POR QUE AS NAÇÕES NÃO VÃO FRACASSAR

O que está em questão agora não é mais de onde poderá vir o próximo atentado terrorista e sim o que pode barrar a ascensão da COVID-19 e da morte que a acompanha. Estas são as perguntas que unem a todos.

Não resta dúvida de que nos meandros da anterior ordem global, que vigorou até pouco antes da pandemia, reinava soberana uma onda de mal-estar – um “mundo Prozac”, aborrecido, repetitivo, vulgar e superficial.

De predadores de nós mesmos, nos tornamos soldados de um exército só. O da vida e pela vida. E não apenas da minha/nossa vida, mas a de todos, a dos “outros” – onde quer que estejam – em qualquer ponto do planeta.

Com o fim da Guerra Fria pensou-se que o mundo ficaria melhor e mais seguro. Parecia que tinha chegado a hora de transcender fés e raças, e o futuro se abriria para todos independentemente de seus grupos culturais.

Mas, não era verdade.

A década de 1990 não foi o marco final de mais de 4 mil anos de guerras e conflitos. Irã, Afeganistão, Paquistão, Jordânia, Síria, Líbano e Iraque, dentre outros, tornaram-se lugares perigosos demais para se viver e visitar. Os Tigres Tâmeis, no Sri Lanka, e o Boko Haram, na Nigéria, deram início a guerras culturais deixando um mar de sangue sob etnias inteiras. Conflitos desse tipo, com o objetivo de eliminar religiões rivais, grupos étnicos, idiomas, raças, culturas, castas e tribos instalaram-se também na Caxemira, Bósnia, Kosovo, Ucrânia, Moçambique, Mali, Eritréia, Sudão, Costa do Marfim, Iêmen, Mianmar, Geórgia, Chechênia, Indonésia, Filipinas, Tailândia, Índia, Azerbaijão e China – só para citar alguns países. Os conflitos humanos do Pós-Guerra Fria substituíram as guerras militares entre estados-nações e já fizeram mais vítimas do que a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais juntas.

Portanto, a idolatria à globalização levou a uma enorme frustração.

Ela dividiu o mundo em grupos culturais concorrentes que disputam por recursos, orgulho, fé, espaço, assim como por petróleo e água. E quanto mais o tempo passa, mais a globalização é incapaz de trazer soluções ou apontar alternativas aos excessos russos, aos ataques do Islã xiita e do Exército Islâmico, das investidas chinesas pelo controle das vias marítimas, e do Oriente Médio pela chamada Rota da Seda, dentre inúmeros outros problemas graves. Segundo dados da ONU, existem hoje cerca 70,8 milhões de refugiados no mundo e as convenções internacionais de proteção dos direitos humanos são incapazes de defender e proteger as pessoas de maneira eficaz.

Foi preciso o atentado ao Charlie Hebdo, em Paris, e os demais que se sucederam, para que as pessoas se dessem conta de que ainda há gente que acredita que é preciso matar os outros para tornar o mundo mais puro e seguro, e de que é chegado o momento de uma revolução religiosa, por meio do extremismo violento, para que Deus (seja ele lá qual for) possa chegar mais perto.

Todos querem ter um Deus em suas vidas, mas não precisa ser o mesmo. Por um certo Deus, qualquer que seja, jovens deixam suas famílias para se converterem em máquinas de matar. E eles não estão apenas no Iraque ou no Iêmen. Deixam suas casas seguras em Bruxelas, Haia, Nova Iorque, Roma, Paris e partem em busca de alternativas para preencher seus vazios existenciais; e Deus nada tem a ver com isso, mas estão convencidos do contrário. Os extremistas oferecem ao jovem o que a família, a comunidade e a escola não conseguem. Isto é, a sensação de pertencimento, acolhimento, uma válvula de escape para a aventura, uma visão melhor de si próprios, uma perspectiva (idealizada) de futuro. Se não há trabalho, e poucas são as expectativas de um sonhado amanhã, é porque o mundo (o Ocidente) não os ama, e talvez nunca os tenha amado. O preço do “acolhimento fanático” é, por conseguinte, a (sua) morte e aquela das suas vítimas potenciais.

Trata-se de equação simples: de gangues de jovens em busca de ação e reação, isto é, de afeto, à mobilização terrorista. E Deus? Onde entra nessa história?

O mundo muçulmano, no qual os terroristas se abrigam, é formado por sociedades onde há pouca liberdade de pensamento, nenhuma ou quase zero liberdade política, muita corrupção e repressão. Perfeito caldo de cultura para a violência e a crueldade.

É O FIM DA HISTÓRIA?

O cenário descrito até aqui parece bastante assustador, e a culpa era sempre do “outro”. Não apenas do “outro” estranho, vizinho, estrangeiro, adversário, como também do “outro” em mim, na medida em que o processo civilizatório nos fez abdicar da violência, enquanto ela nunca abdica de nós.

Se tudo isso parecia pouco em uma atmosfera global permeada de sentimentos de medo e paranoia, um novo predador apareceu, dessa vez, invisível, e mais prepotente que os “outros”, haja vista que atinge o planeta todo, sem distinção de localização geográfica, raça, credo, sexo, posição social, e fabrica uma pandemia, provavelmente, sem precedentes.

Uma tal pandemia que atinge a aldeia global e exige uma resposta igualmente global. Pouco importa se a COVID-19 é resultado da degradação ambiental, da caça ilegal, do comércio de animais silvestres, da queima das florestas, da hiper-globalização das adições e do consumo, dos anteriores períodos epidemiológicos passivos e ativos pelos quais o planeta já passou, como, por exemplo, para ficar apenas nos mais recentes, o Ebola, a Sars, a Mers.

O que está em questão agora não é mais de onde poderá vir o próximo atentado terrorista e sim o que pode barrar a ascensão da COVID-19 e da morte que a acompanha. Estas são as perguntas que unem a todos.

Não resta dúvida de que nos meandros da anterior ordem global, que vigorou até pouco antes da pandemia, reinava soberana uma onda de mal-estar – um “mundo Prozac”, aborrecido, repetitivo, vulgar e superficial.

De predadores de nós mesmos, nos tornamos soldados de um exército só. O da vida e pela vida. E não apenas da minha/nossa vida, mas a de todos, a dos “outros” – onde quer que estejam – em qualquer ponto do planeta.

Ainda é cedo para tirarmos lições da epidemia do novo, e talvez mais nefasto, dos coronavírus. Porém, uma conclusão já é certa: aproxima-se uma “Nova Ordem Civilizatória e Cultural”, associada e impulsionada por uma “Nova Onda Iluminista”. “Civilizatória e Cultural” no sentido antropológico, como o conjunto de realizações e transformações materiais e intelectuais nos costumes, nas crenças, no uso da técnica e, especialmente, nos padrões de comportamento, na condução de relações afetivas e no enfrentamento dos desafetos.

Tratar-se-ia de excesso de otimismo? De visão “naïf” de um mundo fadado a presenciar  o fracasso das suas nações, como escrutinado por Daron Acemoglu & James Robinson, professores de economia do MIT e da Universidade de Harvard, respectivamente[1]?

Como sustentar tal diagnóstico frente a análise tão bem conduzida pelo historiador  Francis Fukuyama[2], em seu livro intitulado o “Fim da História”?

Podemos ousar discordar, sim.

As nações e o mundo não vão fracassar. Nem, muito menos, estamos no fim da história.

Pelo contrário. A tempestade vai passar. E, então, estaremos todos lá, em terras firmes, unidos, em nossa melhor performance humana. Os mesmos, mas em forma diferente, qual seja,  a do “homem do futuro”, do qual só tínhamos notícias até agora pelas lentes iluminadas de F. Nietzsche[3].

 

[1] Na festada obra: “Por que as Nações Fracassam” (Rio de Janeiro, Ed. Elsevier, 2012).

[2] In “The End of History and the Last Man” (Editorial: Harper Perennial, 1993).

[3] In “Humano, Demasiado Humano – Um Livro Para Espíritos Livre” (Ed Companhia de Bolso).

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