A mulher do secador invisível

Hoje, 8 de março, celebra-se o Dia Internacional da Mulher. A efeméride foi oficializada pela ONU em 1975, reconhecendo, assim, as múltiplas comemorações realizadas desde as primeiras décadas do século XX, indo ao encontro de uma luta que vem do século XIX, o século no qual emergiram todos os propósitos de transformação do mundo, que tem sido imparável. Porém, a causa dos direitos da mulher está ainda por concretizar na sua plenitude.

Em 2014 e 2015, em Portugal, fui um dos promotores de eventos culturais comemorativos do Dia da Mulher. O evento do segundo ano, denominado II Exposição de Artes Plásticas Mulheres – Escravas e Deusas, prolongou-se por quase um ano, tendo tido lugar em várias cidades do país. Neste participaram  34 mulheres artistas portuguesas. Na altura, escrevi um texto em prosa poética, intitulado A mulher do secador invisível, no qual conto uma história verídica de amor e morte, em que a paixão suaviza a evidência da finitude da sua existência, uma vez que teve a felicidade de encontrar o amor autêntico no curto tempo que lhe restou. Finalmente encontrou alguém que não a desejou como objeto!

Não devemos temer a morte. Devemos ter medo, sim, de não sermos amados.

Tenham todos um bom Dia Internacional da Mulher!

 

A mulher do secador invisível

Olho para dentro de mim

E nada morreu no meu ser,

Mas vejo-me só ao espelho

E sinto que algo se perdeu.

E, neste conflito de ângulos

Entre o ser e o não-ser nada,

Sou ainda muito mais do que tudo –

Do tudo que antes havia.

 

Não consigo despentear os cabelos,

Porque, agora, já não os tenho.

Roubaram-me a paciência diária

De morar no espelho das manhãs

E ondear, em castelos e fundos vales,

O couro cabeludo, onde jaz minha alegria.

 

Avisaram-me disto…

E, depois, o meu cabelo caiu.

Nem sequer rolou pelo chão

Da sala do cabeleireiro

E não precisaram de o varrer

E de o deitar no caixote do lixo.

 

O meu cabelo!… Ai o meu cabelo,

Que era, para mim,

Um raio de sol

Em todas as festividades!

 

Mas, um dia, avisaram-me…

E o cabelo desapareceu.

 

Qualquer doença crônica

É uma bomba atômica

Na vida do ser humano.

 

O meu cabelo voltará –

Creio eu! – na ressurreição do ser.

Virá, não com a mesma dimensão

Das festividades e dos densos carnavais,

Porque, na verdade, o meu cabelo não era meu:

Era um assombro do não-ser.

Impressionava!?… Sim, é verdade,

E impunha os seus conceitos de beleza

E tiranizava a simplicidade dos fenos

Mais dourados, mais brilhantes e naturais,

Que até o raio de sol me amorenava as paisagens

Com ar superlativo, de soberba

E veneração estupenda.

Porque eu não era eu,

Eu e o meu corpo,

E o meu corpo era os outros

E os outros eram eles.

 

Mas nada é eterno e convulso.

 

Agora, o meu cabelo cresce,

Cresce lentamente,

Como cresce em espírito o meu olhar

De sapiência clara e com as mãos

A fazerem de pentes, escovas, lacas e secadores –

Um secador invisível.

 

Tratá-lo-ei, o meu cabelo,

Conforme os dias da minha ressurreição,

Que ocorreu, aqui e agora,

Sem espelhos para o mundo

E me tornou igual e evidente aos astros,

Que saltitam naturalmente

Pelo universo.

 

Haja o que houver, o meu cabelo não morrerá!

Tornar-me-ei a mulher mais elegante de mim mesma!

As minhas mãos testemunham isso.

Olhem as carícias dos dedos!

A palma que os afaga, numa leve carícia,

Quando os lavo com os aromas campestres

E os passeio pela cidade grande…

 

Um rapaz olhou para mim, ai meu Deus!!!…

E antes eu recusava olhares sorridentes.

Aproximei-me dele e o rapaz disse-me:

‐ Conhecia-a de algum lado.

“Conhecia-a!?…” Fiquei a pensar ainda mais:

Por que não disse:  “Conheço-a de algum lado?”

Mas o jovem falou novamente:

‐ Acho-a tão natural!…

E, na despedida, deu-me um beijo na face,

Algo que antes eu não admitia a certas pessoas,

Um beijo que fosse, em festas principalmente.

 

E, agora, o cabelo voltou.

E o cabelo cresce. E não corto o cabelo.

Está grande e louro.

Enrola-se e desenrola-se

Ao sabor dos eternos abraços.

O meu cabelo esvoaça pelo mundo fora

E eu penteio-o com os dedos das minhas mãos

E, por vezes, penteamo-nos um ao outro

Com a maior naturalidade do mundo.

 

Agora, o meu cabelo é meu,

Porque é eterno, é sereno.

É livre como estas mãos

Que sustentam os braços

Dos abraços de quem me abraça,

No segmento mais belo do mundo

Que me trouxe a felicidade:

O Amor.

 

José Carlos Pereira

Ano de 2015

@ Poema com direitos registados na IGAC (Portugal)

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