O começo

Outro dia li por aí alguma coisa sobre a dificuldade dos começos. O fim pode ser frustrante, mas nada se compara ao medo de começar. Tentei compreender os porquês desse receio e pude observar que há, basicamente, um motivo bem evidente: a auto-exposição e, por consequência, as inevitáveis críticas. Lógico que a isto se acrescem algumas “desculpas”, nem sempre esfarrapadas, como a vida corrida, as exigências do trabalho, as crianças pequenas e até a eventual necessidade de “exercer o meu direito constitucional ao silêncio”. O fato é que decidi me convencer que essas escusas não “colam”.

Curiosamente hoje cedo eu fiz um post encorajador no meu Instagram, transcrevendo uma fala da Ângela Davis – negra, mulher, ativista, marxista, feminista, educadora, professora, filósofa, etc e tal – que dizia “você tem que agir como se fosse possível transformar radicalmente o mundo. E você tem que fazer isso o tempo todo”. Pois bem; não vou optar por atalhos ou caminhos menos turbulentos.

“você tem que agir como se fosse possível transformar radicalmente o mundo. E você tem que fazer isso o tempo todo”

Acredito sim que, de alguma forma, seja com base nas minhas experiências de vida, pessoais e profissionais, seja pela minha formação acadêmica, pelos meus estudos, leituras e até mesmo gostos ou inclinações bem particulares, posso gerar inquietações de pensamentos. E precisamos pensar mais, sobretudo aqui, no Brasil. Eis um grande propósito: transcendermos as aspirações individuais para, de fato, compreendermos e aderirmos às autênticas lutas coletivas.

Saio, então, do meu “conforto”, correndo o risco de causar dúvidas e infligir desassossegos, inclusive a mim mesma, mas certa de que a vida pressupõe a aceitação dos fins e exige coragem para enfrentar os começos. Sem nenhuma pretensão der ser “cult”, quero falar abertamente sobre mulheridades, um vocábulo que conheci há pouco tempo e já de pronto me soou tão bem.

Aliado ao conceito de sororidade, expressão cujo emprego vem ganhando destaque recentemente, está o de “mulheridade”, que seria, de forma simples, aquilo que é típico do “ser mulher”. A ideia é também romper com os padrões falaciosos de personalidade atribuídos aos sexos. Assim, mulheridade pode estar associada à ideia de companheirismo entre mulheres ou pessoas que se alinham com mulheres. Pode também se vincular a experiências vividas por grupos de mulheres ou, ainda, a experiências de ser tratada como mulher.

Há tanto para se falar! De conjuntura política a dicas de leitura; de masculinidade tóxica a lugares para se ouvir uma boa música e beber alguns drinks…Por que não? E já que aqui posso tudo, vamos com Clarice (a Lispector), quando diz “dá-me a tua mão desconhecida, que a vida está doendo, e não sei como falar…” e com Carrie (a Bradshaw), que nos convida a correr soltas para encontrarmos outros “alguéns” – tão selvagens – que possam correr conosco.

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