculo é de uma lucidez criativa e uma envolvente altivez. Uma história sensível ‘na medida’, se é que existe medida para a sensibilidade.

No programa da peça, Marcio diz o que a personagem também fala ao iniciar seu relato: Entrevistou 92 mães e dali agrupou suas vivências nos momentos mais difíceis como na hora que descobrem que seus filhos são gays, quando sentem o medo da violência das ruas e da não aceitação dentro e fora de casa… além da dificuldade em abraçar causas e lidar com estigmas e preconceitos velados.

O figurino de Anderson Ferreira é básico, simples, neutro e apropriado. A luz de Aurélio de Simoni é perfeita e José Carlos Vieira trás uma boa solução cênica no momento da transição do local da palestra para o quarto de hospital, onde ocorre uma das cenas mais impactantes do espetáculo. Vale também desatacar a presença de um músico que toca ao vivo e garante o clima certo de cada estrofe. Tauã de Lorena contribui significativamente com a trilha e direção musical.

Embora o peso das palavras gere certo incômodo e dor, mesmo nos que jamais passaram por algo descrito ali, a personagem nos toca com seu grandioso afeto.

Uma plateia emocionada e inundada de amor e esperança é o resultado deste magnífico trabalho. ‘EU SEMPRE SOUBE’ vem para mostrar que de fato já sabíamos, mas que pouco falávamos, pouco sentíamos.

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