Exclusão social e flexibilização do isolamento: quem vai ouvir a periferia sobre as políticas sanitárias?

Foto reprodução: O Fluminense

Belo Horizonte vem (até aqui) sendo referência no enfrentamento da pandemia. O prefeito Kalil adotou rapidamente a postura de seguir os protocolos da OMS para prevenir o contágio e não saturar o sistema de saúde.

No entanto, está programada para a próxima semana a “flexibilização do isolamento”. Sobre isso, foi ouvido o trio de infectologistas que, conduzindo ações com o total apoio do prefeito, tem sido responsável pelo êxito do Município.

O Estado de Minas desse domingo (24) traz uma detalhada entrevista com cada um deles. Uma das perguntas foi sobre a principal falha estratégica das ações tomadas. Dois apontaram a falta de testes, logo dizendo que essa falha não era do Município. Ou seja, não responderam a pergunta.

Apenas um tangenciou a questão, ao sinalizar que algo não ia bem na adesão das populações mais pobres às medidas. Não chegou, porém, a se implicar na falha e assumir que todo o conhecimento técnico que possuem, e mesmo o inequívoco comprometimento em fazer o que é certo, não é o que basta para propor políticas sanitárias adequadas à periferia.

Faz algumas semanas, talvez um mês, vi uma entrevista do Kalil quando o isolamento foi intensificado. Fazendo uso da linguagem truculenta (tristes tempos em que a ciência não pode abdicar de atitude macho-tosca pra ser respeitada frente à macho-tosquice obscurantista que vem do planalto), ele reafirmava que quem mandava era os infectologistas. Uma resposta particularmente me chamou a atenção. Ele disse que não ia criar comitê consultivo de nada, algo assim: “vocês não tão ouvindo o que tô falando, p…, nem eu vou dar palpite, ninguém vai dar”

Pois estava claro pra mim o que agora se confirma: evidentemente toda a expertise sanitária desses 3 homens brancos de elite não dispensaria a contribuição de cientistas sociais, líderes comunitários, associações representativas de direitos das mulheres e das pessoas negras, quem mais fosse necessário para dar a dimensão humana da tragédia nesse nosso país de desigualdade social, racial e de gênero absurda.

Esses homens, agora, propõem “testar” a reabertura, apoiados em números de leitos e índices de contágio, mas sem disfarçar que aqui jogam com o experimental. Meio “pode ser que aumente o contágio e as mortes, se for o caso a gente recua”.

O problema é que “testar” a reabertura nesse “pra ver como é que fica” é lançar as pessoas pobres à maior exposição. Só posso imaginar o desespero. Há quem leia a matéria e pense “nossa, vou comprar mais alcool gel e máscaras”, sem notar não haver referência alguma a distribuir esses itens a quem não pode pagar. Como fica a rotina de quem executa trabalhos braçais, será só lembrar de não tocar na boca, olhos e nariz? E o aumento de circulação por transporte público?

Por fim, o que mais dói é pensar nas mulheres que serão obrigadas a encarar tudo isso sem uma estrutura paralela de cuidado com os filhos. Aliás, sobre crianças e escolas, nenhuma menção, sequer para dizer que “a situação das mulheres, sobre as quais pesa o cuidado da família, vai ser um problema que demanda atenção”. O sofrimento dessas mulheres ante o desamparo deve estar sendo imaginável.

A linguagem da entrevista deixa assim a incômoda constatação de que a narrativa tem destinatários parciais. Quando se fala em “abrir comércio”, pensa-se em dialogar com o consumidor, que volta feliz a ser livre para consumir. Pouco ou nada se diz sobre o trabalhador que não tem escolha.

Vejamos as palavras do entrevistado que ao menos foi capaz de tomar a pergunta sobre o erro como uma autoavaliação:

“Precisamos infiltrar mais (as informações sobre prevenção) no coração, na alma, na consciência das pessoas em bairros mais periféricos. A gente tem notado que a adesão às medidas, seja de isolamento, seja do uso de máscaras, é menor nas periferias e aglomerados, onde há grande risco de dispersão rápida do vírus. Precisamos saber melhor como tocar mais essas pessoas, embora o trabalho seja constante com os líderes comunitários.”

Infiltrar, adesão, tocar…. os protocolos da zona sul não funcionam na perifa, e por que será?

O que havia de ser dito é: “precisamos urgentemente ter uma escuta ativa em relação às pessoas socialmente mais vulneráveis para saber como pensar políticas sanitárias adequadas à realidade delas”.

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