Bacurau: O mal-estar na razão tupiniquim

Cenas do filme Bacurau - Foto reprodução
*Por João Andrade Neto

Um filme “contraditório”, vocacionado para a brutalidade.[1] Um “chamado às armas”, “exemplo do que há de mais reacionário e retrógrado no cinema brasileiro atual.”[2] A “celebração da barbárie” e da “promiscuidade” entre crime e desassistência social; um possível estímulo a “vários tipos de ações violentas”.[3] Um “sintoma de desespero”, mais do que “de lucidez política”; um filme “construído sobre as ruínas da esquerda, num bolsonarismo de sentido contrário”, que “nada tem de progressista”.[4] “Uma peça de propaganda política”, “caricatural”.[5] O “testemunho da extinção de vida inteligente na esquerda brasileira”[6].

João Andrade Neto
João Andrade Neto é Doutor em Direito pela Universität Hamburg (UHH) / Albrecht Mendelssohn Bartholdy Graduate School of Law (AMBSL), Mestre em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Analista judiciário do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG), Professor de Direito Eleitoral e Constitucional da Faculdade de Direito Padre Arnaldo Janssen, Professor da Especialização em Direito Eleitoral da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Autor do livro “Borrowing Justification for Proportionality: On the influence of the principles theory in Brazil” (Springer)

As reações que Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, despertou em parte da intelectualidade brasileira contrasta com sua bem-sucedida recepção no circuito internacional. O filme estreou no País depois de uma aclamada exibição em Cannes. Vencedor do prêmio do júri do festival francês, o longa foi também premiado nas mostras de Lima e Munique. Por aqui, críticos acusam os diretores de se deixarem levar por preferências político-ideológicas e de serem condescendentes com a violência extrema.

Mas, afinal, deixando de lado a posição no espectro político-ideológico, que, de fato, separa os diretores de muitos de seus mais ferozes críticos, por que Bacurau causa tanto mal-estar?

“Quem é o inimigo? Quem é você?”
(Legião Urbana. Soldados.)

Mesmo para alguns de seus entusiastas, Bacurau é pouco sutil. Inácio Araújo, por exemplo, concorda que “as alegorias [do filme] são por vezes muito simples”[7]. Começo, então, respondendo a esta provocação: Bacurau é um filme óbvio, como tem sido acusado?

Bem, depende. A palavra “óbvio” tem três sentidos principais, não coincidentes. De acordo com o Houaiss, óbvio poder ser o “que salta à vista”; o que é evidente (no sentido de que não suscita dúvidas); ou o “que pode ser apreendido, captado ou pressentido por intuição” (isto é, percebido em si mesmo, sem a intermediação do conhecimento empírico ou teórico).

As imagens de Bacurau são de fato pungentes, penetrantes, lancinantes. (É intencional a contraposição ao que Barthes chama de “sentido obtuso”, que está além do óbvio, “obriga a interrogar” e entra “na metalinguagem do crítico”.[8]) Elas saltam aos olhos e se impõem ao espectador de modo brutal. Os fatos são mostrados com crueza, de modo a não suscitarem dúvidas sobre o que acontece na história. A câmera não recua, não se desvia nem deixa incertezas sobre o que se vê. Encara os personagens de frente. E, por isso, a brutalidade é uma opção estética que, no filme, está também na forma, e não só no conteúdo, que é inegavelmente violento.

As imagens são tão facilmente assimiláveis que parecem fazer desaparecer a diferença entre ver (como ato dos sentidos, da visão) e compreender (como ato da mente ou do espírito) – ou seja, entre os dois primeiros sentidos de “óbvio”, de um lado, e o terceiro, de outro. Mas a diferença persiste. As imagens do filme carregam camadas, e seu sentido não se esgota no que se vê.

(Quer os diretores tenham plena consciência disso, quer não) Bacurau dialoga com um sem-número de filmes e obras literárias; faz uma releitura de gêneros cinematográficos; mobiliza diversas teorias políticas e filosóficas complexas; e, mais importante, revolve questões sociológicas e identitárias profundas. No fim, indaga o que nos faz ser o que somos (brasileiros), quem é o nosso “eu” – e, consequentemente, quem é o nosso “outro”. É um legítimo produto do que se pode chamar de uma razão tupiniquim.[9]

Bacurau, o filme, está longe de ser óbvio.

“Tudo parecer ser tão real /
mas você viu esse filme também.”
(Legião Urbana. Baader-Meinhof Blues.)

Ivana Bentes cunhou uma curiosa expressão para definir Bacurau: “cinema transgênero”[10]. Concordo. Bacurau é de fato um filme transgênero. Mas não o é somente porque transita entre gêneros cinematográficos muito diversos: “faroeste, ficção científica, filme de terror, filmes de ação hollywoodianos” e funde experiências estéticas tão díspares quanto o Cinema Novo e os reality shows.

Nem é apenas porque os diretores deixam transparecer o orgulho de serem herdeiros de uma tradição cultural antropofágica que é capaz de remixar (outro termo usado por Ivana) John Carpenter, Euclides da Cunha, Rambo, Guimarães Rosa, western-spaguetti, Glauber Rocha, Mad Max e Tarantino. Uma lista com várias outras referências foi feita por Pedro Alexandre Sanches.[11]

Antes, a contradição é assumida como a própria condição da existência dos personagens da narrativa (que habitam um mundo onde falta água, mas não faltam celulares), o que se reflete nas escolhas dos diretores. O resultado é uma distopia-hiper-realista, um western-tupiniquim, uma ficção futurista surpreendentemente verossímil, que não nos traz notícias sobre o futuro, mas sobre o presente.

Mas, mais importante, o filme é transgênero também porque subverte todos os gêneros em que poderia se encaixar e particularmente o faroeste. Inácio foi preciso ao identificar que Bacurau gera espanto por pretender “participar dessa tradição normativa do cinema americano, que década após década nos ensinou como nos comportar, como beijar, como amar, como ser valente, como defender a justiça”[12] – e, acrescento, por ousar subvertê-la.

Bacurau apela abundantemente a clichês de todos os gêneros com que dialoga. Os clichês normalmente funcionam como pacificadores e normalizadores de expectativas. E por isso dão conforto ao espectador. Ou ao menos o deveriam fazer. Como utilizados no filme, porém, geram o efeito contrário. Os clichês são levados até o extremo e passam então a denunciar o que deveriam encobrir, a provocar quando deveriam apaziguar.

Essa insistência em romper com expectativas torna Bacurau “estranho”, na visão de Bruno Carmelo.[13] Bruno está certo, e arrisco dizer que muito do mal-estar causado pelo filme se deve justamente a essa ruptura da estrutura narrativa com que o espectador do cinema hollywoodiano está acostumado.

Pensemos nos elementos dos filmes de bangue-bangue que nos são mais familiares: na figura do mocinho, o xerife, e do forasteiro, invariavelmente, o vilão. Esses elementos estão lá, em Bacurau. Mas o filme de Kleber e Juliano adiciona algo absolutamente estranho ao gênero: a questão étnica. O homem branco é deslocado de sua posição natural na narrativa, de herói corajoso com quem o espectador deveria se identificar, para a de ameaça cruel e odiosa. Ao fazê-lo, o filme desvela que o faroeste do cinema reservava aos índios um papel muito específico, o de personagem pouco confiável e traiçoeiro, ao mesmo tempo que se apagava a existência de negros e latinos.

Outra categoria que Bacurau subverte ao introduzir a questão étnica é o dos filmes de guerra, justamente o gênero quase inteiramente dedicado à propaganda política estadunidense. Bacurau é Apocalipse Now no sertão. Pernambuco é o Vietnã. Mas aqueles que o cinema nos ensinou a identificar como os mocinhos são, na verdade, os vilões.

Bacurau é corajosamente metalinguístico.

“Enquanto os homens exercem seus podres poderes /
Índios e padres e bichas, negros e mulheres /
E adolescentes fazem o carnaval”
(Caetano veloso. Podres Poderes.)

Contrariando a opinião corrente, Luiz Zanin defende que Bacurau causa mal-estar não por ser extremamente violento, mas por ousar “discutir algo bastante incômodo para nossa cultura: o uso da justa violência do oprimido contra a injusta violência do opressor”, e isso tornaria o filme pouco palatável para a intelligentsia brasileira.[14]

Luiz está certo. Afinal, os mesmos críticos que se levantam contra a violência de Bacurau não parecem se incomodar quando o sangue é abundantemente derramado nas salas de cinema por cineastas norte-americanos. E o que dizer da hipocrisia de condenar a revolta daqueles que não estão autorizados a viver, porque nascidos com um alvo marcado no corpo, e se silenciar quanto aos que estão autorizados a matar.

“A polícia vai mirar na cabecinha e… fogo…” não foi uma frase dita por nenhum personagem de ficção.

Há, por certo, muito da estética da violência em Bacurau, o que torna inevitável comparar o filme com “Era uma vez em Hollywood”, de Tarantino. Por coincidência, os dois estão em cartaz em salas vizinhas no cinema. Mas, na comparação, a obra de Tarantino se sai muito menor.

Ela só serve para escancarar de vez a visão infantil que o diretor norte-americano tem da História. Frustrado, incapaz de reinventar o presente, ele está fadado a reviver eternamente o passado, a que está preso por vingança e rancor. Como não pode de fato mudar o que aconteceu, a violência que deveria ser “corretiva” não corrige nada; ela é a última expressão da impotência diante do destino.

Em Bacurau, não. A violência revela o que, sendo desde sempre óbvio, surpreende a todos por estado por muito tempo oculto.

Ela é a potência que irrompe e rompe a História, permitindo que algo inteiramente novo possa vir a existir. A novidade é, nas palavras de Contardo Calligaris, “uma comunidade diversa, alegre, com respeito e gosto por psicotrópicos e sexualidades inconformistas —em suma, uma comunidade mais animada por um projeto hedonista do que por ressentimentos ou reivindicações.”[15]

(E não deixa de ser significativo que, diferentemente de Contardo, a maior parte dos críticos nada diz sobre o intrigante modo de vida daquela comunidade, aprisionados que estão em ver naquela violência somente uma pulsão de morte dirigida contra o outro, e não uma pulsão de vida dirigida para a sobrevivência.)

De fato, a violência não funda a comunidade política nem a liberdade. Mas diante da opressão, ela cria as condições para que homens e mulheres possam vir a público, reunirem-se e se constituírem como livres e iguais. Nada disso é estranho à teoria política nem deveria causar perplexidade. É, por exemplo, uma das teses centrais de Hannah Arendt, extraídas – vejam só! – da Revolução Americana, no contexto da guerra de independência das 13 colônias contra a Inglaterra.[16]

No fundo, Kléber e Juliano são otimistas. Eles acreditam que os sertões de Canudos, de Euclides da Cunha, de Guimarães Rosa, nos salvam e nos salvarão de um destino que já se anuncia ridículo e tirânico.

“Nós assistimos televisão também /
Qual é a diferença?”
(Legião Urbana. Baader-Meinhof Blues.)

Por fim, a questão identitária. Por que Bacurau causa mal-estar ao nos colocar – nordestinos, brasileiros – em contraposição ao outro – os caras-pálidas? Aqui, me permito compartilhar uma experiência pessoal.

Um dos acontecimentos mais marcantes dos mais de três anos que passei na Alemanha quando cursava meu doutorado ocorreu em razão da escolha do Papa Francisco. A insistência das imprensas alemã e inglesa em destacarem que, “pela primeira vez na história, o papa não seria ocidental” me causou perplexidade. “Como assim, não ocidental?” Ora, a Argentina se situa do lado esquerdo do mapa eurocêntrico que aprendemos desde cedo a chamar de mundo.

Dormi pensando que, na premência de noticiar um furo, os especialistas da BBC haviam cometido uma gafe pela qual se desculpariam no dia seguinte. Mas eles não se desculparam. Conferi as imprensas francesa e espanhola. A ênfase era menor, mas a informação essencial era a mesma. O papa, um argentino, não era ocidental.

Horas depois, na universidade, encontrei alguns amigos alemães com quem costumava almoçar e contei a eles a “piada do dia”: “jornalistas europeus não sabem onde fica a Argentina!” Só que a piada era eu. Com a calma e a educação típicas, um amigo alemão resumiu: “Não sei o que ensinam a vocês no Brasil, mas latino-americanos não são ocidentais.”

Ocidentais são alemães, ingleses e franceses; europeus em geral (embora alguns sejam mais ocidentais que outros); norte-americanos (exceto mexicanos); australianos e neozelandeses; talvez os japoneses. O Ocidente vai até onde o capitalismo e algum tipo de liberalismo político deram certo. Do lado de lá, há os orientais. Do lado de baixo do equador, latino-americanos e africanos somos isso e nada mais. Não importa se brancos, negros, indígenas, ricos, pobres, letrados ou não. Brasileiros, bolivianos, cubanos, paraguaios. Por aqui, somos todos latino-americanos e, por definição, não ocidentais. Sorry, periferia.

O episódio me ensinou que há muito mais coisas no mapa do que geografia. Há não lugares físicos e simbólicos. Há os lugares fora do lugar. A Palestina não está no Google maps. Bacurau também não. São Paulo está. Mas não no lugar em que a Avenida Paulista pensa.

O Brasil do Sul ainda é Brasil, por mais branco e rico que seja. E não é ocidental aos olhos do Ocidente, ainda que se esforce ridiculamente para parecer que sim. Nós mutilamos, agredimos, escondemos e sabotamos tudo o que nos torna únicos para cabermos no mapa. Mas não cabemos; ao menos não no lugar que reservaram para nós. No fim do dia, terminamos no mesmo não lugar de sempre, uma versão pior de nós mesmos, ressentidos e frustrados por não sermos o que não somos e não estarmos onde nunca estaremos.

É contra esse (res) sentimento que luta teimosamente a gente de Bacurau.

[1] TEIXEIRA, jerônimo. É contraditório que ‘Bacurau’ se contraponha a Bolsonaro com violência. Folha de S. Paulo, 24 ago. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/08/e-contraditorio-que-bacurau-se-contraponha-a-bolsonaro-com-violencia.shtml

[2] FORLIN, Miguel. A baixeza de Bacurau. Estado de S. Paulo, 30 ago. 2019. Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/a-baixeza-de-bacurau/

[3] ESCOREL, Eduardo. Bacurau – celebração da barbárie. Piauí, 28 ago, 2019. Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br/bacurau-celebracao-da-barbarie/

[4] COELHO, Marcelo. Bacurau’, ou bolsonarismo às avessas. Folha de S. Paulo, 4 set. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2019/09/bacurau-ou-bolsonarismo-as-avessas.shtml

[5] MAGNOLI, Demétrio. Tréplica: Em ‘Bacurau’, cinema deixa interesse público, segregando-se na bolha do Partido. Folha de S. Paulo, 17 set. 2019. Dispobível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/em-bacurau-o-cinema-deixa-de-ter-interesse-publico-segregando-se-na-bolha-do-partido.shtml

[6] MAGNOLI, Demétrio. ‘Bacurau’ é testemunho da extinção de vida inteligente na esquerda brasileira. Folha de S. Paulo, 15 set. 2019. Disponível: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/bacurau-e-testemunho-da-extincao-de-vida-inteligente-na-esquerda-brasileira.shtml

[7] ARAÚJO, Inácio. Réplica: Críticos dizem que ‘Bacurau’ é um filme de propaganda; e daí? Folha de S. Paulo, 16 set. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/criticos-dizem-que-bacurau-e-um-filme-de-propaganda-e-dai.shtml

[8] BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso. Lisboa: 70, 1984.

[9] GOMES, Roberto. Crítica da razão tupiniquim. 11. ed. São Paulo: FTD, 1994.

[10] BENTES, Ivana. Bacurau e a síntese do Brasil brutal. In: Revista Cult. 29 ago. 2019. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/bacurau-kleber-mendonca-filho/

[11] SANCHES, Pedro Alexandre. Notas esparsas sobre “Bacurau”. Carta Capital. Disponível em: https://farofafa.com.br/2019/09/11/notas-esparsas-sobre-bacurau/

[12] ARAÚJO, Inácio. Réplica: Críticos dizem que ‘Bacurau’ é um filme de propaganda; e daí? Folha de S. Paulo, 16 set. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/09/criticos-dizem-que-bacurau-e-um-filme-de-propaganda-e-dai.shtml

[13] http://www.adorocinema.com/filmes/filme-247818/criticas-adorocinema/

[14] ORICCHIO, Luiz Zanin. A força de ‘Bacurau’ é simbolizar nossa falha trágica. Estado de S. Paulo, 12 set. 2019. Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/blogs/luiz-zanin/a-forca-de-bacurau-e-simbolizar-nossa-falha-tragica/

[15] CALLIGARIS, Contardo. Vou para Bacurau. Folha de S. Paulo, 12 set. 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2019/09/vou-para-bacurau.shtml

[16] ARENDT, Hannah. Da revolução. 2. ed. Ática: Brasília (DF), 1990.

1 COMENTÁRIO

Responder a Infoproducts livros Cancelar resposta

Please enter your comment!
Please enter your name here