Coronavirus: vírus pode desaparecer antes da vacina, diz especialista

Karol Sikora, diretor médico dos Centros para o Cancro de Rutherford e antigo chefe do programa de oncologia da Organização Mundial de Saúde, afirmou no Twitter que “há uma possibilidade real de o vírus desaparecer naturalmente antes que alguma vacina seja desenvolvida”.

“Estamos a ver um padrão aproximadamente semelhante em todos os sítios, suspeito que tenhamos mais imunidade do que o estimado. Precisamos de continuar a diminuindo a velocidade do vírus, mas ele pode estar esgotar-se por si só”, sugeriu nas redes sociais.

Questionado através dos comentários sobre que evidência científica suporta estas afirmações, o oncologista aponta um estudo assinado por investigadores portugueses e brasileiros, britânicos e norte-americanos colocado esta semana na plataforma medRxiv, mas que ainda não foi publicado.

Gabriela Gomes é cientista da Escola de Medicina Tropical de Liverpool e do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto, instituição onde se licenciou em Matemática Aplicada antes do mestrado e doutoramento em Warwick.

Caetano Souto Maior é brasileiro, investigador nos Institutos Nacionais de Saúde norte-americanos, mas doutorado em Biologia pelo Instituto Gulbenkian de Ciência. Jorge Carneiro trabalha atualmente nesse mesmo instituto no grupo de Biologia Quantitativa do Organismo.

Carlos Penha-Goncalves, outro dos autores do estudo indicado por Karol Sikora, é investigador na área da genética das doenças, interessado em descobrir que papel tem a expressão dos genes na evolução de uma inflamação em determinadas células.

Guilherme Gonçalves é professor associado no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, licenciado em Medicina e Cirurgia e responsável pelo Laboratório de Saúde Comunitária. Faz parte do grupo “Estudos de Populações” desta instituição.

Marcelo U. Ferreira é brasileiro e faz investigação na Universidade de São Paulo, mas também passou Portugal enquanto investigador visitante no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa. Por último, Ricardo Águas, especialista em modelação matemática de doenças infecciosas e investigador da Universidade de Oxford.

Estes portugueses e brasileiros com formação em Portugal juntam-se ainda a Rodrigo M. Corder (Universidade de São Paulo), Jessica G. King (Universidade de Edimburgo) e Kate E. Langwig (Virginia Tech) no relatório citado pelo médico britânico.

Segundo o resumo do estudo, que pode encontrar aqui, “à medida que o SARS-CoV-2 se espalha, a subpopulação suscetível vai sendo reduzida causando um declínio na incidência de novos casos”. Ora, “a variação na suscetibilidade individual ou exposição à infeção exacerba esse efeito”, por isso “indivíduos mais suscetíveis ou mais expostos tendem a ser infetados mais cedo, esgotando a subpopulação suscetível daqueles com maior risco de infeção”.

De acordo com os autores do estudo, isso traduz-se numa “desaceleração na incidência” em que “os números dos suscetíveis tornam-se baixos o suficiente para impedir o crescimento da epidemia”, permitindo chegar à imunidade de grupo.

No caso da Covid-19, as autoridades de saúde calcularam que a imunidade de grupo é atingida quando 70% da população fica imune ao vírus. Mas estes autores sugerem que “ajustando modelos epidemiológicos que permitem heterogeneidade aos surtos de SARS-CoV-2 em todo o mundo”, “a variação na suscetibilidade ou exposição à infeção reduz essas estimativas”.

O relatório conclui que “as medidas de heterogeneidade são, portanto, de suma importância no controle da pandemia de Covid-19”. Mas para Karol Sikora, o ex-membro da OMS, este estudo “dá que pensar” e terá sido o que o levou a concluir que o vírus pode sair de circulação mais cedo do que a comunidade científica demora a encontrar uma vacina.

Criticado nas redes sociais, Karol Sikora defende-se: “É da minha opinião que este é um cenário possível. Ninguém está a afirmar que isto vai acontecer de certeza, mas acredito que, numa situação desconhecida, esta é uma possibilidade”. E termina: “Precisamos continuar a manter distância e esperar que os números continuem a melhorar”.

Fonte: Observer