Eleições 2020 no tempo do coronavírus: o que vai acontecer?

A resposta honesta e direta é: não sabemos.

Mas o melhor complemento pra essa resposta é dizer que, nesse momento, é precipitado e perigoso tomar uma decisão pública que suspenda ou cancele as eleições.

Estamos lidando com uma pandemia agressiva, ainda imprevisível. No universo das coisas que planejamos para 2020 e que simplesmente não sabemos mais como serão, a eleição é uma delas.

Mas, vejam só.

Uma coisa é não haver eleição porque em algum ponto isso não faça mais parte de uma nova realidade distópica – o fim de um mundo tal como conhecemos, ainda que possa ser reconstruído. Se isso ocorrer, não é só a eleição que será afetada. Vamos precisar de novos arranjos, possíveis regras transitórias, para saber como passaremos do pós-covid a uma nova normalidade.

Outra coisa é, agora, movidos por ansiedade, temor e pânico, tomar medidas jurídicas que possam legitimar rupturas democráticas. Nesse balaio, se amontoam ideias como cancelar as eleições, prorrogar mandatos, criar mandato-tampão e unificar as eleições em 2022. São propostas de efeitos severos e que, uma vez tomadas, não terão volta.

Precisamos ter clareza, em meio aos estados emocionais e psíquicos em que a pandemia e a incerteza nos colocam, que defender a institucionalidade é essencial pra termos um “depois”.

É simbólico? É. Mas é o simbólico a dimensão que permite à civilização existir como tal. Temos a capacidade não apenas de pensar e descrever ideias que não existem, mas também de dar a algumas delas a força de comandar nosso agir.

Infelizmente, estamos sendo habituados ao esfacelamento do simbólico. Em especial, pela exposição a uma onda mitomaníaca que se escarnece das instituições. A própria presidência (símbolo) deixou de ter seu significado respeitado pelo atual presidente, que fala e age inconsequentemente (real) de modo impune. Corremos um risco enorme de desagregação.

Estamos estressados, exaustos. Mas não dá para largar mão da defesa das instituições. Ainda mais se for pra colocar energia em aprovar medidas excepcionais para criar fatos consumados depois. Estado de emergência, prorrogação de mandato, unificação de eleição – tudo isso é mover o simbólico em favor de desmantelamento democrático.

Precisamos defender o processo eleitoral como instituição. O que não significa fechar os olhos para os problemas reais. Ao contrário. Está diante de nós o trabalho árduo de equacionar o dia a dia priorizando vida e saúde enquanto tentamos minimizar nossas perdas simbólicas.

É custoso. Mas nada agora será de outro jeito.

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