A eutanásia e o testemunho de duas vencedoras: a minha mãe e a Angelina

Começo por pedir aos meus queridos leitores e leitoras que não extraiam desta minha crônica qualquer tendência mórbida da minha parte. Faço descrições patológicas pormenorizadas com o objetivo de contribuir para uma reflexão mais profunda sobre uma proposta de lei que, brevemente, será debatida e votada em Portugal.

 

Corria o ano de outubro de 2016… 

A minha mãe… Ai, a minha mãe, naquele ano, em abril!… Os olhos azuis, tão luzentes, apagaram-se para sempre. Eu, fragilizado, emagrecia. Mal comia. Desfaleci quatro vezes nesse ano. No posto de trabalho havia quem me levasse o lanche para não desfalecer. Emagrecia e chorava muito. Muito! Mesmo na rua. O choro estava a tornar-se compulsivo. Lembro-me de andar sozinho pelas ruas da cidade do Porto, norte de Portugal, num dia muito quente de agosto daquele ano, e, a certa altura, ter disparado a chorar, tão convulsivamente, na paragem do ônibus, ali em público… Lembrava-me da mãe. Ai, a minha mãe morta! Em abril, a minha mãe partiu… Chorava não só a morte, mas o sofrimento horrendo que teve até ao último suspiro. Que imagem! Que quadro, meu Deus! Sentia, de facto, a ausência física da minha querida progenitora, mas também das condições sub-humanas da condição humana que teve nos últimos 10 anos. Porém, lembrava também da mais bela declaração de amor que alguém pode proferir e ouvir:  “ – Meu filho, sofro muito, mas gosto muito de viver, porque tenho o amor, cá em casa”. Valeram-me – aliás, ainda me valem – os amigos, como, por exemplo, o bondoso António, que me trata por “meu irmão”. Os amigos como irmãos de sangue! Os humanos que não cobram, porque o amor ao próximo não tem preço. 

E chegou outubro… Outubro daquele ano. A amiga de todos os dias, mesmo à distância… Da margem sul do Tejo, em Portugal. A minha amiga-irmã, mais velha do que eu um ano… Raramente me tratava por nome próprio, chamava-me “Meu anjo”. Certo dia, como quase todos os dias, a minha amiga telefonou “–  Sabes, meu anjo? Tenho um tumor (câncer) no estômago”. Fiquei frio, sem palavras, a minha respiração parou por uns segundos. Dias a seguir, fez a ressonância magnética e confirmou-se o estado avançado da malignidade. A minha amiga, que tanto me apoiava psicologicamente e em várias burocracias… Militava no Partido Socialista (PS) com grande empenho, herdeira das causas do pai, um preso político do tempo da ditadura do Estado Novo. Muitas vezes a minha amiga pedia-me aconselhamento político e reconhecia a minha sinceridade nas respostas.

Ai, a minha amiga adoecera! Tão dinâmica, tão resoluta, que em muitos aspetos me lembrava a minha mãe e me incentivava a acreditar que a vida é uma luta até ao fim, exatamente como a minha progenitora me ensinara. A minha amiga, tão crente nos seus ideias políticos, logo que me deu conhecimento da sua patologia, disparou muito afirmativamente: “A doença não é a minha última luta. Tenho tantos projetos à minha frente!” Porém, seguiram-se 16 meses de sofrimento. Outro martírio! Uma intervenção cirúrgica e muitas sessões de quimioterapia. O sofrimento era muito, na dor física e a angústia. O organismo definhava, mas a fé em se salvar era heroicamente maior e coincidia com a luz do seu sorriso – tal como a luz de Lisboa. Nunca acreditou que o câncer seria o seu fim. Participava em tudo que fosse intervenção política partidária (reuniões, plenários, comícios, etc.), de noite e dia, por vezes ao frio. Foi eleita nas eleições municipais de 2017 da sua zona. Avisei-a dos perigos em relação à saúde. Respondia-me: “Meu anjo, acredito muito que vou sair desta…”. 

Certo dia, a minha amiga informou-me: “Olha, escrevi um artigo de opinião, peço-te que me dês uma opinião e, se preciso, a revisão de estilo. Pretendo-o publicar quando for apresentada a proposta de lei sobre a eutanásia”. Recebi o artigo por mail… Foi em março de 2017. Nele, a linhas tantas, refere: “Sou contra a despenalização ou liberalização daquilo a que, com um certo eufemismo, chamam morte assistida, tal como sou contra o prolongamento da vida por meios artificiais (distanásia). Não se trata de uma questão religiosa, porque há não-crentes que são contra. Ser contra não significa ser de direita e ser a favor não representa ser de esquerda. Trata-se, isso sim, de responsabilização ou não do Estado quanto aos encargos com a saúde dos portugueses, principalmente na aposta dos tratamentos paliativos ao alcance das instituições de saúde. Lembram-se de, há anos, a antiga ministra Manuela Ferreira Leite ter afirmado que o Serviço Nacional de Saúde  em Portugal não devia garantir a hemodiálise aos cidadãos com idade a partir dos 70 anos? É a banalização da morte.” – sublinhava a minha amiga, nesse artigo.

No próximo dia 20, a Assembleia da República, em Portugal, vai apreciar e votar nova proposta de despenalização da chamada “morte assistida”, depois de ter sido rejeitada em maio de 2018. Recorde-se que o Partido Comunista Português (PCP) votou contra e Rui Rio, líder do Partido Social Democrata (PSD), mais à direita do que o atual governo, deu liberdade de voto aos seus deputados e manifestou-se a favor. Estes dados conferem que a minha amiga tinha razão: o ser a favor ou contra não define em concreto a cor partidária dos cidadãos.

Poderá parecer uma atitude de covardia da minha parte, mas não aceito debater publicamente este assunto, que tem muito que ver com a nossa vida e com a nossa morte. Já não tenho paciência. Um dos grandes defeitos dos políticos e da comunicação social em Portugal é não debater os assuntos com profundidade. Tudo é facilmente falado, tudo é tratado pela rama. As ideias feitas, as respostas frias e automáticas como a do vendedor de livros, conferem uma espécie de euforia clubística, o folclorismo que mata o debate. Não imponho ideias a ninguém, também não quero que mas imponham. Como dizia o meu querido amigo jornalista e  escritor português Manuel António Pina, “já não quero mudar a sociedade, só quero que a sociedade não me mude, a mim”,

Por isso, não discuto, penso e – já agora – emito aqui, publicamente, o meu testamento vital: se, um dia, me encontrarem no ocaso da vida, no pôr do sol da minha existência, seja em que situação clínica eu estiver, não acelerem a minha finitude! Prefiro que se reúnam todos à volta do meu leito e cantem, doce uníssono,  a “Canção de Embalar”, do cantor português José Afonso, que a minha mãe virá e me embalará nos seus braços, de regresso ao Infinito.

A minha amiga tinha, de facto, o artigo de opinião para ser publicado em maio de 2018, altura em que foi apresentada a primeira  proposta de lei de despenalização (ou liberalização) da eutanásia. Não foi a tempo… Faleceu, vítima da doença, a 11 de fevereiro, no Hospital Garcia de Orta, em Almada, mesmo do outro lado do Cristo-Rei. Três dias antes, enviara-me a seguinte mensagem, a afirmação de sempre: “Meu anjo, acredito muito que vou sair desta…”. 

O anjo era a minha amiga, tanto em pessoa como no nome: Angelina.

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