Um tipo diferente de racismo

Nesta altura da história, em que os líderes mundiais se mostram bastante apreensivos com a ascensão eleitoral de partidos políticos defensores da diferença de direitos, e até mesmo exclusão, dos cidadãos em função da cor da pele, há que compreender um dos fatores atuais que muito contribui para este pernicioso fenômeno. São partidos que protagonizam – uns disfarçadamente, outros não –  a ideia de que os males das sociedades são causados pelo convívio de etnias diferentes dentro de um mesmo território.

Refira-se que a maioria desses líderes mundiais devia reconhecer que eles próprios encontram nas suas bases sociológicas eleitorais pessoas com mentalidade de cariz racista e xenófoba, com o risco de transferirem os seus votos para esses partidos emergentes.

Na tentativa de encontrar uma explicação, permitam-me fazer um estudo sobre um tipo diferente de racismo, que, a bem dizer, vai ao encontro das velhas realidades sociológicas quase esclavagistas. Faço esse estudo recorrendo à literatura, ao estabelecer uma comparação entre dois belos livros: “O homem que não tira o palito da boca”, obra de 15 contos, muito bem escrita, do escritor angolano João Melo, e o romance “O meu nome é legião”, de António Lobo Antunes, escritor português, de que vos falei na  crônica anterior.

Nas duas obras literárias, são evidenciadas causas de um tipo diferente de racismo, no caso concreto fruto da miscigenação.

A mistura das raças é desejável para a evolução da humanidade e para a felicidade pessoal dos cidadãos, assim como para o apaziguamento das comunidades. Mas, infelizmente, encontramos nesse processo de mudança raízes do antigamente. A miscigenação não é, não pode ser um problema, é um direito dos membros das comunidades. O problema está na falta de concretização política dos governos mundiais para que as misturas de raças se façam com a objetiva integração.

Como refere o sociólogo português Boaventura Sousa Santos, de facto, a miscigenação tem sido a causa de um racismo de tipo diferente. Claro que esta afirmação não é política, nem pode ser; é sociológica, na tentativa de se compreender e encontrar soluções.

Este tipo de racismo, ao contrário do anterior, não resulta da antiga subordinação política dos povos colonizados, que, ao longo dos séculos, foram resistindo culturalmente ao colonizador, que mantiveram a muito custo as suas identidades culturais e só mais tarde é que resistiram pela intervenção política direta, que levou à independência desses povos enquanto nações, como o caso foi do Brasil – no século XIX –, Angola, Moçambique e Guiné – no século XX.

Foram quinhentos anos de colonização portuguesa além-mar. Povos com culturas diferentes em relação à metrópole, raças diferentes em continentes diferentes. Mais tarde, já no século XX, no final da II Guerra Mundial, o ditador Oliveira Salazar, contrariando as diretrizes da ONU para que os países de todo o mundo concedessem a independência às suas colônias, teimou, teimou, teimou em manter o seu quimérico projeto de um império colonial intocável, onde os nativos das colônias não eram considerados portugueses, não eram considerados angolanos, moçambicanos, guineenses, cabo-verdianos, etc. Eram “bichos”…

Para o pensador português Eduardo Lourenço, nesse tempo, Lisboa dependia emocionalmente desta falaciosa mística – a de um império, no qual o governo (de Lisboa) fundamentava a sua ideologia com as glórias do passado, da expansão marítima, que, em nome da Fé, levou os navegadores portugueses a África, à América e à Ásia. Dentro desta linha de pensamento, Eduardo Lourenço fala das colônias como  tendo sido, ao longo dos séculos, “espaços compensatórios” do poder político de Lisboa.

Todos sabemos que a relação do colonizador com o colonizado era a de total submissão do segundo ao primeiro. Portugal, no tempo da ditadura do Estado Novo, nunca chegou a colocar a hipótese de autodeterminação dos povos africanos. O governo de Lisboa não reconhecia aos negros capacidade, inteligência e iniciativa de se governarem sozinhos. A presença de portugueses (militares e civis que se instalaram com as suas famílias) nesses territórios veio evidenciar o racismo; as diferenças de direitos eram abissais. Dizia-se mesmo que os pretos “não têm alma”.

Reconheça-se que, sobre a questão colonial, principalmente no período dos treze anos de guerra (1961-1974), havia uma ala do regime ainda mais radical que o pensamento conservador de Salazar: os “ultra”, que queriam a “independência branca”, apoiada pelo então regime da África do Sul. Aliás, isso é referido por Lídia Jorge no seu romance “A Costa dos Murmúrios”, livro de que vos falei na crônica anterior. E foi esta ala do regime que cometeu as maiores atrocidades, nomeadamente os massacres em aldeias negras (população civil). Assim, estes acontecimentos desmentem totalmente a “pureza” do ideal quimérico do Estado Novo. Uma visão tão errada e estapafúrdia que o governo e o cardeal-patriarca de Lisboa Manuel Gonçalves Cerejeira tinham de África! Viam-na de cor-de-rosa, com calendários de lindas mulheres negras. Era o paternalismo de um regime, que não reconhecia aos povos africanos capacidade e inteligência alguma. Mas, sobre paternalismo, iremos ver adiante que ele permanece vivo, no século XXI, mesmo que com outro tipo de racismo. Seja a que nível for, todo o paternalismo é letal à sociedade.

Conquistou-se a democracia em Portugal, em 1974, e a consequente independência política das antigas colônias, que levou ao regresso de  militares a Portugal e civis em massa (“retornados”), bem como à entrada de imigrantes e refugiados africanos, reconfigurando desta forma parte do tecido social português, assim como o tecido social daquelas colônias se reconfigurou, principalmente em relação aos cargos dirigentes e, entre outros aspectos, às atividades econômicas. Era (é) a globalização, a “invasão” do mundo ocidental, a modernidade, que nem sempre é autêntica: em Portugal de forma mais célere; nas antigas colônias gradualmente, ressalvando-se que Angola nos anos 90 do século XX deu um enorme salto para economia de mercado.  Um regime de raiz marxista-leninista misturado com o capitalismo louco e descontrolado, cujo denominador comum é a corrupção.

Zygmund Bauman refere na obra “O mal-estar da pós-modernidade” que “todas as sociedades produzem estranhos. Mas cada espécie de sociedade produz a  sua própria espécie de estranhos e os produz à sua própria maneira, inimitável”. A globalização, resultante do avanço das sociedades capitalistas, criou graves assimetrias sociais, repercutindo-se sobretudo em função da raça. As minorias étnicas têm sido remetidas para as periferias das grandes cidades, sem a possibilidade de acederem ao centro. (A propósito, recordemos o saudoso cardeal de S. Paulo dom Paulo Evaristo Arns, que lançou a “Operação Periferia”, no tempo da ditadura militar brasileira, transferindo os mais pobres para o centro da cidade). O cruzamento com indivíduos de outras raças, mesmo a nível das relações amorosas, não tem sido pacífico. A recusa ao emprego, a recusa ao acesso a certos níveis de qualidade de vida,  a não compreensão pela cultura de quem veio de fora, a falta de escolaridade, entre outros aspectos, levam à violência mais perigosa.

Opondo a esta realidade e profundo conhecedor dos graves problemas socais do seu tempo,  o brasileiro Paulo Freire afirmava: “Vou apreendendo a ser eu, mesmo em minha relação com o contrário de mim. E quanto mais me dou à experiência de lidar sem medo, sem preconceito, com as diferenças, tanto melhor me conheço e construo meu perfil”. Freire testemunha o quanto o racismo se inicia em episódios mentais aparentemente inofensivos, que são indicadores culturais adversos à pacificação da sociedade. Alguém pergunta a outro se conhece Madalena. O outro diz: “Conheço-a é negra, mas é competente e decente”. Paulo Freire diz que nunca ouviu alguém dizer que conhece Célia, que ela é loura, de olhos azuis, mas é competente e decente. No discurso perfilado sobre Madalena, negra, surge a conjunção adversativa “mas”… Encontramos aqui, sem dúvida, um indicador mental de racismo. Aparente inofensivo, mas é um início…

No romance “O meu nome é legião” (o título é uma referência bíblica),  António Lobo Antunes situa o desenrolar dos  acontecimento no período pós-colonial, a partir de 1975, na grande periferia de Lisboa. O romance aborda a solidão, o isolamento social, o medo, o crime (por vezes com extrema violência), o cruzamento de etnias, as frustrações de portugueses que regressaram de África e dos imigrantes e refugiados desses países, em que o cenário de abandono e discriminação (por parte dos que moram no centro da cidade) provoca a delinquência. Os habitantes periféricos da cidade por vezes “invadem” o centro e, partir daí, o fenômeno da violência torna-se ainda maior. Para os membros desta comunidade, o centro da cidade é outro “planeta”, que nada tem que ver com o seu mundo, tão perto geograficamente e tão longe a nível da qualidade de vida e de oportunidades.

O romance expõe oito suspeitos, com idades compreendidas entre os 12 e os 19 anos. Socialmente, configura estas personagens como representações de várias etnias: seis mestiços (com os nomes de Guerrilheiro, Capitão, Cão, Miúdo, Hiena e Galã), um negro (Gordo) e um branco (Ruço). Os suspeitos são acusados de furtos, roubo de carros e de homicídio. A polícia procede a uma operação de madrugada para os prender, que resultou num incêndio no bairro – o Bairro 1.º de Maio – e na morte de alguns membros do grupo. Gusmão, agente policial de 1.ª classe, incumbido de elaborar o relatório sobre os acontecimentos, retira ao documento a devida objectividade técnica, ao fazer comentários e opiniões pessoais, como, por exemplo: “o que este país tem de sobra são mestiços e pretos”. No documento, o relator menciona aspectos da sua vida particular, fazendo uma comparação com os acontecimentos no bairro. Lembra a sua infância, os seus pais, o seu convívio com o padrasto e, mais recentemente, o seu divórcio e a filha (que só vê uma vez por mês, no norte). O escritor retrata, deste modo, as dificuldades da vida, que são transversais a todas as raças e que tal pode ter repercussões mentais (frustrações) do ser humano que exerce o racismo. Tal como outrora em África, os brancos continuam a tratar os negros e mestiços como seres inferiores, como bichos, mesmos com aqueles com quem mantém relações de intimidade. Por exemplo, o viúvo idoso (branco), que casara com a irmã do Hiena, despreza a mulher apenas por ser mestiça, dizendo que ela cheira mal e que é só está interessada no dinheiro dele.

O Bairro 1.º de Maio tinha as características urbanas próprias para a descriminação, mercê da política de exclusão exercida por quem devia pugnar por um melhor urbanismo, porque da qualidade das cidades dependem os factores sociológicos de integração e não do “pudim de edifícios de matérias não nobres, fragmentos de andaime, restos de alumínio, canas…”

O viúvo idoso no romance representa socialmente o papel de colonizador, ao afirmar-se conhecedor de África e dos africanos e que a vinda destes para Portugal, no período pós-colonial, é uma busca dos negros e dos mestiços de proteção, negando assim aos mesmos qualquer capacidade e inteligência, tal como defendia a ditadura do Estado Novo. É o tal paternalismo, que perdura no tempo, vindo da mentalidade dos senhores de outrora. Diz, o viúvo: “… apontem-me um preto como deve ser, trabalhador, honesto e por mais que se esforcem não encontram nem um….” E, mais adiante, refere sobre os negros: “… tão maltrapilhos como dantes e lambendo-nos as mãos numa esperança de dono, visto precisarem que tomem conta deles para não morrerem de fome a mastigarem raízes e a catarem piolhos à entrada das cubatas de modo que cá os temos a norte de Lisboa…”.  Ao anátema social de Gusmão, que diz que semi-africanos e negros são “mais propensos à crueldade e violências gratuitas”, Lobo Antunes evidencia o constrangimento e a negação dos indivíduos não-brancos, ao ponto de se envergonharem da sua raça. Veja-se: uma das personagens questiona: “– Porque não sou branca eu? – Porque não somos brancos todos?”

Tal como no tempo de Salazar, estes africanos não são considerados portugueses, não são considerados angolanos, cabo-verdianos, etc… A história repte-se num tipo diferente de racismo.

No livro de contos “O homem que não tira o palito da boca”, João Melo,  que fala da realidade angolana após a independência do país (a partir de 1975), prossegue a linha dos escritores angolanos na busca e na construção (ou reconstrução) da identidade do seu país, ao encontro das suas verdadeiras raízes populares, recorrendo a temas de resistência, pois, como já disse, Angola, país negro com alguma diversidades culturais que a unem como nação, vive um fenômeno de globalização galopante, o que não deixa de provocar choques culturais, inclusive fenômenos de racismo contra a própria maioria negra.

João Melo, no livro, afirma: “a maioria negra sempre foi profunda e estruturalmente discriminada, pois, se não o fosse, o colonialismo não teria condições para se manter”.

No segundo conto, intitulado “Porra”, encontramos Zacarias, um funcionário exemplar,  que tinha presenciado o momento de independência de Angola, e que agora “só não chegou a diretor de serviços por ser preto”, não obstante, no período colonial, ter apoiado a guerrilha e ter sido preso pela polícia política  PIDE. Zacarias apercebe-se das contradições surgidas: as ambições pessoais dos dirigentes (inseridos gradualmente no processo de globalização e em que que o desejo de enriquecimento ilícito é grande), a corrupção, entre outros aspectos, são comportamentos desviantes, nos quais o fenômeno do racismo existe, mesmo contra a própria maioria étnica (negros). Zacarias apercebeu-se das contradições do novo regime. Por exemplo, “quando soube, alguns meses depois da independência, que o seu novo diretor seria um antigo servente da repartição onde trabalhava, resolveu pedir a reforma e passou a trabalhar como guarda-livros”. O narrador queixa-se: “Não há mais princípios. Não há valores. Onde é que, naquele tempo, uma puta andava com um jipe destes em plena luz do dia?” Refere-se a uma mulher observada por Zacarias, filha de preto e mulata, “cafusa esguia, tissagem ruiva, boca de romã, óculos escuros, vestido colado no corpo e sapatos altos e finos”, que “deve ser amante de um general, algum ministro, algum camanguista, sei lá”. Por ironia do destino, Zacarias descobre que a cafusa é sua filha, que expulsara de casa, um dia, por lhe ter atirado à cara: “- O pai está mesmo fora de contexto!”. Passagens ilustrativas da realidade moderna emergente do período pós-colonial, com as suas contradições e desvios.

O décimo primeiro conto, é abordada a história de Alves da Costa, que, sendo português (branco), ansiava ser reconhecido como angolano, a fim de exercer a sua atividade comercial, mas encontrou grandes dificuldades. Mais um problema de integração.

A mentalidade em Angola de que a corrupção é um mal menor, é narrada no décimo segundo conto, “Falso corrupto”. Um político é denunciado pela sua amante de corrupção, mas o caso é visto tão natural: “A verdade é que os angolanos, para desespero dos novos cruzados ocidentais, não se comovem com a corrupção”.

Nos contos “As raízes do mal” e “Uma estória edificante” deparamo-nos, mais uma vez, com atitudes de racismo. No primeiro, Carlos Tati, defensor das nações ancestrais e considerando que o único substrato de Angola devia ser o bantu, diz, arrogantemente:  “- Somos um país bantu e ponto final! O resto é conversa….” Aqui evidencia-se as dificuldades de identidade nacional em função da sua desejada unidade de culturas (no caso, a língua).

No outro conto, surge a mulata Margarida, filha de uma negra e de um português branco que foi dado como desaparecido. Ainda antes da independência, Margarida casara com um português e abandonou a mãe, por ser negra. Depois da independência, o marido morreu vítima de ação violenta. Margarida não pretendia recasar com um preto. Mas, viúva e com filhos, acabou por casar passados três meses, após algumas recusas, com um negro, o ministro Pedro Kalepete, para sua estabilidade. A mulata mudou radicalmente o seu estilo de vida, afeiçoando-se à sua nova condição social e, provando que o racismo tem causas intrínsecas na psicologia do indivíduo em relação sociológica ao meio e à sua condição social, “agora, odiava os brancos com a mesma veemência com que, durante toda a sua existência anterior, havia odiado os pretos”.