“Mulheres que tocam o coração de Deus”

José Carlos
José Carlos Pereira é poeta, escritor e jornalista português, membro fundador de várias agremiações culturais, incluindo a Associação José Afonso, com sede em Setúbal, é fundador do movimento cultural Tertúlias Itinerantes. É licenciado em Português-História, pela Universidade Aberta, de Lisboa, tendo frequentado o mestrado em Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e colaborador do site Na Pauta Online – Portugal

Foi com alegria e emoção que, um dia destes, tive a honra de receber na minha residência, por correio postal, um belo presente do Brasil. E mais me encheu de felicidade por se tratar de um livro muito belo da autoria da minha querida amiga-irmã Maria Cecília Domezi, professora de História e brilhante teóloga.

 

Trata-se da obra “Mulheres que tocam o coração de Deus”, com cerca de 200 páginas de fácil leitura, da Editora Vozes, com sede em Petrópolis. A ilustração da capa é da autoria de Sérgio Ricciuto Conte.

A data escolhida para o lançamento do livro foi a mais apropriada: no Dia da Mãe, aí, no Brasil, que, desde 1914, ocorre no segundo domingo de maio, enquanto que em Portugal é celebrado no primeiro domingo do mesmo mês.

Neste livro, Maria Cecília Domezi começa por nos convidar a todos – homens e mulheres – a orarmos no feminino. A propósito, cito uma passagem da página 10: “Pai é a palavra que ativa em nós a gratidão, a confiança, a busca de proteção e nos ajuda a chegar mais perto da presença de Deus como nosso criador e cuidador. Mas a Bíblia mostra também uma dimensão maternal no amor de Deus”.

Na verdade, sem desvalorizarmos a figura dos nossos queridos Pais terrenos – que são obreiros, construtores do mundo juntamente com as nossas queridas Mães –, as progenitoras são as “cestinhas voadores” que nos colocam na Terra guiadas pela vontade do Criador. E Deus não tem gênero, superando assim todas as circunstâncias sociológicas desde os primórdios da existência dos seus filhos e filhas – segundo os entendidos, desde o princípio do mundo até hoje, somos já cerca de 107 biliões de seres humanos.

Quantas vez ouvi da minha Mãezinha o lamento de que “desde que o mundo é mundo, as pessoas andam sempre em guerra”!  Guerras militares, guerras políticas, o terrorismo, mas também guerras particulares entre os cidadãos mais comuns, entre pessoas que se conhecem e outras com as quais se relacionavam muito bem antes, colegas de trabalho, confrades e até nas próprias famílias, irmãos contra irmãos e pais e filhos em contenda. Aqui ou ali, nesta ou naquela região do mundo, nunca houve sequer uma hora de tréguas. Gritos, insultos, paus e pedras, pistolas e mísseis… É a fartança do ódio. Estes 107 biliões comportaram-se, e comportam-se ainda, como lobos que se devoram a si mesmo. O mundo tem sido, na realidade, a “escola do mal”, que, em vez de proporcionar felicidade, inferniza-se todos os dias, com tantas e tantas belezas naturais e outras construídas que podíamos e devíamos desfrutar, gozar e partilhar.

A verdade é que, ao longo da história do mundo, é o gênero masculino que tem estado no comando das decisões e de toda a gestão. O século XX pode definir-se como a entrada das mulheres na esfera das lideranças, mas elas são ainda uma minoria e algumas das que já estão inseridas copiam o que de mal muitos homens têm feito.

Não quero culpar o gênero masculino pelos males efetivos do mundo, mas temos de admitir que a inspiração maternal é um fator de paz. As mulheres são parturientes da Paz. Todos os que praticam o mal, antes de o fazerem, primeiro deviam refletir: “O que pensará minha Mãe do que estou fazendo?”. Tal como escrevi em poema propositado para este jornal no Dia da Mãe, o maior desgosto que se pode dar a uma Mãe é ser preso por crime com culpa formada. Maria, Mãe de Jesus, chorou seu Filho condenado, torturado e morto, mas não teve o desgosto de o ver acusado de homicídio, de roubo, de exploração ou de outro crime deplorável. O “crime” de Jesus foi o de ter dito que era (e é!) o Filho de Deus e que veio para resgatar a humanidade.

Repito a ideia: na história do mundo, os causadores de holocausto têm sido homens. Há ditadores e torturadores, homens da pior espécie. Por outro lado, tem havido, embora muito menos, homens muito bons, generosos, santos e mártires.

Maria Cecília Domezi, neste seu belo livro, fundamenta muito bem o convite para orarmos no feminino. Cita João Paulo II, que disse” Ele (Deus) é pai; mais ainda, é mãe”. Metaforicamente falando,  quantas vezes me agarro às saias da minha Mãe, como se eu fosse ainda uma criança, principalmente nos momentos de maior dificuldade pessoal! E ela, infelizmente, já não vive na Terra. Com este livro, a minha irmã-teóloga renova-me o sentimento de fazer esta comovente simbiose Deus/Mãe.

Antes de passar a descrever as mulheres referidas na obra, permitam expressar uma opinião pessoal, como cristão católico, sem querer levantar polêmica ou divisão: ainda não é permitido que as mulheres ascendam ao sacerdócio na Igreja Católica. No meu legítimo ponto de vista, e sem querer envolver obrigatoriamente Maria Cecília Domezi no meu pensamento sobre a matéria, este livro demonstra claramente, pelos exemplos femininos nele contidos, que em certas problemáticas que afetam a sociedade as mulheres enquanto sacerdotisas teriam uma capacidade maternal especial, divina, profética até, muito mais adequada do que os homens sacerdotes, principalmente junto dos adolescentes e jovens. Falo de docilidade na pregação do Evangelho. Quantos de nós não confidenciamos preocupações ou pequenos segredos com as nossas Mães, muito mais do que com os nossos Pais? Um adolescente ou jovem abrir-se-ia muito mais numa conversa privada espiritual com uma sacerdotisa do que com um sacerdote. Porque as mulheres, mesmo as que não têm filhos, possuem o dom maternal, que os homens não têm. Por exemplo, um jovem é capaz de confessar mais depressa a uma mulher que consome droga do que a um homem. É necessária mais docilidade persuasiva com os mais novos, muito mais do que punição. Punição castiga, mas, só por si, não educa. Essa é das noções mais elementares nas ciências da sociologia.

São dezenas de mulheres as mencionadas no livro, com informação de cada uma delas e com orações adequadas. Mulheres espiritualmente extraordinárias, profetas de todos os tempos e de diversas classes sociais. Mulheres que, de facto, tocam o coração de Deus.

A teóloga divide o livro em cinco capítulos:

I) Mulheres de memória bíblica, onde, por exemplo, fala das parteiras hebreias, Sulamita (o caminho do amor), Maria de Magdala (que é Maria Madalena, a apóstola dos apóstolos), Lídia (trabalhadora e apóstola) e Priscila  (ministra que ensina com autoridade);

II) Maria, Mãe de Jesus, com informação sobre as diversas “designações” de Maria, como, por exemplo, Maria do Desterro;

III) Mulheres do cristianismo originário, como, por exemplo, Perpétua e Felicidade, Cecília (a Romana), Luzia (olhos da graça) e Mônica (mãe de Agostinho);

IV) Mulheres cristãs das épocas medieval e moderna, como, por exemplo, Catarina de Sena, Joana D’Arc, Teresa D’Ávila e Juana Inês de la Cruz; e, por fim,

V) Mulheres cristãs da época contemporânea, como, por exemplo, Bakhita (a filha do patrão), Teresa de Calcutá, Dulce dos Pobres e Zilda Arns (irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, médica pediatra, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, que faleceu em serviço pastoral, em 2010, com 75 anos de idade, em Porto Príncipe, Haiti, vítima de um violento terramoto).

Recomendo a todas as pessoas de boa vontade, crentes e não-crentes, que transportam no coração a vontade de transformação do mundo para melhor, a leitura deste livro. E recomendo, se possível, a sua publicação em Portugal.

A autora

Maria Cecília Domezi é paulistana do interior e neta de imigrantes italianos. Como membro ativo do laicado católico, traz uma experiência de duas décadas de inserção e serviço pastoral junto às Comunidades Eclesiais de Base. É teóloga, doutora em Ciência da Religião, professora do Cristianismo e das Religiões.

Atualmente, leciona História da Igreja no Instituto S. Paulo de Teologia e é membro do Observatório Eclesial Brasil. Em seus escritos tem destacado a mulher, focando especialmente a América Latina. Um dos seus livros publicados, “Mulheres do Concílio do Vaticano II”, faz parte da coleção Marco Conciliar, da editora Paulus.

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