Brasil em iminente holocausto

Que mundo é o nosso? Este simples grão na teia do universo. Um grão sem luz e movimento, deitado ao abandono, aos vendavais.

Que tempo é este? O tempo das nossas vidas.

Esta minha crônica, a de hoje, poderia ter um pouco mais de colorido no céu das belas narrativas, com maresias musicais ou filosóficas. Mas não! Infelizmente, estou tomado pela ira dos deuses, pelo choro dos humanos que morrem e são enterrados como bichos em valas comum, pela sorte dos idosos que gritam no silêncio e cujos olhos dizem às paredes que a pior sorte do mundo é morrer daquela forma, pelas crianças autoimunes que falecem na aurora da existência…

Que deverei escrever ou dizer, meu Deus?

Este meu texto é de repúdio, contra a sacanagem, contra os monstros do nosso século. Os tivemos em todos os tempos e lugares do planeta, mas, chegados ao terceiro milênio, este não deveria ser o nosso tempo, o nosso mundo. Ai que saudades do futuro eu tenho! Isto é, saudades do paraíso, local da minha utopia – um mundo de paz e harmonia, qual cidade nova, a cidade branca e luminosa, da qual não desisto de acreditar e lutar por ela!

É com muita tristeza que assisto, deste lado do Atlântico, à dramática situação sanitária do Brasil provocada pela pandemia Covid 19. Tristeza e repúdio maior pela figura sinistra de Jair Bolsonaro, que peca não só pela indiferença, mas também pelo menosprezo, cinismo e sacanagem, ao fazer contra-pedagogia em relação às regras profiláticas e por se recusar a tomar medidas para abrandamento do surto.

Não quero ser catastrofista, mas alerto que o Brasil corre o risco de vir a figurar em 1.º lugar no quadro epidemiológico mundial Covid 19, com um saldo de milhões de mortos, se não for contrariada esta política de indiferença e cinismo por parte do poder instalado em Brasília –  um poder criminoso, com estranha forma de holocausto. O que digo não é exagero. Podemos estar perante uma tragédia. Um holocausto mesmo, tanto mais pelas caraterísticas geográficas do país, das suas enormes concentrações populacionais, que são autênticas megapolis, e de muitas habitações próprias, como é o exemplo das favelas.

Como diz um grande amigo meu, as crises e tragédias só favorecem quem está no poder. Neste momento, Bolsonaro conhece o mais baixo índice de popularidade (25%), mas, se não houver um movimento cívico nacional com forte apoio mundial, há o risco de no final do mandato renová-lo, ou seja, voltar a vencer as eleições presidenciais, mesmo que a pandemia, no final (que pode estar ainda distante), se revele catastrófica. Porque, a par do abalo econômico mundial registado e a registar com a pandemia, o Brasil dos mil carnavais, do samba e das cores abundantes da natureza é o mesmo Brasil dos mil contrastes e assimetrias. A perda de emprego, de bens sociais e até mesmo de direitos cívicos darão lugar a grandes convulsões sociais e políticas, que serão campos favoráveis à  intervenção repressiva de Bolsonaro, ao serviço de uma perigosa cúpula de militares com sede de vingança histórica. Aliás, venho escrevendo isso há mais de um ano.

Bolsonaro foi eleito democraticamente. Sim, é verdade. Tal como Hitler, que, depois, deu no que deu. Sinceramente, não creio que as investigações judiciais no processo das fake news venham a fazer justiça alguma, porque toda correlação dos poderes no Brasil resulta dos caprichos dos grandes grupos econômicos mundiais com interesse no país. Não se trata de capitalismo social. É a fera neoliberal que devora o mundo. Esses grupos abraçam as ditaduras mais sangrentas e, quando não podem manter essa relação conjugal, abrem-se às democracias mas estabelecem as suas regras, para financiamento de nichos ocultos, destituindo políticos e pondo lá outros.

Infelizmente, as instituições democráticas no Brasil são ainda frágeis, que não conseguem libertar de vez o país da tentação totalitária. Como já escrevi em crônicas anteriores, isso tem várias explicações. Uma delas é herança esclavagista latino-americana, que, em parte, se transferiu da posse da terra para a posse econômica, financeira e até cultural. É uma estranha forma de fascismo.

Pelo que me tem sido dado a ver desde a juventude, a comunicação social do Brasil é uma das maiores alavancas para a democracia. Por vezes heroica. Um jornalista brasileiro meu amigo diz que “jornalismo não é relações públicas”. Infelizmente, noto que em Portugal o jornalismo tem sido relações públicas, talvez porque a democracia já está bem consolidada. Por exemplo, conheço um jornalista português que se envaidece todo, dizendo que faz  “jornalismo pela positiva”, que é uma eufemística afirmação de cumplicidade.

Reconheço que o Brasil tem muitos profissionais da comunicação social bastante corajosos, que acompanham e dão voz aos movimentos cívicos de base na busca da construção de um pais mais justo.

Por falar em coragem, neste momento, é imprescindível, é urgente  implantar no Brasil um  amplo movimento cívico de impugnação do mandato de Bolsonaro, responsabilizando-o criminalmente pela indiferença e menosprezo em relação à saúde e vida de tantos brasileiros nesta pandemia. Um movimento tão inspirador como o das Diretas Já!, em 1983 e 1984, que contribuiu grandemente para o fim da ditadura. Que seja uma petição nacional com apoio mundial, que condene perante o mundo a tresloucada política do presidente, dos seus apaniguados e da cúpula militar fascista. Antes que seja tarde. Ou seja, antes que o Brasil cai numa guerra civil ou numa nova ditadura militar.

Contem comigo!

1 COMENTÁRIO

  1. Parabéns pelo texto, meu amigo! Espero que os bolsonaristas possam despertar o mais rápido possível e enxergar que todos somos humanos, não existem lados quanto a isso. E a doença, mais do que tudo veio mostrar isso.

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