A Responsabilidade Social Corporativa na pandemia da Covid-19: um novo mundo dos negócios é possível?

*Por Joelson Dias e Lorrane Calado Mendes

Com a pandemia da Covid-19 (Sars-Cov-2), a sociedade tem sido obrigada a se adaptar e, sem dúvidas, a se reinventar. É certo que todos foram afetados pelas circunstâncias atuais, o que não foi diferente com o setor empresarial, que também carrega grande responsabilidade social, e necessita de muita atenção quando o assunto é: o que está por vir?

Em diversas campanhas e ações de empresas nesses tempos de pandemia, muito se tem ouvido falar de Responsabilidade Social Corporativa (RSC) – entendida como a responsabilidade de uma organização pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente, por meio de um comportamento ético e transparente[1]. Sabemos que o objetivo da empresa socialmente responsável é, ou deveria ser, como os demais atores sociais, também colaborar na transformação do mundo em um lugar melhor, por meio de sua atuação e do exemplo de suas ações, sem prejuízo de sua manutenção no mercado de forma lucrativa e segura.

Antes do contágio desenfreado da Covid-19, a Forbes havia divulgado cinco tendências a serem seguidas em RSC em 2020. Interessante analisar que, mesmo sem o cenário de iminente ameaça mundial, já emergia como diretriz a valorização do funcionário como voz ativa na organização, a partir da exigência de envolvimento dos líderes corporativos com a comunidade[2]. Observa-se, aqui, a crescente necessidade de atitudes voltadas para o reconhecimento do indivíduo como integrante da corporação, e não apenas seu subordinado, inclusive participante dos processos decisórios, independentemente de seu nível hierárquico.

Em verdade, ser socialmente responsável posiciona a organização em um patamar de notoriedade, principalmente entre os consumidores mais jovens e mais exigentes com a sustentabilidade nos negócios. Contudo, a efetividade e eficácia do conceito não haviam sido colocadas à prova na escala hoje exigida. Surpreendidos, dirigentes estão enfrentando enorme cobrança por ações que respondam à altura a crise, respeitando o porte e a capacidade de suas empresas.

É possível reconhecer, com facilidade, ações que insistem na RSC dissimulada. Algumas corporações enxergam na crise a oportunidade apenas de investimento estratégico na imagem, que gere atenção positiva. Um ótimo exemplo recai sobre conhecida rede de fast food, criticada por campanha de marketing relacionada com o isolamento social no Brasil[3].

Na ocasião, a empresa foi cobrada sobre ações efetivas no trato dos seus próprios funcionários, o que fez com que a campanha fosse inclusive descontinuada. A gigante do fast food em questão é constantemente cobrada em solo norte americano pelo fato, por exemplo, de não conceder licença médica aos seus colaboradores[4], o que pode ser uma questão de sobrevivência em tempos atuais.

O exemplo citado evidencia o que há muito ocorre com várias empresas: ações aparentemente de RSC mas apenas para promoção de imagem, sem corresponder às necessidades e expectativas dos seus próprios colaboradores, de sua clientela ou da sociedade. Especialmente em período de crise como o atual, apenas boa intenção não é mais suficiente.

Diante desse cenário, serão mais valorizadas as empresas que compreenderem o que, de fato, é ser socialmente responsável, com atitudes aclamadas pelos consumidores em geral ou, até mesmo, ações pouco divulgadas, mas que causam grande impacto na sociedade. São numerosos os casos de empresas comprometidas com o enfrentamento responsável da crise. Simples pesquisa revela contribuições notáveis por empresas de diversos setores – mediante doação de recursos financeiros, disponibilização de produtos de saúde e higiene ou até investimento em iniciativas científicas de combate ao vírus.

Os consumidores exigem o prometido retorno social, o que certamente impactará na confiança futura na marca da empresa pós Covid-19. O esperado é que, finalmente, vivenciaremos a fase da verdadeira responsabilidade social nos negócios, considerando que também o mundo antes conhecido será outro. Estamos prestes a conceber o próximo normal.

A crise do novo coronavírus não poderá ser superada em lugar nenhum, se não for vencida em todos os lugares. Diante disso, as empresas privadas também possuem papel fundamental no enfrentamento dessa grave crise de saúde que assola o mundo. Afinal, geram grande parte dos empregos, bem como a produção de bens e serviços essenciais à população. Em outras palavras, a atividade das empresas é primordial para a garantia de direitos básicos, como os postulados nos artigos 5º e 6º da Constituição da República[5].

Contudo, não se pode menosprezar o grave abalo econômico que assombra o setor empresarial, e que, eventualmente, há de perdurar até a descoberta da vacina contra a Covid-19. Decerto, empresas privadas possuem grandes responsabilidades, mas não têm capacidade de, singularmente, realizarem os esforços necessários para o retorno seguro da atividade econômica. Nesse sentido, será importante a atuação também dos bancos e, claro, suas respectivas ações inclusive em RSC.

Internacionalmente, o Federal Reserve dos Estados Unidos da América e os bancos centrais dos países do Golfo já determinaram a redução das taxas de juros para o enfrentamento da crise. Na mesma linha, a China aprovou o equivalente a aproximadamente US $ 71 bilhões para empréstimos mais baratos a empresas menores que tentam retomar as operações.[6] No Brasil, o Banco Central almeja que os bancos ofereçam mais serviços para irrigar a economia, como empréstimos e financiamentos[7].

Os bancos reagiram rapidamente à pandemia, manifestando apoio ao isolamento social com campanhas públicas e medidas especiais de atendimento, além de forte agenda de doações[8]. No que concerne a micro e pequenas empresas, os maiores bancos anunciaram carência de até 60 dias para o pagamento de dívidas. Ademais, diversas outras medidas, como aumento de crédito e diminuição de tarifas, também foram divulgadas pelas instituições bancárias[9].

Contudo, alguns consumidores enfrentam dificuldades para usufruir dos benefícios anunciados. Diferentemente do que tem sido anunciado, alguns bancos estariam dificultando a liberação de crédito, aumentando juros, reduzindo prazos de pagamento para dívidas novas e elevando as taxas de empréstimos, que, muitas das vezes, principalmente em períodos de crise, são a única alternativa para a manutenção de negócios e pagamento de colaboradores[10].

Para se adequarem à nova realidade, também os bancos deverão realizar as suas ações de responsabilidade social em consonância com as necessidades dos consumidores. Sem medidas efetivas, transparentes e em harmonia com o que anunciam, de nada vale a propaganda.

O grande impacto das medidas destacadas evidencia que o mercado financeiro, enquanto componente do cotidiano social, também deve valorizar a lógica da RSC. Por meio de ações que, concretamente, levem em conta as expectativas e necessidades da sociedade, é possível angariar empatia, especialmente em um momento em que se espera solidariedade também nas relações comerciais.

A pandemia acentuou a importância do coletivo e da interconexão entre os diferentes atores sociais. O que reforça, ainda mais, a consciência global voltada para o cuidado com a pessoa e o ambiente e, aos poucos, desmistifica a ideia do lucro a qualquer custo. Mesmo que sempre existam aqueles que insistem no erro, estarão fadados a uma reputação negativa com consequências ainda mais graves no novo mundo corporativo pós-pandemia.

E, afinal, o que está por vir?

Ainda é cedo para afirmar que o mundo corporativo estará indubitavelmente imerso na verdadeira responsabilidade social corporativa, realizando ações que, começando pelos seus próprios colaboradores e clientela, valorizem, de fato, o ser humano, o meio ambiente e a sociedade. Apesar disso, é possível analisar tendências do que se espera das empresas daqui para a frente e como práticas que emergiram em um momento de reinvenção e adaptação influenciarão o futuro corporativo.

É válido o questionamento sobre o que vale a pena ser preservado ou construído. Para muitas empresas, os desafios do universo corporativo foram drasticamente expostos nos primeiros dias da pandemia, como descompasso na tomada de decisões, ausência de cooperação, comunicação difusa, recursos digitais defasados e, o mais importante, falta de empatia com o ser humano[11]. Tais obstáculos precisam ser mapeados, corrigidos e superados, para que a empresa possa se adaptar à nova realidade. Será fundamental aliar às mensagens comerciais de promoção da imagem da empresa ações concretas de enfretamento das desigualdades e injustiça social.

Qualquer que seja a sua acepção, o que entendemos como “normal” jamais será o mesmo. As empresas precisaram adaptar-se à realidade do home office e do isolamento social, o que permitiu reflexões e aprendizados que impactarão a forma como se concebem o ambiente físico e as atividades presenciais. Torna-se essencial o investimento em tecnologia e inovação, sem mais espaço para pensamentos resistentes ao mundo digital. As necessidades do funcionário trabalhando de casa precisarão ser antecipadas, os seus custos com a prestação dos serviços avaliados e tomadas todas as medidas preventivas para se evitar o esgotamento profissional e mesmo o assédio moral.

As ferramentas digitais de trabalho remoto conquistaram espaço na vida corporativa e demandaram investimentos e aprendizados. Em especial, as plataformas de comunicação mostraram-se essenciais na execução de reuniões virtuais e teleconferências. Quando vencida a pandemia, tais medidas terão se tornado hábito, se incorporado na rotina das empresas, de seus colaboradores e clientes, e exigirão uma série de adaptações à nova realidade, inclusive em proteção e segurança de dados.

Mesmo as empresas que continuaram funcionando ou voltarem a funcionar em ambiente de escritório físico, já tiveram ou terão que se adaptar, ajustando-se para a continuidade ou retorno seguro às atividades. O distanciamento de bancadas de trabalho, a disposição abundante de itens de higiene, o reforço na limpeza dos ambientes, o rodízio de escalas, o fornecimento de meios alternativos ao transporte público, e cuidados acentuados com a saúde do colaborador e de sua família são apenas alguns exemplos dessa necessária adaptação.

Contudo, a verdadeira mudança será nas relações entre sociedade e empresas. Conduta ética e relações comerciais justas deverão ser incorporadas na rotina e cultura das empresas, valorizando o indivíduo, o meio ambiente e a sociedade.

Também a comunicação será importante nesse mundo que emergirá. Mais do que nunca, será preciso entender os novos comportamentos da comunidade de fornecedores e padrões de consumo e necessidades imediatas dos colaboradores, possibilitando uma verdadeira conexão entre partes interessadas e comunidade. A crise, certamente, acelerou a constatação da inevitabilidade do investimento em comunicação.

Além do diálogo transparente, uma outra constante a que a sociedade estará atenta será o combate às fake news, isto é, às notícias falsas que levam à desinformação e popularização de boatos. No contexto pós-pandemia, a reprodução ou a falta de medidas concretas para evitar a reprodução de fake news será especialmente nociva também para as empresas.

Quanto à competitividade, as empresas precisarão desenvolver estratégias leais de concorrência, que atendam às expectativas da comunidade empresarial e dos consumidores. Será necessário dinamizar ou desenvolver produtos, serviços, mercados e/ou modelos de negócios que satisfaçam o novo padrão de consumo da sociedade[12].

Por fim, mas não menos importante, para o fortalecimento da cultura de responsabilidade social corporativa no mundo pós coronavírus, o respeito às garantias constitucionais e às regras democráticas é fundamental. O desenvolvimento e a proteção do mercado interno fazem parte do planejamento político do país, pois movimenta toda a cadeia de produção e consumo, o que garante empregos e desenvolvimento nacional[13].

Assim, os estados democráticos precisam investir no cuidado com o indivíduo e os grupos sociais vulneráveis, inseridos em uma sociedade que demanda respostas cada vez mais rápidas e efetivas às crises coletivas, como é o caso da atual pandemia. Além das crises econômica, social e de saúde, é preciso reconhecer que o mundo enfrenta também uma crise humanitária, em que o bem estar da própria humanidade está sob ameaça.

Da mesma forma que será necessário repensar em um cenário mais colaborativo para as relações sociais e comerciais no mundo pós Covid-19, a expectativa é de que se aproveite a oportunidade para impulsionar também a participação social democrática.  Muito interessa receber o retorno social de empresas, mas é importante que tais ações sejam resposta de participação social ativa, principalmente de segmentos sociais mais vulneráveis.

O momento que vivemos trouxe, e ainda trará, dificuldades severas para toda a sociedade. Podemos incorporar, ainda assim, mudanças positivas para a comunidade e para o mundo dos negócios. A reflexão sobre prioridades, valores, impacto e, mais importante, o legado que deixaremos com nossas ações podem servir de catalizadores para a consolidação da verdadeira responsabilidade social corporativa e de um novo mundo dos negócios.

É preciso, de uma vez por todas, aprender.

*Joelson Dias é advogado, sócio do escritório Barbosa e Dias Advogados Associados em Brasília. Mestre em Direito pela Universidade de Harvard e ex-ministro substituto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

*Lorrane Calado Mendes é internacionalista, atuante no Núcleo de Compliance e Responsabilidade Social Corporativa do escritório Barbosa e Dias Advogados Associados.

[1] NBR ISO 26000. Diretrizes de Responsabilidade Social. Rio de Janeiro: ABNT, 2010.

[2] Timothy J. McClimon. 5 Corporate Social Responsibility Trends To Follow In 2020. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/timothyjmcclimon/2020/01/02/5-corporate-social-responsibility-trends-to-follow-in-2020/#658e28877e69 Acesso em 27 abr. 2020

[3] Robin Hicks. The corporate world is helping to combat coronavirus—but mind the virus-washing. Disponível em https://www.eco-business.com/opinion/the-corporate-world-is-helping-to-combat-coronavirus-but-mind-the-virus-washing/ Acesso em 23 abr. 2020.

[4] Robert Reich. It’s morally repulsive how corporations are exploiting this crisis. Workers will suffer. Disponível em https://www.theguardian.com/commentisfree/2020/mar/22/large-corporations-exploiting-coronavirus-crisis Acesso em 23 abr. 2020.

[5] Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.  Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.

[6] Hassan Obeid. The impact of coronavirus on the financial markets. Disponível em https://theconversation.com/the-impact-of-coronavirus-on-the-financial-markets-133183. Acesso em 27 abr. 2020.

[7] Gabriel Shinohara. Coronavírus: Banco Central anuncia nova medida que pode liberar R$ 650 bilhões na economia. Disponível em https://oglobo.globo.com/economia/coronavirus-banco-central-anuncia-nova-medida-que-pode-liberar-650-bilhoes-na-economia-1-24345914 Acesso em 28 abr 2020

[8] Redação Exame. Bancos e corretoras doam mais de R$ 110 milhões contra coronavírus. Disponível em https://exame.abril.com.br/negocios/bancos-e-corretoras-doam-dinheiro-contra-coronavirus/ Acesso em 29 abr. 2020.

[9] SEBRAE. Confira as principais medidas do Sistema Financeiro para apoio aos Pequenos Negócios durante a pandemia do COVID-19. Disponível em https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/veja-as-principais-medidas-financeiras-adotadas-para-conter-a-crise,155168e2ce8f0710VgnVCM1000004c00210aRCRD Acesso em 28 abr 2020.

[10] Antonio Temóteo. Bancos prometem ajuda, mas dobram juros e seguram dinheiro, dizem empresas. Disponível em https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2020/03/26/coronavirus-juros-alta-prazo-corte-linha-credito-antecipacao-recebivel.htm Acesso em 11 maio 2020

[11] Leandro Herrera. Como se preparar para o trabalho pós-coronavírus? Disponível em: https://epocanegocios.globo.com/colunas/noticia/2020/04/como-se-preparar-para-o-trabalho-pos-coronavirus.html Acesso em 11 maio 2020.

[12] Nick De Mey e Philippe De Ridder. Report The new Low Touch Economy: How to navigate the world after Covid-19. Board of innovation.  Disponível em: https://www.boardofinnovation.com/low-touch-economy/ Acesso em 28 abril 2020.

[13] Luiz Cláudio Allemand Uma Economia Pós Covid – Garantia da Democracia. Disponível em https://iabnacional.org.br/murais/mural-dos-representantes/uma-economia-pos-covid-garantia-da-democracia-artigo Acesso em 28 abril 2020.

 

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