O quereres: da criança que que vê aos marmanjos sem razão

Nessas semanas de isolamento, convivendo diariamente com meu enteado que está pra fazer 5 anos, um dos grandes desafios é que ele compreenda que estamos passando por algo que nos tirou um monte de “quereres”.

Ele, uma criança dessa idade, vai aos pouquinhos entendendo que tem coisas maiores que a vontade dele, que tampouco dependem do papai deixar ou proibir.

Ando impressionada com a forma como ele está lidando com isso, sabendo que não pode sair, ir pra escola, passear, visitar os avós e a tia Momô; que assim que chega da casa da mamãe é banho direto porque tem que tirar o bichinho; que papai e Robs trabalham agora em casa, precisam cozinhar e arrumar tudo, e ele tem que ficar muito tempo brincando sozinho.

Tem horas, claro, que ele não aguenta de tédio, de frustração, de raiva, de saudade das coisas que não pode fazer. O tempo fecha. Tem momentos bem difíceis.

Mas nem nessas horas, nem nelas, meu enteado de quase 5 anos quer sair correndo pra rua, ou acha que se gritar loucamente contra o papai o bichinho vai sumir e tudo vai voltar a ser como era. Ele chora no quarto, depois quer abraço. Sabe que os adultos estão cuidando dele, apesar de ter que ser assim.

Ele às vezes diz “quando essa doença acabar, ….” e diz algo que quer fazer. Sim, ele sabe que tem uma doença, e que nossa parte é sobreviver a ela.

Hoje passamos o dia ouvindo buzinaço na Paulista. Adultos birrentos, barulhentos, negacionistas, extasiados na fantasia deliroide de que tudo o que precisam é vencer a briga com pessoas más que proibiram seus quereres.

Adultos que se recusam a elaborar raiva e frustração. Só sabem seguir o que seus egos demandam de imediato.

Estúpidos, acham que se caírem restrições ao comércio, tudo voltará a ser como antes. Criminosos, exigem que pessoas se coloquem em risco pra que possam viver sua ilusão de que nada mudou.

Irracionais, absolutamente irracionais.

Fico de cá perplexa, enquanto acompanho uma criança de menos de 5 anos lidar com a realidade melhor do que marmanjos em seus carrões. O que é que pode contra esse grau de estupidez genocida?

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