Quarentena: o que ela tem a ver com privilégio?

Eu mal acreditei quando vi gente indignada por quarentena ser chamada de privilégio. Em posts absolutamente autocentrados, narcísicos, os indignados descreviam seus perrengues e caminhavam pra dizer, de um modo ou de outro: “se outros não podem parar, a culpa não é minha”.

Acontece que isso é bem a essência do privilégio: estar em uma situação que te permite fazer algo que não está à disposição de muito mais gente.

Mas a pessoa simplesmente compara sua vida anterior, de balada, jantar, viagem e mesmo trabalho confortável com essa vida distópica de restrições. E, com olho fixo no umbigo, interpreta isso como não ter privilégio.

Da segurança de um lar confortável, essa pessoa quer saber é se o delivery funciona, se a farmácia tem álcool gel, se a faxineira vem, se vai ter supermercado e posto funcionando. Mas todos aqueles que vão ter que seguir mantendo essas atividades, ela não enxerga.

São invisíveis também os lixeiros, os empregados de fornecedoras de luz, tv a cabo, internet, água. E são completamente esquecíveis aqueles prestadores de serviço que ela a-ma(-va): personal, cabeleireiro, manicure, jardineiro, massagista, o que mais vier.

Ocupada que está em não cair no tédio e no desespero, a pessoa já baixou os vídeos que a academia disponibilizou pra malhar em casa, faz meditação e acompanha coaches e afins com vídeos sobre serenidade e bem-estar. Tá certo, cada um precisa criar seus rituais e manter a moral alta pra não enlouquecer. Precisamos todos. Mas, repare: precisamos TODOS.

Eu confesso que, antes de ser modinha de pandemia, já me espantava o rumo da alienação que a noção de bem-estar ganhou na nossa vida. Um bem de consumo, que, voltando ao que eu disse no início, permite a quem dele usufrui dizer “eu não tenho culpa se outros não podem”.

Bem, talvez não tenhamos culpa. Mas temos responsabilidade por estar nesse mundo ocupando esse espaço privilegiado. Espaço mantido por outros, que dele não podem usufruir. Há um componente horrendo nessa terceirização dos riscos, que é assumirmos, implicitamente, que há vidas mais importantes que outras e que tudo bem que esse escalonamento se faça por critérios socio-econômicos.

“Ah, não temos culpa”. Ok, mas quem sabe podemos buscar ter o máximo de decência possível?

Se você converter tudo a seu redor em cifrões, quanto custa estar em casa, com condições de higiene, abastecimento e segurança adequadas para sobreviver ao vírus e à loucura? Direitos fundamentais, que deviam ser usufruídos por todos, na realidade custam dinheiro.

Sendo assim, que tal se conectar com o temor dos invisíveis, que, além do medo e da angústia que todos estamos partilhando, têm ainda que se expor a mais risco pra poder fazer dinheiro? Quem sabe sentir o desespero dos esquecidos, que, por conta de medidas sanitárias, sequer podem “optar” pelo risco?

No final das contas, tudo tem a ver com fazer dinheiro. Estruturamos quase todas as nossas relações em cadeias de consumo. É, como espero que enfim seja percebido, um erro atroz. É pra evitarco pior que temos gritado contra o desmonte de direitos e do Estado, contra a falácia da meritocracia, contra a seita do empreendedorismo ser vendida a massas economica e socialmente vulneráveis.

Mas esta é hoje a realidade posta: até aqui cumprimos um papel na vida das pessoas que dependem de nós pra ter serviço. Agora, forçados que fomos a reduzir ou interromper o consumo, o risco é que a deixemos ainda mais desamparadas.

A necropolítica, claro, já deu suas caras. Medida provisória foi publicada para permitir que uma das maiores excrescências da legislação trabalhista seja usada indiscriminadamente: a suspensão do contrato de trabalho por 4 meses, a pretexto de realizar “cursos de capacitação”, sem salário, com uma compensação financeira que, na romântica visão do governo, seria negociada “livremente” entre o patrão e o empregado. Sim, livre, quem não gostar pode pedir demissão e virar empreendedor, né não? Como é aquela balela sobre crise ser oportunidade?

O ponto a que quero chegar aqui é o seguinte: e nós, a turma da quarentena privilegiada?

Vamos também endossar a necro política com a desculpa de que tá difícil pra todo mundo? Vamos meditar no tapetinho e postar o diário da quarentena enquanto esperamos o ifood? Vamos compartilhar vídeos motivacionais com o cabeleireiro?

Ou vamos assumir que, assim como o vírus, os cifrões contaminam tudo ao nosso redor?

Esse desabafo longo – e se você leu até aqui é porque o tema te interessa – é pra pedir pra dedicarmos um tempo a planejar como podemos ser solidários nesse momento. Colocar no papel uma lista com todas as pessoas que nos prestam serviços e avaliar, dentro das nossas possibilidades, o que podemos pagar a elas nesse momento. Entrar em contato, avisar quanto vamos pagar, com qual frequência. Qual a nossa expectativa de poder seguir fazendo isso. Pra que tentemos, na medida do nosso possível, diminuir a angústia dessas pessoas.

É claro que essa é uma sugestão pra “quem pode”. Foi assim que o texto começou, certo? Falando de “quem pode”.

Mas é ocasião de ser sincero consigo mesmo sobre o quanto você pode. Ajudar alguém financeiramente é abrir mão de dinheiro que você usaria pra você, isso sempre será.

Mas vivemos em um mundo em que dinheiro é afeto. Os tempos estão assustadores, o afeto precisa circular. Lembrar a essas pessoas que você se importa, transferir o pouco que seja de dinheiro pra elas, acredite, vai te fazer um bem enorme.

Sejamos humanos decentes, por favor.

[nota: como tem sido praxe no atual governo o fazer e desfazer, usando a sociedade como tubo de ensaio pra ver até onde o neoliberalismo pode forçar a barra, a suspensão de contratos sem salário, ao menos por agora, parece ter sido suspensa. Digo “parece” porque o comunicado vem do twitter presidencial, com a curiosa utilização do verbo “determinei”, como se antes, ao assinar a medida provisória, não fosse ele a “determinar”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here